Quinta-feira, Março 28

O meu sonho habitual




Tenho às vezes um sonho estranho e penetrante
Com uma desconhecida, que amo e que me ama
E que, de cada vez, nunca é bem a mesma
Nem é bem qualquer outra, e me ama e compreende.

Porque me entende, e o meu coração, transparente
Só pra ela, ah!, deixa de ser um problema
Só pra ela, e os suores da minha testa pálida,
Só ela, quando chora, sabe refrescá-los.

Será morena, loira ou ruiva? — Ainda ignoro.
O seu nome? Recordo que é suave e sonoro
Como esses dos amantes que a vida exilou.

O olhar é semelhante ao olhar das estátuas
E quanto à voz, distante e calma e grave, guarda
Inflexões de outras vozes que o tempo calou.

Paul Verlaine, in "Melancolia"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral


É uma generosidade



É difícil ser feliz; requer espírito, energia, atenção, renúncia e uma espécie de cortesia que é bem próxima do amor. Às vezes é uma graça ser feliz. Mas pode ser, sem a graça, um dever. Um homem digno desse nome agarra-se à felicidade, como se amarra ao mastro em mau tempo, para se conservar a si mesmo e aos que ama. Ser feliz é um dever. É uma generosidade.

Louis Pauwels, in "Carta Aberta às Pessoas Felizes"


A alma só acolhe o que lhe pertence


A alma só acolhe o que lhe pertence; de certo modo, ela já sabe de antemão tudo aquilo por que vai passar. Os amantes não contam nada de novo uns aos outros, e para eles também não existe reconhecimento. De facto, o amante não reconhece no ser que ama nada a não ser que é transportado por ele, de modo indescritível, para um estado de dinamismo interior. E reconhecer uma pessoa que não ama significa para ele trazer o outro ao amor como uma parede cega sobre a qual cai a luz do Sol. E reconhecer uma coisa inerte não significa identificar os seus atributos uns a seguir aos outros, mas sim que um véu cai ou uma fronteira se abre, e nenhum deles pertence ao mundo da percepção. Também o inanimado, desconhecido como é, mas cheio de confiança, entra no espaço fraterno dos amantes. A natureza e o singular espírito dos amantes olham-se nos olhos, e são as duas direcções de um mesmo agir, um rio que corre em dois sentidos, um fogo que arde em dois extremos.

E então é impossível reconhecer uma pessoa ou uma coisa sem relação connosco próprios, pois o acto de tomar conhecimento toma das coisas qualquer coisa; mantêm a forma, mas parecem desfazer-se em cinzas por dentro, algo delas se evapora, e o que resta é apenas a sua múmia. É por isso também que não existe verdade para os amantes; seria um beco sem saída, um fim, a morte do pensamento que, enquanto estiver vivo, se assemelha à fímbria arfante de uma chama, onde se abraçam a luz e a escuridão. Como pode uma coisa iluminar onde tudo é luz? Para quê a esmola do que é seguro e inequívoco onde tudo é plenitude? E como podemos ainda desejar alguma coisa só para nós, ainda que seja aquilo que amamos, depois da experiência que nos diz que os amantes não se pertencem, mas têm de se dar em oferenda a tudo o que vem ao seu encontro e se oferece aos seus olhares entrelaçados?

Robert Musil, in 'O Homem sem Qualidades'

Sexta-feira, Março 8

Marginal



« Hoje decidi que vou continuar a caminhar por aqui fora e a confundir -me com tudo o que for natural, com algumas aves, com esses fios de nuvens que percorrem todo o céu e lhe conferem um tom de certezas; vou confundir -me na pele de certos marinheiros, desses que gritaram e choraram e imploraram pela clemência divina e que não foram ouvidos, tal como eu, e aqui estou, ó povos deste mar, destas lonjuras tão próximas, aqui estou ó tempestades, ventos e desnortes que vos quero mais que a vida! É este o meu retrato, não o meu negativo mas a minha fotografi a: descalça no paredão, o cão que me acompanha rente aos joelhos, imperturbável e amigo, as línguas de fora, a minha e a dele, uma mais comprida que outra, e trotamos, trotamos não como cão e pessoa mas como qualquer outro animal que, no fundo, está aqui sempre presente.»


