quarta-feira, abril 1

A mulher que não vende a SMS

Lê o jornal na diagonal, a correr. Só os títulos e os leads. Não dá para mais. Só as notícias suficientes do café matinal. Antes de começar a trabalhar. De repente, estanca no anúncio, a bold:
Vende-se SMS
107 letras
2 pontos finais
2 travessões
3 vírgulas
1 ponto de interrogação
Bom preço.

Não quer acreditar no que lê. O mundo é um lugar estranho. E belo. Está tudo louco. Não quero viver aqui! Pensa. Que a outra venda a morte em directo, o outro as desilusões da vida, a outra a virgindade. Pronto! Mas um SMS!!!!
Perdido nestes pensamentos, incrédulo, pede ao senhor do lado:
- importa-se de ler, este anúncio, por favor. Em voz alta. Rápido. Que eu já estou atrasado.
O senhor lê.
E o senhor que leu, em voz alta, rápido, sem se engasgar, pergunta-lhe:
- é de hoje o jornal?
E o homem sai para a rua, absolutamente perturbado com o anúncio, abanando a cabeça, lentamente, ora para a direita, ora para a esquerda. Quando volta a parar, mesmo em cima de um outdoor, colocado à frente do seu nariz:

Vende-se SMS
107 letras
2 pontos finais
2 travessões
3 vírgulas
1 ponto de interrogação
Bom preço.

A cidade emite aquele anúncio a uma velocidade vertiginosa! Em tudo o que é suporte publicitário, aparece o anúncio da SMS. Mupis, autocarros, fachadas de prédios devolutos! Até os jornais gratuitos e todas as revistas do quiosque fazem menção à venda da SMS. Até mesmo uma avioneta, sobrevoa a cidade com uma faixa ondulante a promover a venda. Entre os transeuntes, o homem dá, agora, conta – estupefacto - de uma autêntica brigada publicitária que coloca cartazes, calmamente, em todas as paredes desocupadas da cidade.
Mesmo naquelas em que é proibido fazer afixações.
Sobe ao terceiro andar do seu escritório e todos os colegas tem na mão um panfleto anunciando a venda da SMS! Todos, pela manhã, retiraram das caixas do correio a insólita mono folha. Todos! Mesmo daquelas que tem um autocolante amarelo a dizer: por favor não deixe publicidade.

No escritório comentavam, entre si, que no Ebay a licitação da SMS vai numa fortuna! E que quem teve a ideia de a vender, não precisaria de trabalhar mais. De repente, ficaria rico, milionário, talvez. Era ainda manhã e o valor da SMS já tinha ultrapassado todas as expectativas.
Entretanto, outros comentam que as televisões andam desesperadas para saber quem colocou o anúncio, quem accionou a campanha. Querem fazer um directo. Quem se teria lembrado de vender a SMS, o que diriam aquelas letras e sinais, qual era a mensagem.
Como, quando, quem, onde, porquê?
De repente, alguém informa, que no Twitter um homem seguia outro homem que por sua vez conhecia… quando, a rádio anuncia:

Campanha da venda da SMS cancelada. Encontrado homem que a roubou.
Pertence a uma mulher pobre que declarou não a querer vender.
Alegou que a SMS não tem preço. Para além de que ninguém sente o que ela sente ao lê-la.
É para ela. É única. É eterna.
Tem exactamente o tamanho do seu punho fechado.

[e foi assim que as SMS entraram para a Bolsa de Valores]

5 Comments:

Anónimo said...

Está genial, menina! Que ideia mais TUA, mais maluca, mais LINDA!!!! Sabes que a notícia já anda nos nossos telemóveis...por SMS!!!!!
Claudia

K said...

Começei a ler e fiquei preso até ao fim surpreendente. Bela história que contas em breves minutos e fica cá dentro para sempre. Por momentos, fez-me lembrar a Invenção do Amor. Afinal, podia chamar-se a Invenção da AMIZADE.
Não sei que te diga mais, cara linda, digo, cara Marta!

* hemisfério norte said...

Boa!!!

dá gosto ler assim

bj
ana

CA said...

SMS: Sempre Marta Sempre ...;-)

~~~~~
@ | @
~

Dalaila said...

Quando a amizade tem todos os valores e rebenta com qualquer escala!

beijão minha amiga e por isso nos conhecemos!