quarta-feira, abril 22

António Gedeão e Herberto Helder


Sabes, Miguel, não gosto de António Gedeão como gosto de Herberto Helder.

Claro que não!

Como te disse, descobri António Gedeão com nove, dez anos, era ainda uma criança.

Foi na biblioteca. Descobri-o num livro. Num poema. Numa lágrima de preta.

E foram muitas descobertas numa.

Já tinha lido outros poemas. Nos livros lá de casa. No meu livro de português.

O meu livro de português tinha poemas que, ainda hoje, sei de cor e salteado, como nunca soube a tabuada.Tinha um poema pequenino, cinco linhas, talvez. E nessa altura - já te disse isto - eu achava que poemas eram poucas palavras a dizerem muitas, muitas coisas.

Nesse tempo, eu achava também que poemas eram escritos que adivinhavam coisas nossas. Talvez porque aquele poema - o do meu livro de português - tinha uma coisa que eu também tinha. E só eu sabia disso. E, então, pensei que poemas e segredos eram a mesma coisa.

Mas nunca um poema, por aquela idade, me soube tanto a palavras para dizer, como aquele, do António Gedeão.

Dei conta que as palavras faziam música.

Nunca um poema fora, para mim, palavras para ler em voz alta.

Depois de ler lágrima de preta, achei que um poema devia ser sempre sentido em voz alta.

E achei mais: achei que um poema era uma coisa útil. Tal e qual um objecto útil que nos facilita a vida. Foi, assim, com lágrima de preta. Descobri António Gedeão e foi com António Gedeão que descobri o que era um pseudónimo. E achei aquilo divertido. E descobri que, afinal, todos temos pseudónimos dentro de nós. Que revelamos ou não.

E, essencialmente, achei que ele fez bem, porque acho Rómulo um nome feio.

Foram muitas as descobertas. Tinha talvez dez anos.

Eu não gosto de Herberto Helder como gosto de António Gedeão.

Descobri Herberto Helder numa livraria. Num livro. Num poema.

Num não sei como dizer-te que a minha voz te procura.

E foram muitas descobertas numa.

Já antes tinha lido poemas. Nos livros, em minha casa. Nos livros das livrarias.

No meu livro de quinhentas e setenta e uma página de poemas, há um poema que me faz emudecer.Por isso, eu nunca o vou poder ler em voz alta. Só sentir.

É um poema que acontece, que teima em acontecer até ao milagre.

Daqueles poemas que mantêm segredos. Secretos, seguros.

Poemas com guelras. Poemas que adivinhavam coisas nossas.

Poemas raros de carne e rosa.

Poemas de muitas palavras, a fazer sentir coisas únicas.

Mas eu regresso sempre ao não sei como dizer-te que a minha voz te procura.

Foi com Herberto Helder que descobri a poesia toda.

E achei aquilo tudo. Terno. Eterno. Violento e voraz.

Mas nunca um poema, por aquela idade, me soube tanto a suor.

Dei conta que as palavras faziam amor.

Depois de ler não sei como dizer-te que a minha voz te procura,

eu achei que quem não o lesse, seria certamente infeliz.

Mas, depois, dei conta que isso de ser feliz ou infeliz é patético,

quando o assunto é aquele poema. E outros.

Foram muitas as descobertas. Tinha talvez vinte anos.

Imagem da livraria Lello: Zaclis Veiga
[texto editado em 2006, ano em que se assinalou o centenário do nascimento de António Gedeão]

20 Comments:

K said...

Uma bela descoberta de infância para guardar durante toda a vida!!

Beijo

Funes, o memorioso said...

Não respondo a provocações!
Eu cá descobri o que era um pseudónimo com o Sr. Adolfo Rocha.
Mais tarde, andei anos convencido que Rómulo de Carvalho era o pseudónimo que usava o poeta António Gedeão, quando escrevia livros de ciência.

Paulo said...

O texto é, todo ele, um belíssimo poema.
Parabéns

Marta said...

K: de infância, de adolescente, de mulher. Sim. E guardarei para a vida. Beijo.

Prof. Funes: já disse que o adoro?
Pois é verdade! às vezes, como agora, adoro-o. :) :) :) :) :) :)

Paulo: fico feliz por ter gostado. Mesmo. Muito. Obrigada.

SILÊNCIO CULPADO said...

Marta

A poesia tem dons desconhecidos que nos invadem e tornam sentidos pensamentos que, por si só, seriam enfadonhos e aborrecidos.
António Gedeão sim, Herberto Helder não tanto. Talvez porque não li contigo um poema em voz alta.

Abraço

Claudia Sousa Dias said...

lindo texto, marinha, lindo mesmo...


beijos

rps said...
Este comentário foi removido pelo autor.
rps said...