Cristina Carvalho, Marginal, Editorial Planeta, 2013, pp.83-84

Fonte: focussocial

Quinta-feira, Março 7

Kim Longinotto

 
HISTÓRIAS NO FEMININO
 
«Uma das mais proeminentes documentaristas em actividade, Kim Longinotto, é reconhecida internacionalmente pelos seus pungentes retratos e pelo seu sensível e apaixonante tratamento de tópicos difíceis.... Observando, reflectindo e contando as estórias de mulheres que desafiam convenções e lutam contra instituições, opressão e preconceitos, Longinotto documenta e revela as idiossincrasias e os costumes de sociedades oprimentes. Passando por temas tão diversos como o divórcio no Irão, a mutilação genital feminina no Quénia, a violência sobre mulheres e crianças nos Camarões, na África do Sul ou na Índia, a educação de crianças emocionalmente perturbadas em Inglaterra ou mesmo questões de género, identidade sexual e contradições culturais no Japão, Longinotto assume-se politicamente comprometida, viajando pelo mundo inteiro para documentar os aspectos mais difíceis da realidade das mulheres. Navegando pelas águas do documentário, desde que iniciou a sua carreira em 1976, trabalhando quase sempre com equipas reduzidas – a própria, na câmara, uma co-realizadora local e apenas uma pessoa no som – e mantendo-se sempre independente de quaisquer produtoras, Longinotto tem conseguido financiar o seu trabalho através da emissão dos seus filmes na BBC e vem conquistando a sua importância cinematográfica através do florescente circuito dos festivais de cinema. Quase todos os seus filmes foram premiados um pouco por todo o mundo, sendo que “Sisters in Law” recebeu o Prémio Arte e Ensaio do Festival de Cannes, “Hold me tight, Let me go” foi galardoado com o Prémio Especial do Júri no Festival Internacional de Documentário de Amesterdão e “Rough Aunties” ganhou o Prémio do Júri na competição World Cinema do Festival de Sundance. Esta será a primeira retrospectiva dedicada a Kim Longinotto no nosso país, uma realizadora que importa descobrir urgentemente.

Local: Auditório Passos Manuel: Rua Passos Manuel, 137 – Porto Bilhetes: 3€
Sessões legendadas em Português. Maiores de 16 anos.
 
5ª FEIRA 28 MARÇO

22H00 – PINK SARIS
Kim Longinotto / 96’ / 2010

Em "Pink Saris", acompanhamos a história de Sampat Pal, uma complexa e singular activista política, líder do movimento Gulabi Gang, que trabalha pelos direitos das mulheres na região de Uttar Pradesh, no norte da Índia. Assistimos ao empenho individual de Sampat, referência para muitas mulheres maltratadas, na mediação de dramas familiares, testemunhada por dezenas de espectadores, defendendo pessoas em situações de vulnerabilidade e que desnudam as convenções da sociedade Indiana.


6ª FEIRA 29 MARÇO

17H00 – THE DAY I WILL NEVER FORGET
Kim Longinotto / 92’ / 2002

Documentário marcante, onde Longinotto retrata o tema da mutilação genital feminina no Quénia, com excepcional sensibilidade e franqueza. De depoimentos comoventes de mulheres que foram submetidas à circuncisão até entrevistas com idosas matriarcas que teimosamente defendem a prática, o filme retrata a complexidade das polémicas e conflitos em torno da angustiante questão do combate à tradição.

