domingo, abril 19

Foi assim que comecei a amar Sophia


O meu amor mais antigo é a poesia. A seguir à minha mãe. Sendo que mãe e poesia são, tantas vezes sinónimo, no meu dicionário de afectos. Tenho a sensação de sentir poemas muito cedo. Mesmo antes de começar a ler. Uma vez, no início da infância, senti muito medo e a minha mãe abraçou-me com muita força. Foi um abraço extraordinário. E eu, dentro do abraço dela, tive uma sensação de poema, que ainda hoje se mantêm. Depois, na escola, os meus livros de leitura tinham poemas que decorei. E só aí percebi que os poemas também se fazem com letras. E recordo-me, por exemplo, que astronauta rima com pernalta. E flor com dor. E contou com enrolou. E lembro-me, de como a febre das rimas tomou conta do meu universo de palavras. Não havendo nenhum remédio para a baixar. Tal como não havia nenhuma palavra que eu não fizesse rimar com outra. Até à exaustão. Da minha mãe. Que dizia: deixa lá!Procuramos amanhã. Recordo-me de pôr o Meio Físico e Social, a rimar com jornal. E ainda sinto a tristeza de não ter sido eu a arranjar uma rima para a Matemática. Andava na primária.

Depois, foram as histórias mais compridas. Não rimavam. Mas a sensação de poema ficava cá dentro. Quando gostava muito delas. Até que, um dia, chegou a Menina do Mar. E eu percebi que os poemas e as estórias eram feitas por pessoas que conheciam outras pessoas, coisas e lugares que um dia, eu também queria conhecer. E pensei na sorte de Sophia! Por conhecer uma menina “de cabelos verdes, olhos roxos, com um vestido de algas encarnadas”. E um Rapaz de Bronze e uma Fada Oriana e um Cavaleiro da Dinamarca. E, depois, por Sophia, descobri que as estórias podiam ter poemas dentro. [Como os filhos, dentro dos abraços dos pais]. Como na estória A árvore, que tanto gostei de ler. E percebi, com clareza, que uma árvore pode transformar-se numa barca. E que, deste modo, uma árvore pode viver no mar. E descobri como um mastro se pode transformar numa guitarra e como essa guitarra pode ter voz. E como essa voz pode ser uma canção e como uma canção pode ser um poema. E como um poema pode ser a memória de uma árvore ou de um povo.

Ensinou-me o espanto. Foi assim que comecei a amar Sophia. Desde muito cedo. Ela cresceu em todos os meus sentidos. Em todo o meu sentir. E percebi, com ela, que não podia viver sem livros. Porque os livros dela me tinham ensinado a olhar para além do aparente. E foi, assim, que a fui procurar às livrarias. Pelo nome. E foi dela, o primeiro livro que eu comprei. Histórias da Terra e do Mar. E, depois, todos os outros que me chegaram. Até toda a sua poesia me entrar, letra a letra, nas veias. E circular como seiva. Até perceber a raiz do “inteiro” e do “original”. Até compreender todas as ilhas que habitam o mundo. Até me apaixonar pela Grécia. Até o mundo, não respirar sem ela. Sem a sua poesia.

E depois, ia-lhe escrevendo cartas. Até que um dia, em Viana do Castelo, durante uma Presidência Aberta, dei conta de nós, no mesmo lugar. Do lado de fora dos poemas. Peguei nas minhas cartas e nos seus livros. Na convicção mais funda do nosso encontro. E nas palavras iniciais que lhe queria dizer. Quando cheguei à Pousada de Santa Luzia, não havia santa que valesse a tanta ansiedade. Não sabia onde por as mãos e, muito menos, o coração. Não sabia nada. O seus poemas todos cá dentro. Como se fossem um só. As palavras apertadas na garganta. Os lábios colados. Quase não respirava. E acho que, mesmo assim, rezei. Para aquela gente ir toda embora. Mas não aconteceu. Até que ela se levantou e eu paralisei. Mas consegui ouvir e ver. E vi-a tão extraordinariamente bela. Tão extraordinariamente sábia. Tão extraordinariamente serena. Que não consegui fazer nada. Nem tão pouco aproximar-me. Admirei-a de longe. Como tinha de ser. Numa afasia total. Numa epifania absoluta. Dentro dos livros. No nosso lugar. Até ao dia da sua morte. Doze anos, depois, daquele dia, em que a vi. Sem a imaginar. Nessa noite de Julho, li-lhe as minhas cartas. Em voz alta. Só lá estava eu. E ela.

