domingo, abril 26

Quando o assunto é desconstruir


Quando o assunto é desconstruir, não tenho como não regressar aos seus livros. Jacques Derrida é incontornável nesta matéria. A escrita e a Diferença é um dos livros que tenho por perto. Em 1998, a exposição 100 Livros de um Século, no Centro Cultural de Belém, dedicou-lhe espaço. O guia que trouxe comigo diz assim:


«Um dos filósofos centrais deste fim de século, Jacques Derrida leva mais longe a crítica heideggeriana à metafísica e elabora uma desconstrução das bases da filosofia ocidental e do seu "logocentrismo", para o qual existiria sempre uma verdade exterior à linguagem. Pelo contrário, para Derrida existe uma indeterminação geral do sentido, que deriva de uma relação entre significantes - e daí advém a falibilidade de antigas oposições conceptuais (por exemplo, essência vs. aparência, profundidade vs. superfície, presença vs. ausência, etc) diluídas numa gramatologia sem pontos de apoio sólidos e sujeita à différence. Em A Escrita e a Diferença, Derrida introduz precisamente essa noção, que em português poderia traduzir-se pela convergência entre diferença e diferimento (no tempo e no espaço), pressupondo um desvio de sentido, que assim surge sempre como que extraviado e se estabelece numa disseminação que faz ressaltar a natureza metafórica de toda a linguagem. Além das suas implicações filosóficas, o pensamento derrideano mostrou-se essencial para a renovação da teoria da literatura através da sua influência no desconstrucionismo norte-americano.»
Porque é que eu me lembrei disto? Pois dava uma longa conversa :)

imagem: daqui

9 Comments:

Malina said...

De Derrida, que já me permitiu belíssimas desconstruções dos sentidos das coisas, há os livro fabulosos "De h'hospitalité" e "Adieu - à Levinas". Onde(no 1º) se pode ler que no horizonte da desconstrução, "não se está mais seguro do que quer dizer a palavra homem. Existe uma história do conceito de homem e é preciso interrogar-mo-nos sobre essa história: de onde vem o conceito de homem como o homem? ele mesmo pensa o que é próprio do homem?"

O que daria uma agradável conversa sobre o ódio, o enimigo, o amor, a pena de morte, o perdão, etc., etc.

Beijinhos:-)

Malina said...

interrogarmo-nos
:-)
:-)
:-)

Marta said...

Exactamente, Malina!
Tão próximo, do que me o levou a evocar aqui!!!!
E estas "afinidades virtuais" sempre a surpreenderem-me!
Dava uma deliciosa conversa, lá isso dava.
beijinhos :)

Funes, o memorioso said...

Derrida é um dos maiores trampolineiros do século XX. Foi completamente desmascarado pelos filósofos que, muito justamente, se sentiam ofendidos por ele pretender ser um deles. O que ele escreveu é, do princípio ao fim, um vazio sem conteúdo. Como Heidegger, por exemplo, com quem rivaliza em nulidade.

Marta said...

trampolineiros??? amei. a palavra. aqui aplicada.

mas não concordo consigo. nadinha, Prof. Funes!

Funes, o memorioso said...

Pois, espantar-me-ia se concordasse.
E, confesso, até ficaria um bocado incomodado.

Dalaila said...

Minha querida Marta, mais um na lista que desconhecia

Malina said...

O Prof. pode ter alguma razão, quanto às fronteiras da interpretação que, de Eco a Derrida, já fez correr rios de tinta e provocou a exasperação dos filósofos (que querem a casinha só para si).
Ainda que possa haver limites à interpretação (Eco dixit), enquanto escrevo este texto construo uma teia que tem, para mim, hic ed nunc, apenas uma possibilidade de sentido (não falo de significado, que isso daria outra conversa…). Todavia, este mesmo texto, lido, no papel, em outro contexto, por outrem ou até por mim mesma, será certamente um texto-outro. Com outro sentido? E porque não? Poderíamos até discutir a existência da violência na interpretação… (outra conversa bonita de se ter a propósito, p.ex., do ruído ensurdecedor da comunicação (escrita e não só, que hoje temos) . Claro que é importante manter a possibilidade de um terreno comum de leitura. O que me parece é que a novidade de Derrida está precisamente no questionamento no campo da escrita (a tal écriture), a que os filósofos não têm dado grande relevo.
E contrariamente a Heidegger, com a sua Destruktion de tonalidade negativa, a desconstrução de Derrida (apesar do prefixo de negação!!) é positiva, porque não se apresenta como uma técnica, antes como uma postura.
Mas isto é discurso de amador. Perdoem a insistência. Obrigada Marta, por me permitir a palavra:-)

Jinhos

Marta said...

Malina: que condescendente :) "alguma razão"!!!! Nenhuma. Nenhuma!

obrigada Malina, eu é que agradeço, tantas palavras tão bem colocadas!