19H00 – SISTERS IN LAW
Kim Longinotto / Florence Avisi / 104’ / 2005

Em "Sisters in Law" assistimos ao trabalho de duas mulheres da Associação de Mulheres Juristas (WLA) de Kumba, nos Camarões, que prestam apoio jurídico a mulheres e crianças vítimas de abusos, que de outra forma não seriam considerados pelo sistema judicial numa sociedade fortemente patriarcal marcada pela tradição de abuso e de violência. Um filme marcante e por vezes hilariante, que mostra um feroz acto de coragem determinado a melhorar a comunidade e talvez mudar o país no processo.

22H00 – ROUGH AUNTIES
Kim Longinotto / 103’ / 2008

Filme sobre o dia a dia de um notável grupo de mulheres destemidas que lutam contra o abuso sexual de crianças e mulheres, negligenciadas e esquecidas de Durban, cidade da África do Sul. Apesar da dura realidade com que trabalham na organização de bemestar infantil, Bobbi Bear, permanecem firmes nas suas convicções pessoais, enquanto lutam contra a apatia e a corrupção, procurando justiça para as vítimas. Olhar inspirador e humanitário de uma realidade devastadora e cruel.


SÁBADO 30 MARÇO

17H00 – HOLD ME TIGHT, LET ME GO
Kim Longinotto / 100’ / 2007

A Mulberry Bush School, em Oxfordshire, na Inglaterra, é uma escola especializada em lidar com crianças emocionalmente perturbadas, com comportamentos violentos e excluídos do sistema de educação comum. Nesta escola recebem a atenção, paciência e empenho de mais de cem responsáveis, entre docentes e auxiliares, que enfrentam os seus constantes acessos de raiva, agressão física e destruição, mas também as manifestações de carinho e afeição. Uma difícil luta entre o desequilíbrio e a harmonia.

19H00 – DIVORCE IRANIAN STYLE
Kim Longinotto / Ziba Mir-Hosseini / 80’ / 1998

Um olhar intimo sobre a vida conjugal do Irão e seus conflitos através das histórias de seis mulheres que invocam o direito de se divorciarem num país onde a lei favorece os maridos. Num registo alternadamente cómico e trágico e tendo por cenário um tribunal de divórcio em Teerão, acompanhamos estas mulheres no seu esforço para chegar a um resultado favorável num meio de leis parciais, políticas administrativas contraditórias e severas restrições culturais.

22H00 – DREAM GIRLS
Kim Longinotto / Jano Williams / 50’/ 1993

“Dream Girls” é um documentário fascinante sobre a famosa escola de teatro musical japonesa Takarazuka, cujos espectáculos são reminiscências da Broadway dirigidos a um público feminino, nos quais a popularidade da actriz no papel masculino supera o das estrelas pop do mainstream. Ao contrário do teatro japonês tradicional, todo os membros desta escola são mulheres que se submetem a anos de reclusão e disciplina intensa. Uma reflexão sobre questões de género e identidade sexual e contradições culturais no Japão da actualidade.

Fonte:
www.artes.fmam.pt

Quarta-feira, Março 6

Era um violoncelo


Era um violoncelo pousado numa casa em ruínas, no meio de uma tarde que corria em contra-luz. Uma casa ressuscitada por um violoncelo e uma voz incontida ao primeiro acorde. E depois, o despertar dos gestos e o calor que se acendeu apesar do frio e da arca vazia. Provavelmente vazia e tão cheia de histórias. E na janela maior flores inesperadas e mansas como o rio que corria perto. Ontem foi dia de dias assim.


Fotografia:© André Henriques

a noite pede música







Eu não fui desde a infância
Como outros eram...não olhei
O que outros viam...não busquei
Na mesma fonte as minhas ânsias...
Não foi do mesmo poço que tirei
Minha amargura...meu coração
Não entoou, em coro, hinos de louvor...
E tudo o que eu amei, amei em solidão...
Então - na minha infância - no alvor
De minha vida atormentada, fui refém
Do mistério que ainda hoje sobrevém
Do abismo donde brota o mal e o bem...
Da torrente, da nascente...
Da rubra fraga ascendente...
Do sol que em mim revolveu
No seu fulgor outonal...
Do clarão que ascendeu
Pelo espaço, e em mim rasou...
Do trovão, do temporal...
Da nuvem que se moldou
(Conquanto azul fosse o céu)
Em demónio e me ensombrou.

