quinta-feira, abril 2

A Biblioteca Infinita


Cheguei lá através do Devida Comédia. Espreitei e gostei. Não tencionava demorar muito. E demorei. Descobri várias coisas. Interessantes. Mas gostei muito, tanto, tudo de três textos. Com eles e sob o título «O meu coração pertence a estranhos», Alexandre Gamela, ganhou o XII Concurso Literário Hernâni Cidade. Deixo aqui este. O essêncial está nO Lago. Aliás, acho que está lá o mundo inteiro. Aos posts.

Mas vão lá ver e ler...Vale a deslocação. É já aqui.


Um blogue não é apenas um pedaço de realidade ou inteligência, é também ficção. É a oportunidade de qualquer um, com a suficiente educação e meios digitais, poder recriar o seu universo, escrever os livros que estão nas prateleiras da Biblioteca Infinita, deixá-los à mercê do olhar de outros. Escrever um blogue é como falar ao ouvido de estranhos, sem nunca podermos saber qual será a sua reacção, se a tiverem. É também uma mão estendida à identificação e à aproximação de indivíduos que de nunca de outra forma se encontrariam, é o ultrapassar das barreiras físicas através da partilha pessoal, intelectual e espiritual. E a cada pedaço que cortamos do nosso cordel para criarmos mais um nó, abrem-se possibilidades inimagináveis. Os volumes amontoam-se por magia nas prateleiras que ladeiam a nossa exploração sem fim, cada um com o seu traço, cada um prestes a ser descoberto. É o fruto e expressão desse mundo em contínua expansão onde a única barreira – e cada vez mais ténue – é o idioma, e as suas sementes são a partilha, o exercício da liberdade e, também, narcisismo. É escolher um pouco de nós e mostrá-lo a quem quiser ver.
Em cada segundo que se demorou a ler este texto foram criados 1.4 blogues, e publicaram-se 1000 posts por minuto. Nunca se leu nem escreveu tanto, o que só nos faz pensar quão longe estamos da revolução provocada por Guttenberg.

A caneca arrefece de vazia, mas ainda vive lá dentro o cheiro do café. Da janela podemos ver a rua, onde, no meio da multidão que prossegue no seu rumo, há já quem nos conheça, há já quem se tenha cruzado com os nossos pensamentos, há quem nos tenha influenciado, sem nunca lhes termos visto a cara ou sentido a vibração da sua voz. Somos figuras de carne e osso anónimas que se assumem famosas no mundo virtual. E a nossa obra não tem um fim, como nos romances.
Voltamos para a frente do ecrã, a nossa janela para as ruas cheias de janelas de todo o mundo, colocamos as mãos em cima do teclado, e começamos.


Alexandre Gamela in O meu Coração Pertence a Estranhos
Imagem: biblioteca infinita daqui

5 Comments:

Miguel Vaz said...

É bem verdade.

Claudia Sousa Dias said...

ah...a biblioteca de Babel tão borgiana...


csd

PAS[Ç]SOS said...

E que mais dizer, quando está tudo dito?...

Funes, o memorioso said...

Isto ganhou o prémio literário Hernani Cidade? Coitado do Hernani Cidade!
Como acertadamente nota Cláudia Sousa Dias, a Biblioteca de babel é uma invenção de Borges. E é hexagonal e não redonda. Se um dos membros do júri tivesse alguma vez lido esse conto, recusava-se a atribuir o prémio a uma escrita tão fraquinha como a de Alexandre Gamela.
Também é verdade que só li este excerto que a Marta aqui nos trouxe, mas suponho que ela escolheu o melhor.

Marta said...

Caro Prof. Funes,

2 questões:

a imagem editada nada tem a ver com o texto do autor Alexandre Gamela. fui eu que a escolhi,entre outros motivos, por se intitular tal qual o texto.

[Sei muito bem qual o conceito borgeano de... está aqui na essência]

já leu o conjunto dos 3 textos editados sobre o título O Meu Coração pertence a estranhos - Desenrolando o Fio de Ariadne pela Biblioteca de Babel?

Se não leu, vá ler, por favor. E, então, depois, falaremos.

Não sei se escolhi o melhor ou pior texto. Sei que escolhi o que, no momento, mais me disse. Por motivos que não interessa nada estar aqui a explicar.

Finalmente: Pois discordo de si! Hernani Cidade, sai homenageado com este conjunto de textos de Alexandre Gamela.
Pelas ideias e pela forma como as tece.

E podia defender melhor a minha posição, se não tivesse pela frente 500 KM para fazer! Já daqui a pouco.Mas se for caso disso, voltarei cá, depois.

Miguel, Claudia, Passos;

abraço-vos, também...e partilho... :)