«Seu rosto seria a cintilante claridade
De uma praia
E em sua humana carne brilharia
A luz sem mancha do primeiro dia»
Sophia de Mello Breyner Andresen

21 Comments:

PAS[Ç]SOS said...

a poesia também se escreve assim com palavras seguidas, em linhas seguidas. seguidas pelas vontades que ganham força nos sentires.

Paulo said...

Todo o seu post é um extraordinário poema. Parabéns.

Su said...

excelente post

amei.t na leitura,

li, reli, perdi-me....

amo sophia, ela e a outra

amo as palavras


-------------eu e ela.s


jocas maradas de sentires

K said...

Não é a primeira vez, nem há de ser a última! É por estas palavras que te conheço...é por este sentimento que tu és que fascinas!!!
Lindo texto!!!

Beijo

Anónimo said...

Estas são as verdadeiras homenagens que se podem fazer aos escritores.
É esta a responsabilidade de quem escreve, educar gerações, influenciar a forma de se ver o mundo. Tudo aquilo que leu de Sophia com certeza influenciou o seu modo de ver e analisar tudo o que a rodeia, influenciou o seu modo atractivo de escrever.
E ainda bem, porque está de parabéns por esta homenagem que faz a esta Senhora da poesia portuguesa. Bem-haja pelas partilhas que faz.
Maria Manuel Figueiredo.

Gisela Ramos Rosa said...

Gostei muito do seu texto Marta. Uma prosa poética! Um beijinho.

Anónimo said...

DEDICO-LHE este poema de SOPHIA!
Um dos meus preferidos, só para lhe dizer obrigada MARTA, pela VIDA das suas PALAVRAS.

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Zaclis Veiga said...

Vicei em você. :)

Luis Bento said...

Estou à procura das palavrs para comentar... falar na homenagem, na sensibiliadde, na força do teu texto..é pouco... e eu não alcanço mais longe.
Brilhante!
Bjs

lupussignatus said...

mar

de

afectos



[cristalino]

num relance said...

há amores eternos sempre

Paulo - Intemporal said...

por Sophia tenho a alma em paz presente.
______________________________

"Quando eu morrer, voltarei para buscar, os instantes que não vivi junto do mar"
______________________________

e saio. comovido.

íssimo beijo meu.

Claudia Sousa Dias said...

linda,linda linda...!

comosolhos da cor do mar egeu...e o sorriso das praias de Mykonos...


csd

Patti said...

Que dizer, Marta?

Que dizer?

Marta said...

Mentia, se não confessasse que este é um dos posts que mais prazer me deu escrever.
Porque me fez saber de mim.
Quando temos 20 anos, de facto, acredita-se de forma diferente. E ver Sophia, fora dos seus/meus livros, apesar de não lhe ter conseguido falar, foi muito importante para o meu acreditar. Para os meus sonhos.Naquela altura.
Estou muito,muito grata a todos os que leram e gostaram. E infinitamente grata a Sophia.
Devo, ainda, dizer que este post foi despoletado por uma pergunta de JRMarto, que no seu comentário em "A respiração das coisas", perguntou se "havia mais".
Ao que lhe/me respondi com este texto. Uma forma longa de dizer que aqui e em mim, há sempre Sophia.
Obrigada. Muito.

Gi said...

Que maravilhoso poema este, Marta.
Liiiindo, simplesmente.

Pedro Lopes said...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro Lopes said...

"aqui e em mim, há sempre Sophia"


num eu
esse ti

aqui
na alma
poesia
na alma
luz
poente
nascente
luz
e gente

Marta said...

Tão lindo Pedro!

Só vi agora :)

Pedro Lopes said...

obrigado (blush)
se é dom, não sei, vai saindo;
e nisso, seja o que for :-)

Anónimo said...

Sabes que não sou muito sensivel a estas coisas mas gostei muito de ler.

bjs
Carla