segunda-feira, abril 6

Onde se confessam os pianistas?


«Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois. O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto, cheira, o Tacto apalpa, só os olhos têm dois ofícios: Ver e Chorar. Estes serão os dois pólos do nosso discurso.
Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu na mesma potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma, a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento.
Porque ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários, ver e chorar? A razão e a experiência é esta. Ajuntou a Natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, porque o ver é a causa do chorar. Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.

Basta-me escutar. Escutar não tanto a superfície das conversas, mas a dor que dentro delas nada silenciosamente. Os pianistas confessam-se nas teclas, no modo de atacar as notas. Sei quem são Adriano Jordão e Theodor Paraschivescu, conheço-lhes a infância e os sonhos, porque os ouvi tocar. (...) Ah, a terrível bondade daqueles a quem nenhum sentido falta. Esmagam-me de compaixão. Falam-me alto, espaçadamente, como se eu também fosse surda. Agarram-me no braço, continuamente. Queria conhecer alguém que tivesse a sensibilidade de me tocar apenas com o olhar. (...)».

Inês Pedrosa in A Eternidade e o Desejo, pag. 136, 137, Dom Quixote,2007
Texto a bold: fragmento discursos de Padre António Vieira
Imagem: Di Cavalcanti


[para a minha querida E.]

12 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

que belo...mais uma vez. como todos os teus posts...

beijo muito grande para a minha grande grtande amiga.

Anónimo said...

Talvez seja por isso que há um ditado popular que diz
"longe da vista, longe do coração"!

Não ver é realmente o melhor remédio :)
bjo

Cristina M.

Su said...

menina qd estou constipada não cheiro ,mas o ranho nasce em mim............por vezes imagino-me um frigorifico a descongelar-----

ok....marei:)


jocas maradas,sempre

Claudia Sousa Dias said...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Paulo said...

se é verdade que os olhos têm a especial particularidade de terem "dois ofícios", não é menos especial o lugar da pele, como aliás está subjacente no lindíssimo texto da I. Pedrosa. Entendo eu que a pele, na promessa que contém e nas descobertas que traz,deve ser a confluência e conter a soma de todos os outos sentidos Tem de ser o sentido mais apurado.... e a leitura do seu post provoca um arrepio. Parabéns.

E. said...

Os dedos também choram.
E acho que não consigo dizer mais nada.

E.

Marta said...

CSD: só podia ser belo, um post com um excerto deste livro, da Inês Pedrosa!

Su: marei... percebi :)creio!

Paulo: bem-vindo!
«A Eternidade e o Desejo» tem, quanto a mim, esse mérito: o de provocar um arrepio [muitas vezes].

E. querida,
em silêncio, sem conseguires dizer mais nada, dir-me-ás sempre muito. tanto...

sintam-se abraçados :)

Funes, o memorioso said...

Excelente post. Nele se destaca perfeitamente (e não só por causa do bold) a genialidade absoluta de António Vieira em contraposição com a miséria grotesca da escrita de Inês Pedrosa.
Só é pena que a menina comece o comentário anterior a negar a excelência do post.

Eduardo Trindade said...

Olá, Marta!
Lindo tudo!
Sabe o que me chamou a atenção? Trata-se de uma postagem, digamos assim, muito sinestésica. Coincidência ou não, ao falar dos sentidos cá se juntaram vários deles. As palavras longínquas (surpreendentemente atuais) do pe. Vieira, e as de Inês, as cores de Di Cavalcanti, as danças de tantas teclas (fiquei imaginando Chopin...)
Abraços e saudades de ti!

Marta said...

Sr. Prof. Funes:

O seu comentário é mais uma das suas heresias nacionais!
Inês Pedrosa é brilhante todos os dias!

Eduardo: vou-me redimir :)

Patti said...

Ainda me lembro, da minha velha professora de Língua Portuguesa dizer, que já tinha contado quantas vezes António Vieira referia neste sermão, as palavras "chorar" e "não".

E fazia o mesmo, noutros textos dele.
Manias...

Marta said...

Patti: vi agora!!!

que bonita recordação :)