Edgar Allan Poe


 

 [na página 199 do livro Edgar Allan Poe Obra Poética Completa, Tradução e Notas de Margarida Vale de Gato, Tinta da China, 2009]

imagem: Filipe Abranches




Terça-feira, Fevereiro 26

Fernão Mendes Pinto

Sábado, Fevereiro 23

a noite pede música


Sexta-feira, Fevereiro 22

Diz-me que pedra é essa

Diz-me que pedra é essa
Onde te deitas desconfortável
Em cada noite.

Os ossos absorvem o frio,
Acomodam-se à irregularidade
Dos veios que irão

Assinalar os pontos mais sensíveis
Do território íntimo,
Aquele onde se sente mais

A pontada de frio
Quando não se adormece.
E a garganta,

Limite de ansiedades e sobrevoos,
Retrai-se
Como um fruto encarquilhado

Já sem seiva
Ou sabor possíveis.
Diz-me

Onde está a fronteira
Entre o espaço que ocupas
E o deserto que olhas.

Rui Almeida

He Gave Me The Brightest Star

E a imensa Hélia Correia...



...ganha dois prémios: este e este :)
 
 
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

Hélia Correia in A Terceira Miséria

a noite pede música


+ chuva


[respondendo ao outro lado do atlântico]

você está aqui

 
Eu estou aqui, com ele, mas ainda não o li.
 
Entretanto, pode ler sobre o livro aqui
O blog do poeta aqui
E se lhe apetecer encomendar já o livro pode ser aqui
 

Trevo


...de 4 folhas, para a minha querida Helena.
E para quem estiver a precisar de encontrar um, sem ir ao jardim.

Fado dos dias assim


Há dias assim, de pedidos especiais. A Helena Sarmento está a produzir o seu 2º disco "Fado dos Dias Assim" e lembrou-se de promover uma  pré-venda para ajudar a pagar a sua produção independente, uma vez que se trata de uma edição de autor, tal como o primeiro, Fado Azul.
Diz ela num e-mail que faz circular por aí «um trabalho muito querido, muito pensado e cheio daqueles imprevistos bons que fazem com que hoje não o consiga imaginar com outro título que não o de "Fado dos Dias Assim". O disco já nasceu mas ainda precisa de muita coisa antes de chegar aos ouvidos de quem o quiser escutar. Venho por isso propor-vos a compra antecipada, ou seja antes que ele chegue aos pontos de venda, em Março. Assim", autografado por mim, por um preço especial e bastante inferior ao que irá ser o seu preço de venda ao público, 12€ (disco + portes de envio)".  Esta campanha decorre até ao dia 28 de Fevereiro. Os interessados podem pedir mais informações através do e-mail:helenasarmento.fadoazul@gmail.com
Para escutar... encostem o ouvido aqui

porque sim

"Os Poetas"

 
« O projecto "Os Poetas", de Rodrigo Leão e Gabriel Gomes, está de volta e estão já agendados três concertos, o primeiro deles no Porto, já no próximo dia 3 de Março, na Casa da Música. Um espectáculo a não perder!

Para além dos concertos, que darão origem a um novo CD com faixas inéditas gravadas em 2012, é com orgulho que se comunica a reedição do álbum «Entre nós e as palavras», publicado originalmente em 1997 e desde há muito esgotado, um projecto ímpar na história da discografia nacional, onde alguma da melhor poesia portuguesa das últimas décadas do século XX se faz ouvir, pela voz dos seus autores, ao som de composições criadas por Rodrigo Leão, Gabriel Gomes e Francisco Ribeiro.