ERRO NESSA REFERÊNCIA FINAL: Rómulo Gedeão não morreu, seguramente, em 1906. Assim, em 2006, ter-se-á assinalando o centenário do nascimento, não da morte.
(sou mais sensível aos dados biográficos do que propriamente à poesia)

num relance said...

um poema é um segredo
que num sussurro
te revelo


e levo-o comigo :-)

comboio turbulento said...

Não sei quem é a Marta mas fico contente de constatar que tem realmente vida. Ficarei visita assídua e recomendarei aos meus visitantes. obrig

num relance said...

sou sumariamente impulsivo e
sem acabar de ler o post
armei-me nisto de rabiscar

voltei para ler tudo
e ir sentindo o que fui lendo

"Dei conta que as palavras faziam amor."

as palavras sentem o amor que fazem sentir

obrigado por este post

eu Helder é o Passos em volta

à poesia, tendo-a, ainda não lhe consigo chegar, por medo, receio, parvoíce minha, incapacidade; confesso

um dia chego às palavras
e Helder
e Herberto
vou lê-las
onde me deixarem
e procurar o meu espanto
que li aqui

obrigado por este post
porque me ajuda a lá chegar

tcl said...

este post fez-me regressar ao tempo em que também eu descobri António Gedeão, talvez com o mesmo "Lágrima de preta" ou com "Calçada de Carriche", não consigo lembrar-me qual chegou primeiro, mas foi sem dúvida nas aulas de português dos 3 primeiros anos do Liceu, a mesma professora Maria de Lurdes uqe me ensinou a amar a palavra escrita

a amá-la como a que aqui nos deixou, Marta, numa prosa poética cheia de doçura

gostei muito

Gi said...

Gosto muito de António Gedeão; conheço puco Herberto Hélder;
Gosto de Rómulo, talvez porque sempre associasse o nome à história do nascimento de Roma, com Remo e a loba. ;)

Marta said...

Lídia,
já aqui disse que a poesia é o meu amor mais antigo... E
talvez esse dia chegue! Aquele em que diremos, juntas, um poema de HH em voz alta :)
Quem sabe?
abraço enorme

CSD: a tua opinião é muito importante...quando pões o bem que me queres de lado :) depois conversamos,
beijos, muitos

RPS: está coberto de razão...
«erro meu, má fortuna...»
vou rectificar. Claro que é do nascimento! mas já conhece alguém mais distraído do que eu?
beijos, muitos

Eu agradeço "NUM RELANcE" tanta inspiração :) e obrigada, ainda, pela referência.

Eu tb não sei quem é o comboio...turbulento...mas se é comboio eu já gosto :) Sem ter ido ver. é uma paixão antiga. comboios.rimam com livros!
obrigada e bem-vindo :)

TCL: obrigada, tb, pela doçura do seu comentário! Que bom que gostou.
Calçada de Carriche é fabuloso!
Bem-vinda!

Gi: eu gosto dos dois de forma diferente! é ir à descoberta do que se conhece menos...beijinhos, obrigada


e vivam os livros, HOJE, e sempre!

...eu regresso mais tarde. Com um! Ou mais :_)

Anónimo said...

Eu ainda sei a tabuada. Já poemas...

Maria Benedita

mcjaku said...

Gedeão tem um lugar à parte no meu gosto pela poesia. As sua lágrimas de preto, as suas Luísas que sobem a calçada, a Pedre Filosofal dita de cor, a Fala do Homem Nascido em disco sempre procurado e nunca comprado.
Talvez a sua poesia não me provoque nós no estômago e o enrolar da língua (ao contrário da Marta, eu acho que alguns poemas de Herberto só se completam ditos em voz alta e a língua se enrola, vagarosa, nas palvras) ou a cristalina musicalidade de Eugénio. Tanto pior. Mas é a vida, e não apenas a poesia, que eu celebro quano reencontro Gedeão. A minha e a dos que comigo se cruzaram.

vaandando said...

...ora aqui está uma forma de contar a alguém, como se descobriu a poesia e que bonita.
Um encanto ler, do princípio ao fim e sempre poético, tudo !
abraço poético ,e nos laços do encantamento do mundo !

________ JRMARTO

Marta said...

Maria Benedita,

eu, é menos tabuada :)
beijo, linda

Manel, sempre tão bom ver-te por aqui! beijo, lindo

JRMARTO: obrigadada pelas suas palavras. que bom que gostou :)

Zaclis Veiga said...

Lindo texto.
Procurei ambos por aqui e não encontrei. Qual a editora?

João Rasteiro said...

Poesia sempre! A. Gedeão quando o céu escurece. Herberto quando a morte chegar e o verbo florir...eternidade. Lá estará ele com pessoa, dando "os passos em volta" de camões.
Bjs.

João Rasteiro