sexta-feira, abril 17

A respiração das coisas

Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.
Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.
Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.
No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.
Um dia em Epidauro – aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas – coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.
Tempos mais tarde, escrevi estes versos:


A voz sobe os últimos degraus
Ouço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha


Sophia de Mello Breyner Andrese in Ilhas, pag.70, Texto Editora,1990
imagem:
daqui

11 Comments:

Zaclis Veiga said...

Que lindo. Que delícia essa tua infância. beijos

Funes, o memorioso said...

Zaclis, eu penso que a infância em causa é a de Sophia e não a da Marta. Mas talvez sejam as duas, porque todas as infâncias são grandiosas.
Em relação a Sophia propriamente dita, o que eu não compreendo é como é que uma das que é, para lá de toda a dúvida, uma das melhores escritoras do século XX, deu à luz um filho que escreve tão mal.

Marta said...

Ah, prof. Funes, agora deixou-me no limiar, mesmo assim à beirinha de declarar o meu amor público pelas suas tiradas grandiosas, como esta! A de reconhecimento a Sophia M.B.A. e a de mais uma rara afinidade! :)

E sim, Zaclis, apesar de o Prof. Funes aqui, no meu blog, raramente ter razão, agora acontece! Esta infância é a de Sophia e não a minha. Apesar de também ser um pouco a minha! Também eu «tive a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura»!

Objectiva.Mente said...

Esse templo onde eu tive a alegria de ter estado, mostra que os gregos conheciam bem o poder da palavra, quando certeira e dita na altura certa e no sítio certo.
o Epidauro é daqueles lugares mágicos que conseguem levar não só as palavras mas os sentimentos ao lugar mais alto de nós mesmos.

Marta said...

Armindo: que alegria e que sorte a sua! Não imagina como eu fiquei com uma pontinha de inveja! :)
É um dos lugares onde quero ir, antes de morrer!

Patti said...

Oh Marta, aquilo foi a maravilhosa acústica do teu Eu.

E essa de não saber/pensar que os poemas eram escritos por homens, é profundamente livre!

vaandando said...

gostei de ler sophia , foi inesperado !
Há mais ?

________ JRMARTO

Daniel Silva (Lobinho) said...

Dá vontade de estar ali... Assim... Simplesmente.

beijinhos

Marta said...

Patti: este belíssimo texto é de Sophia! e bocadinho nosso, também. Se o sentirmos.

José Marto: sim há mais! Fiquei feliz por ter gostado.

Daniel: é isso mesmo. Vontade de estar ali! E fazer como a grande Sophia :)
é um dos meus sonhos por dar à estampa!

Patti said...

Sim, eu sei. Mas esse 'bocadinho nosso', reflecte-se na força das suas palavras.
É como se nós ali estivessemos também.

Marta said...

Patti, desculpa! Entendi mal as tuas palavras! Tens de me dar um desconto...pequenino e só às vezes :) é que não sendo loira, sou aloirada ;)