Dizer-se que a música acompanha a enunciação dos textos não basta, pois a ambição foi maior. Com efeito, neste álbum os compositores criaram um ambiente ou universo sonoro em que a palavra dos poetas actua, com o seu tempo e ritmos próprios – mas nesse universo também se encontram diversos temas exclusivamente instrumentais; momentos em que só a palavra domina, como os de António Franco Alexandre, ou de Mário Cesariny em «Pastelaria» e «You Are Welcome to Elsinore»; e ainda o belíssimo «Quem Me Dera (Amanhã)», composto por Gabriel Gomes e Francisco Ribeiro e cantado por este último. Do conjunto destes 16 temas ressalta a noção de uma viagem por uma paisagem sonora onde a arte e a poesia predominam.

Este álbum, que é um autêntico e intenso exercício sobre a arte poética, nasceu de circunstâncias e encontros felizes. Rodrigo Leão abandonara os Madredeus em 1994 para prosseguir uma carreira a solo. Dois anos depois, também o acordeonista Gabriel Gomes e o violoncelista Francisco Ribeiro saíram do grupo. Manuel Hermínio Monteiro, responsável editorial da Assírio e Alvim, que tinha a seu cargo o espólio de diversos poetas portugueses, preparava as comemorações do 25º aniversário desta editora e localizara diversos registos sonoros dos seus autores. Rodrigo Leão teve conhecimento disso e convocou os companheiros para este projecto, que desde logo encontrou bom acolhimento junto de Tiago Faden, da Sony Music.

A maioria das composições e arranjos foram criados na Primavera de 1997, durante algumas semanas de recolhimento numa casa da Ericeira em companhia da violetista Margarida Araújo. As sessões de gravação tiveram lugar no estúdio Tcha Tcha Tcha no início do Outono, sob a direcção de António Pinheiro da Silva; Carlos Jorge Vales recuperou digitalmente as gravações originais dos poetas; e o disco foi publicado antes do Natal desse ano, numa embalagem com concepção gráfica de Manuel Rosa e ilustrações de Ilda David', que incluiu também a reprodução dos poemas.

Como escreveu Manuel Hermínio Monteiro, «o processo desenvolve-se por uma disfarçada humildade dos compositores que tudo fazem para acentuar os sentidos da palavra e da voz (...). Resulta assim um encontro inédito e feliz entre a música e a poesia, revelando, simultaneamente, a diversidade da lírica portuguesa desta última metade do século».
 
Fonte: Assírio & Alvim

Um homem precisa viajar

Life is hard...

Devo confessar


Devo confessar: tinha procurado uma placa bonita para anunciar o fim. Tinha preparado um discurso sentido. Vinte linhas a agradecer as coisas boas, as pessoas fabulosas que este blog trouxe até mim. Até já tinha sentido saudades e vontade de regressar antes de me ir embora. Tinha mil coisas. Coisas minhas, como tão bem sabem, alguns. Depois, no Natal, uma pessoa que eu amo muito e que lê sempre os meus silêncios sem engano, ofereceu-me alguns textos que, pacientemente, recolheu aqui, desde o início. Os que mais gostou. Colocou-os entre capas, impressos num papel muito bonito e macio e fez deles um presente. Perdi a coragem de ir embora! Melhor: perdi a coragem de dizer que ia embora. No fundo não queria nada ir. Mas estar aqui, para mim, é também estar convosco. Saltitar de blog em blog, conhecer textos, ideias, músicas. E o tempo, ao contrário do que a dado momento achei, não me tem sobrado. Muito pelo contrário. Continuo faminta de tempo. O mestrado ocupa-me grande parte dessas horas que tinha livres e que de alguma forma canalizava para aqui. Agora os meus dias andam ocupados com pilhas de livros que nem sequer são de poesia! Enfim, de alguma forma estou de regresso e agradeço a todos os que ainda passam, aos que escrevem, aos que enviam música e, muito importante, aos silenciosos.
Intermitente, vou continuar. Por aqui e, às vezes, por ai.

