quinta-feira, abril 9

A Páscoa pelos rituais

[Para a Cristina. Onde quer que esteja]

Naquele tempo, a Páscoa chegava-me pelos rituais. A casa era o primeiro. Saia tudo do lugar. Para ficar tudo no mesmo lugar. A Cristina começava, pelo menos, quinze dias antes. Abriam-se as janelas, demoradamente. O sol entrava, demoradamente, na sala de estar, voltada para o terraço. E as cortinas ondulavam serenas nos reposteiros altos. As pratas brilhavam mais. As toalhas brancas cheiravam mais a linho. E a louça Vista Alegre era, ainda, mais alegre. E os copos de cristal tilintavam mais. E a minha mãe chamava mais vezes pela Cristina. E ela corria pela casa toda. De uma ponta à outra. Uma azáfama. Até ficar tudo puro e sagrado como água benta. A dispensa, ao lado da cozinha, cheirava a pão-de-ló e a doces de ervas e açucar. E na sala de jantar, a mesa abria-se e o carrinho de chá ficava vazio, para pousar as travessas. A cozinha era, então, poucos dias antes, um reino de pequenos saberes. E sabores. No quintal, a terra revolvia-se e os canteiros tinham muitas flores. Até os peixes vermelhos, no lago, pareciam novos. O pessegueiro, todo cor-de-rosa, vestia-se de novo. Como todos os anos, por aquela altura. O limoeiro ainda tinha limões e as pereiras já não tinham peras. E o quintal cheirava a tangerinas. Depois, a Páscoa, chegava também pelas roupas novas. Para mim e para os meus irmãos. A Cristina também tinha roupa nova e um avental novo. E ficava tão feliz! E nós com ela. Porque a Cristina sorria como se fosse a mulher mais feliz do mundo. Mesmo quando partia alguma coisa, lá em casa. Sorria. E pedia desculpa. E dizia, foi sem querer, minha senhora. E a minha mãe dizia que ela não tinha juízo nenhum. E eu pensava que ter juízo não era importante. Quando se sorria assim. Com a boca. E com os olhos. E com as mãos. Naquele tempo, o que eu mais queria, era sorrir, assim, como a Cristina. Por dentro e por fora. Depois, no dia de Páscoa, de manhã, muito cedo, íamos para o quintal, eu e os meus irmãos. E a minha mãe, à nossa frente, escolhia as flores e os arbustos que podíamos usar para fazer a passadeira para o Compasso passar. E, mais tarde, a minha mãe confiou-me essa tarefa. E eu, com uma tesoura, cortava, com muito cuidado, as flores mais débeis. Tirávamos-lhes as pétalas e fazíamos uma espécie de pot porri. E as nossas mãos ficavam com o cheiro da Primavera. Depois espalhávamos tudo, em desenhos pouco geométricos, deste o portão, até à porta do halle da entrada. O vinho do Porto já estava na mesa do centro da sala de estar, quando ao longe se ouvia a sineta do compasso pascal. Depois, a minha mãe colocava dinheiro num envelope e pousava-o junto da taça das amêndoas. O meu pai arranjava o nó da gravata e colocava um cartão de visita, dentro do envelope. A minha mãe, voltava a abrir o envelope, e tirava o cartão. E dizia que quando se dá, ninguém precisa saber quem deu. E voltava a fechar o envelope. Definitivamente. E o tilintar da sineta agudizava-se mais e mais, até o som de metal entrar todo dentro da casa. Os meus pais beijavam a cruz. Eu e os meus irmãos e a Cristina beijávamos a cruz e o Senhor Padre dizia sempre algumas palavras, como se rezasse. Benzia-nos a nós e aos móveis e a tudo em volta. Depois bebiam um cálice de vinho, despejavam as amêndoas para um saco de pano e pegavam no envelope. A sineta voltava a manifestar-se, estridente, até à próxima casa. E depois, antes do almoço, íamos à missa. E quando voltávamos o meu pai ficava a ler o jornal como se fosse um dia qualquer. Os meus irmãos brincavam. A minha mãe e eu púnhamos a mesa. Uma mesa nova, como as nossas roupas. E com flores no centro. Da cozinha, a Cristina fazia caretas, quando a minha mãe não via. E sorria. Como se fosse a mulher mais feliz do mundo. Como se soubesse que em todas as Páscoas, mesmo as que não me chegam pelos rituais, eu me lembraria sempre
do seu sorriso.
[Boa Páscoa! Estimados visitantes, deste mini planeta:)]

