sábado, abril 25

Uma carta aos Serviços de Censura


Por ordem de V. Exa. Foi o meu livro HISTÓRIAS DE AMOR proibido de circular. Por ordem, ao que creio, do Ministério do Interior e em complemento da decisão de V. Exa.sobre a citação da Obra, foi encarregada da apreensão da PIDE. A intervenção inesperada desta Polícia Especial num assunto de índole exclusivamente literária é de todo o ponto injustificada e veio dar à questão um significado que lhe é totalmente alheio, podendo, em síntese, definir-se como atitude abusiva de direito policial.
Em verdade, não vejo eu – nem a Censura, ao que parece – que em HISTÓRIAS DE AMOR se atente por qualquer forma contra a segurança do Estado. Tão-pouco me parece motivo de polícia a atitude de um escritor português que se debruça sobre aspectos reais e concretos da realidade portuguesa, condenando, por exemplo, o adultério (Week-end), a vadiagem de pior extracção (Ritual dos Pequenos Vampiros), o amor clandestino (Rapariga dos Fósforos), etc. – aspectos da realidade quotidiana que qualquer moral consequente ataca. Muito pelo contrário,entendo que tal atitude é meritória e vem em abono dos mais elementares princípios morais. Nunca, seja em que caso for, ele seria objecto de polícia e muito menos de Polícia Especial.

Não é meu propósito fixar-me aqui em considerandos que com justiça viessem sublinhar a ilógica intromissão da PIDE no caso. Permito-me apenas trazer ao conhecimento de V. Exa. Este meu necessário protesto, certo de que, como Director de um organismo destinado expressamente a tratar de direito de assuntos literários, não deixará de lhe dar a merecida atenção.Isto porque cuido que os Serviços de Censura, sob a Direcção de V. Exa., não são de modo algum instrumento activo de política sectária mas um «meio de harmonizar trabalho dos escritores com a lei e os superiores interesses da Nação».
Consideraram os Serviços de Censura a minha obra HISTÓRIAS DE AMOR como:
a) De conteúdo social – V. Exa. Decerto avalia a que ponto tal classificação é pessoal e arbitrária e por mim, Senhor Director, permitindo-me observar aqui que nem o romântico Garrett escapou na boca de muitos críticos a esse rótulo.
b) Demasiado realista em certas passagens – Pelo exemplar censurado que me foi cedido para consulta e que justamente restituo, pude verificar que a quase totalidade dos «cortes» é, no mais exigente e puritano dos conceitos, infundada pois trata-se de frases comuns, e comummente aceites sem intuito pornográfico ou sentido aliciante de baixa literatura. Tomo a liberdade de submeter a V. Exa. Estes exemplos que propositadamente não escolhi constituem os «cortes» totais de 3 páginas:

«de novo tombavam para o lado e ficavam assim, as bocas entreabertas – misturado com a saliva dos beijos – É indecente, estou a molhar-te com suor» (pag.33); «lá estava ela ainda no leito com uma perna abandonada entre os lençóis – o sol e a perna loura entre os lençóis ainda quentes – o moço saltou da cama e veio até à janela enrolado na coberta – e novamente os apertou nos dentes» (pag.40); «nu» (pag.153).

No que respeita a este último aspecto, afigura-se-me de único interesse saber em que medida estas palavras funcionam como elementos eróticos ou deturpadores da realidade e não como em si mesmas podem ser tomadas. As palavras são sempre vazias e só tomam corpo e sabor autênticos quando informadas de intenção.
[...]
É evidentemente certo que Maiakowski e Eluard são poetas e cidadãos comunistas, mas uma leitura mais circunstanciada do texto poderá demonstrar que os cito de mistura com Gide, Pessoa e Debussy não foi por pretender camuflá-los (tão conhecidos eles são! ) Mas para sugerir que naquele momento do conto não interessava ao protagonista qualquer evasão literária ou artística fossem quais fossem as suas preferências [...]
Mais razoável, perante as justificações que acabo de apresentar, e mais consentâneo com o desejo do meu editor, seria o de se considerar o livro em bloco, não exigindo emendas a cada um dos «cortes» de per si, substituindo-se um caderno de 32 páginas em todos os exemplares apreendidos para que desta forma se aproveitasse a quase totalidade dos exemplares com as restantes páginas impressas.
Convicto de que este alvitre e as razões aqui alegadas merecerão a consideração mais justa e oportuna, subscrevo-me...
Excertos da carta de José Cardoso Pires ao Director dos Serviços de Censura (26.10.52)
Escrita após a proibição e retirada do mercado de Histórias de Amor, classificado como «Imoral. Contos de misérias sociais e em que o aspecto sexual se revela indecorosamente. De proibir.»
Texto citado a partir de Cândido de Azevedo, in A censura de Salazar e Caetano , Editorial Caminho 1999
José Cardoso Pires in Histórias de Amor, Edições Nelson de Matos, pag. 165-171, 2008
[Porque me é impossível imaginar o mundo sem que todas as palavras respirem! Esta é a minha forma de celebrar o 25 de Abril. É também a minha homenagem a José Cardoso Pires que tanto, tudo, íssimo gosto de ler. Uma forma de agradecer o poder dizer, hoje, o abecedário inteiro. O meu superlativo absoluto sintético de liberdade.]

10 Comments:

Paulo said...

Assino por baixo. Obrigado pela celebração e homenagem.

K said...

E viva a Liberdade que existe em todas as palavras!

Paulo - Intemporal said...

__________________________________

vinte e cinco de abril de dois mil e nove
__________________________________

e porque são sei dizer melhor e se soubesse não saberia dizer assim, digo que,

"Há uma Justiça para ricos e outra para pobres, uma Justiça para famosos e outra para anónimos, como há Saúde e Educação diferentes para ricos e pobres. Cumprir Abril é uma questão de justiça. Já não podemos esperar mais 35 anos".

Paulo Baldaia

______________ para reflexão [...]

Eduardo Trindade said...

Muito interessante!
Para não deixar esquecer nem parar no tempo... Não é mesmo?

"Fica proibido o uso da palavra liberdade (...)
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo, um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem."
(Thiago de Mello, conheces?)

nilda said...

Cheguei aqui em busca do prazer do tertulia que nem achei. Achei foi o prazer de passear atentamente no seu blog.Prazer tal que me fará voltar sempre.
Irei atraz da sua recomendação de leitura"Somos..."

Beijoca.
Nilda.
http://meucantin5.blogspot.com/

Anónimo said...

É incrível pensarmos que um dia houve palavras censuradas,que as pessoas não podiam dizer o que pensavam, da forma que muito bem entendessem. Nós, não vivemos isso mas, hoje a liberdade tem outra dimensão. A nossa geração, a que nasceu com o 25 de Abril, falta a liberdade de ter Educação, Saúde um Emprego. Não ter um emprego, condiciona a vida a muitos pessoas é a real falta de liberdade, hoje em dia.
Quanto a José Cardoso Pires, nunca li nada dele!Mas deu-me vontade de começar já por este, pelas Histórias de Amor.
beijinhos
Cristina M.

Maria Emília said...

Se outras conquistas ainda não foram alcançadas esta, pelo menos, foi.
Bem hajam todos os que lutam pelo total alcance da liberdade individual e colectiva.

Um abraço,
Maria Emília

José Manuel Dias said...

Só se dá valor ao que nos falta.
Abraço

Claudia Sousa Dias said...

é ridículo...

faz-me lembrar alguem que nos dias de hoje chama de terroristas a quem o critica...


csd

Claudia Sousa Dias said...

este ainda não li,mas sei que vou adorar....


csd