Quarta-feira, Fevereiro 13


Domingo, Dezembro 30

Escuto...


Passei toda a noite, sem dormir,




Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
Amar é pensar.
E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
Tenho uma grande distracção animada.
Quando desejo encontrá-la
Quase que prefiro não a encontrar,
Para não ter que a deixar depois.
Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só
Pensar nela.
Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

Alberto Caeiro

So simple!


a noite pede música


Quinta-feira, Dezembro 27

Repara


Um dos que me calhou no sapatinho...


Sinopse: «Todos os dias, María Dolz toma o pequeno-almoço no mesmo café de Madrid. Entretém-se a observar um casal que cumpre a mesma rotina. Parecem formar o casal perfeito, profundament...e enamorado. Até que um dia o casal não aparece no café, o que deixa María com uma estranha sensação de perda.
Só mais tarde, quando vê uma fotografia do homem numa página de jornal – deitado no chão, esfaqueado, minutos antes de morrer – é que descobre que os amantes que tanto gostava de contemplar se chamavam Luisa e Miguel. Quando a mulher volta ao café, alguns dias depois, María aborda-a para lhe apresentar as suas condolências e entra assim numa espiral que a levará a descobrir mais sobre a morte aparentemente acidental de Miguel.
Partindo do mistério em redor da morte de Miguel, Os Enamoramentos revela-nos muito mais do que a verdade sobre esse trágico evento. É, acima de tudo, uma investigação metafísica sobre a vida, a morte, o amor e a moralidade. E um fascinante tratado sobre o estado de enamoramento, um estado positivo e redentor que parece justificar quase todas as coisas: acções nobres e desinteressadas, mas também as maiores crueldades.»

Quarta-feira, Dezembro 26

coisas minhas


[ ...a precisar de muita vitamina C! ]

porque sim



[ Dona Canô RIP]

Momentos felizes

Votos de que todos os amigos, conhecidos, blogamigos que ainda resistem e passam por aqui, tenham tido um Feliz Natal...e que o novo ano vos traga, apesar de tudo, momentos felizes.

 

O Natal não é ornamento: é fermento

 
 
 
 
O Natal não é ornamento: é fermento
É um impulso divino que irrompe pelo interior da história
Uma expectativa de semente lançada
Um alvoroço que nos acorda
para a dicção surpreendente que Deus faz
da nossa humanidade

O Natal não é ornamento: é fermento
Dentro de nós recria, amplia, expande

O Natal não se confunde com o tráfico sonolento dos símbolos
nem se deixa aprisionar ao consumismo sonoro da ocasião
A simplicidade que nos propõe
não é o simplismo ágil das frases-feitas
Os gestos que melhor o desenham
não são os da coreografia previsível das convenções

O Natal não é ornamento: é movimento
Teremos sempre de caminhar para o encontrar
Entre a noite e o dia
Entre a tarefa e o dom
Entre o nosso conhecimento e o nosso desejo
Entre a palavra e o silêncio que buscamos
Uma estrela nos guiará.

José Tolentino Mendonça

Sábado, Dezembro 15

a noite pede música



They say life is never fair
That love's so far away
But I know babe, it's so true
It's so true
I know that you feel so alone
And you cry yourself to sleep
But I know babe, it's so true
It's so true, true, true
They say fate plays cruel jokes
And keeps love from you
But I know babe, it's so true
It's so true
I know that you feel so alone
And you cry yourself to sleep
But I know babe, it's so true
It's so true, true, true

[obrigada mmq Francisco]

Sexta-feira, Dezembro 7



Aristóteles, visita

da casa de minha avó,

não acharia esquisita

esta forma de estar só

esta maneira de ser

contra a maneira do tempo

esta maneira de ver

o que o tempo tem por dentro.

Aristóteles diria

entre dois goles de chá

que o melhor ainda será

deixar o tempo onde está

pô-lo de perto no tema

e de parte na poesia

para manter o poema

dentro da ordem do dia.