Imagem: José Pedro S. do Amaral

18 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

que lindo, menina!

gostei mesmo muito deste!

e até dá vontade de voltar à aldeia!

lembras-te dos pêssegos farinhentes de aparta caroço que se colhiam nos quintais, deliciosos com bicho e tudo?

:-)

beijinhos


csd

PAS[Ç]SOS said...

Infinitamente lindo... Marta!

Dalaila said...

Essa Páscoa nunca a senti, tive outras, tantas outras, com outros rituais,
A ti desejo-te tudo em ritual, sempre!

beijinhos minha querida

rosasiventos said...

bem vinda a rosasiventos! :)

belo texto o teu!!

boa páscoa*

Baudolino said...

Faz-nos ir em busca de memórias saborosas.
Boa Páscoa

Toze said...

"E eu pensava que ter juízo não era importante. Quando se sorria assim. Com a boca. E com os olhos. E com as mãos."

Belas são estas memórias que nos fazem sempre voltar lá atrás no tempo, e recordar tudo e todos, com um sorriso como o da Cristina :)

Gostei
Beijo Marta

K said...

Nada como relembrar e viver coisas pelos teus olhos! ès puro sentimento!

Obrigado por saberes partilhar isso tão bem!

Beijo

Anónimo said...

Confesso que a Páscoa não é daqueles momentos que me tenham deixado marcas. Porém, pelos pães-de-ló fofos e carregados de ovos caseiros [isso sim ficou entranhado na memória] e agora por este texto com cheiro a limpo e a flores primaveris...

Elipse said...

Lindas memórias com cores e cheiros.
Boa Páscoa para ti, minha linda!

sonja valentina said...

grande homenagem às doces recordações que nos fazem ser como somos, hoje.

feliz páscoa!!!

Eduardo Baltar Soares said...

é tão lindo o teu texto Marta, obrigado. E obrigado por me fazeres lembrar da casa dos meus avós, lembro-me quase sempre, mas posta assim é ainda mais bonita. Feliz Páscoa para ti e para a Dona Cristina

vaandando said...

... e depois de apreciada a Páscoa de purificação ritualística na infância, aqui descrita com sensibilidade, resta-me desejar-lhe duas boas páscoas , a da memória e da dos próximos dias...
cordialmente
________ JRMARTO

Texto-Al said...

páscoa é sempre páscoa. prefiro a páscoa ao natal.

T.

james p. said...

Obrigado pelo lindo texto.Feliz páscoa.

rps said...

Curioso: algumas das minhas memórias deste tempo são semelhantes. Não me ataca, contudo, nenhuma nostalgia.

Marta said...

CSD: por esta altura, só me lembro mesmo das flores do pessegueiro :)

Passos: infinitamente grata!

Dalaila: adorei os teus rituais!

rosaseventos: bem-vinda, também. e contente, por teres gostado!

Baudolino: em busca...sempre!

Toze: brindemos às palavras!

K: uma vénia ao teu olhar! Sentida.

Anónimo: o seu comentário...merecia revelação!
obrigada.

Elipse: mulher linda de palavras lindas :)

Sonja: cada um faz a homenagem como sabe! Não tenho o dom das tuas belas imagens :)

Eduardo: eu é que te agradeço. o carinho :)

JRMARTO: sempre agradável o andamento das suas palavras :)

T. eu prefiro recordar. Tudo :)

James: obrigado :)

RPS: não é nostalgia! é puro recordar. ou impossível esquecer. no caso, tanto faz. foi assim.

sintam-se abraçados

Claudia Sousa Dias said...

errata: os pêssegos são "farinhentos" e não "farinhentes".

:-)


CSD

Zaclis said...

Que lindas lembranças e rituais. Feliz Páscoa. beijo