Aristóteles, visita

da casa da minha avó,

não acharia esquisita

esta forma de estar só.

Ele sabia que o poeta

depois de tudo inventado

depois de tudo previsto

de tudo vistoriado

teria de fazer isto

para não continuar

com que já estava acabado

teria de ser presente

não futuro antecipado

não profeta não vidente

mas aço bem temperado

cachorro ferrando o dente

na canela do passado

adaga cravando a ponta

no coração do sentido

palavra osso furando

pele de cão perseguido.

Aristóteles, visita

da casa da minha avó,

não acharia esquisita

esta forma de estar só

esta maneira de riso

que é a mais original

forma de se ter juízo

e ser poeta actual.

Aristóteles, visita

da casa da minha avó,

também diria antes só

do que mal acompanhado

antes morto emparedado

em muro de pedra e cal

aonde não entre bicho

que não seja essencial

à evasão da palavra

deste silêncio mortal.


Ary dos Santos

 



a noite pede música



...porque o poeta Ary dos Santos nasceu dia 7 de Dezembro...

Anna Karénina

 
«E chegamos agora à verdadeira questão moral que Tolstoi queria fazer passar: o Amor não pode ser unicamente carnal porque deste modo é egoísta, e ser egoísta é destruir em vez de criar. O Amor é, então, pecaminoso. E de modo a tornar este assunto tão artisticamente distinto quanto possível, Tolstoi, numa vaga de extraordinária imagin
ação, descreve, em nítido contraste, dois amores: o amor carnal do casal Anna-Vronski (lutando por entre as suas emoções sensuais, mas fiéis e espiritualmente puras) e, do outro lado, o autêntico Amor cristão, como Tolstoi o quis chamar, do casal Kiti-Lévin, com os bens de natureza sensual ainda presentes, mas equilibrados, e em harmonia numa atmosfera de responsabilidade, carinho, verdade e alegria familiar.» [Do Posfácio de Vladimir Nabokov]
 
Primeiras páginas aqui

porque sim



...porque eu quero ir ao cinema...

é por isso que nunca vou ao cinema

 
 
« Não escrevo romances para contar uma história. A história está lá para que eu possa dizer o que penso, pois sou um escritor e não um romancista. As personagens existem para exprimir as minhas ideias. Normalmente são pessoas que conheci e ...
que pensam como eu sobre o mundo, sobre a vida. Plenos de amor, os meus livros não contam todavia uma história de amor entre um homem e uma mulher; não acredito nessas histórias. É por isso que nunca vou ao cinema... »

Fotografia: Sophie Bassouls

Quarta-feira, Dezembro 5

You are not...

Muitos

Terça-feira, Dezembro 4

Chá ou café?


A Casa do Mestre






Aqui há um lugar... inspirador.


Fotografias: marta

Quente & Frio

Ler


a LER

Sábado, Dezembro 1

a noite pede música


Meeting...

 
...the e-author :))))

Arturo está a chegar

Azul

 
História de amor com jazz. Recorrente. Eterna.

"Até que a morte nos separe"


Nova campnha APAV

Sexta-feira, Novembro 30

My tea time

Dia das Livrarias

« Dia das Livrarias


Portugal associa-se a iniciativa que nasceu em Espanha

Cerca de uma dezena de livrarias portuguesas associa-se hoje ao Dia das

Livrarias, evento organizado em Espanha e que se estende a Portugal por

iniciativa da Fundação José Saramago e do movimento Encontro Livreiro.

A extensão da ideia espanhola para Portugal é, segundo a fundação, incentivar

as livrarias, sobretudo as independentes e as de mais pequena

dimensão, a terem mais visitantes, “contrariando a tão real crise que leva

tantos a temer o fecho iminente desses espaços de cultura”.

O movimento Encontro Livreiro, por seu lado, dá conta, no seu site, de

pelo menos uma dezena de livrarias a associarem-se ao evento, entre as

quais a Fonte das Letras, de Montemor-o-Novo, a Pó dos Livros, GATAfunho

e Assírio & Alvim, de Lisboa, a Traga-Mundos, de Vila Real, e a centenária

Livraria Esperança, do Funchal.

Em Portugal, o Dia das Livrarias acontece na data em que morreram os

escritores Fernando Pessoa (30 de Novembro de 1935) e Fernando Assis

Pacheco (30 de Novembro de 1995).

Em Espanha, é a segunda vez que a Associação de Livrarias e o Colégio de

Escritores organizam o Dia das Livrarias, para dar a conhecer “o prazer

pela leitura e pelos livros”, e para os livreiros mostrarem aos visitantes “os

livros que precisam e também os que eles desconhecem que precisam”.

A ideia é recordar “a função social e cultural” de uma livraria na sociedade,

lê-se no manifesto espanhol. »   Fonte: Página 1

So many...

Hoje, no Porto

 
Ou amanhã, em Aveiro. + informação

Terça-feira, Novembro 27

"We'll always have Paris"

porque sim



"O mundo cinéfilo comemorou, ONTEM, 70 anos sobre a estreia de uma das jóias maiores da História da Sétima Arte. «Casablanca», de Michael Curtiz, viu o grande ecrã pela primeira vez em Nova Iorque, a 26 de Novembro de 1942, em plena II Guerra...Mundial. A história dos desencontros amorosos e sacrifícios dos antigos amantes Rick (Humphrey Bogart) e Ilsa (Ingrid Bergman) correu mundo, bem como a voz de Sam (Dooley Wilson), no standard "As Time Goes By", revisitado vezes sem conta, nos últimos 70 anos."


Sábado, Novembro 17

Possibilidades


Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me gostando de homens
em vez de estar amando a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
Prefiro os moralistas,
que não prometem nada.
Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter objecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro os contos de fadas de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
a outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.


Wislawa Szymborska

a noite pede música


Aves



Comprei-o ontem.  Para mim e para oferecer. Fala da capacidade de sonhar. De continuar a sonhar.  E fica-se com ele horas a fio. A folhear muito lentamente. É tão lindo! É lindíssimo. E cheira muito bem. A livro impresso. E traz uma ilustração. Se a quisermos colocar na parede ou no tecto. Sei lá bem. E eu quero. Só não sei onde. Se na parede, se no tecto. É um livro de tamanho certo para pousar no colo. É um livro que dá vontade de acariciar. De passar a mão pelas penas  muito macias das aves. Enquanto a comoção nos passa e a sensação de espelho desaparece. É que é tremendamente humano. E o mais engraçado é que não estou a exagerar. Só não sei é dizer isto de outra maneira.

Fonte: aqui

Amanhã


Amanhã ciclo de homenagem a Manuel António Pina no Museu Nacional da Imprensa, no Porto. A partir das 16 horas.
 

Pensar em ti é coisa delicada



Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluír de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.


Um pesar grãos de nada em mínima balança
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir,


Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas como o pensar te pudesses partir.

António Gedeão


imagem:Michael Young

Na lista dos livros que quero ler


Esse nome, António Gedeão, simultaneamente vulgar e também, de certo modo, estranho, aconteceu surgir-lhe no pensamento quando, em 1956, com cinquenta anos, se dispôs a revelar o seu primeiro livro, Movimento Perpétuo, publicado pela Atlântida editora, em Coimbra. Não queria que ninguém soubesse da sua identidade como poeta. Para isso, era necessário apresentar-se com um pseudónimo de tal modo vivo, de tal modo invulgar que ele próprio não se reconheceria às primeiras. Medo? Medo do público leitor? Medo de si próprio? As hesitações para esta primeira publicação foram imensas! E o livro foi publicado no mais completo segredo, tudo combinado com o editor. Ninguém saberia que António Gedeão era Rómulo e que Rómulo era António.» Cristina Carvalho

Fonte: aqui