quarta-feira, abril 6

Sinais de Fogo: a invenção de um poeta

Sob tudo quanto Jorge de Sena escreveu sente-se o aguilhão da necessidade e do tempo. Talvez menos pelo pressentimento de que o tempo lhe estava contado do que por saber que duração alguma da vida bastaria para exprimir o tumulto, a violência interior que o avassalavam sem o submergir. Da circunstância, sem delongas para a contemplar ou se macerar nela, fez uma poética, e com essa poética uma das obras de maior poder de interpelação e fascínio que a segunda metade do século XX nos legou.


A primeira vista, o seu romance póstumo e inacabado, Sinais de Fogo, parece escapar a esta estética, ou antes, poética da urgência. A urgência aqui parece diferida e diferida para sempre. Mas só a história interna da escrita de Sinais de Fogo, se historicisticamente lida, pode sugerir essa excepção ao que foi sempre, nele, exigência de vida e regra de escrita. Das três ou quatro vagas de composição de que resultou o inacabado texto Sinais de Fogo nenhuma delas escapa ao ritmo imperioso, e não poucas vezes imperial, que Jorge de Sena impôs sempre à sua criação. Nem lentas agonias, nem torrenciais explosões seguidas de remorso ou arrependimento. Houve sempre em tudo quanto Jorge de Sena escreveu uma mistura muito sua de voluntarismo e de extremo domínio do que em outros tomaríamos como irrepresível inspiração. Todavia, neste seu primeiro e único romance, talvez pelas contingências da sua elaboração, há como que duas tonalidades ou dois ritmos que fazem desta epopeia iniciática de uma geração – mas sobretudo da recriação quase num tempo sem passado de um destino extraordinário de criador – um longo rio com duas águas de cor diferente. Impressão tanto mais estranha quanto o tempo da história contada em Sinais de Fogo é um tempo breve, na ordem da cronologia exterior e só tempo de intensidade incomum enquanto vivência do narrador e personagem. A essas duas cores corresponde a um nível mais profundo o descentramento de Sinais de Fogo entre o essencialmente anedótico, por mais interessante que seja, desde a descrição das amizades juvenis à peripécia rocambolesco-revolucionária em que o personagem principal se encontra envolvido, até a história passional de Jorge e de Mercedes, com ela entrelaçada mas vivendo de uma vida própria e configurando um romance no interior do romance.

Voluntariamente datado ou inscrito entre referências da história política portuguesa e peninsular (começos da Guerra Civil espanhola e reforço da componente fascista do regime de Salazar) paradoxalmente, Sinais de Fogo é uma ficção sem data. Se tem uma é a do olhar do narrador, não como jovem, confrontado com os mistérios, as repugnâncias, as contradições políticas ou ideológicas de uma época precisa, mas como autor em plena maturidade que evoca como se estivesse no presente da sua escrita (de 1964 a 1967) o momento da sua iniciação na vida e sobretudo naquela particular maneira de estar nela que o convertiria em Poeta. Jorge de Sena transporta-se – e transporta-nos – para o passado como se fosse um presente, tumultuoso, estranho, cruel e mágico, um presente fluindo em si mesmo, envolto na sua própria opacidade, com personagens que não têm ainda mais perspectiva do que a da romanesca aventura em que estão envolvidos. Todo esse lado de ressurreição de uma peripécia histórico-individual importa pelo talento com que Jorge de Sena, quase fotograficamente, sem nostalgia inútil, como se estivesse ainda vivendo a sua aventura, a restitui. Por momentos, o detalhe, a micro-história quase se fecha sobre si mesma, a perspectiva geral perde nitidez, mas o nosso interesse fixa-se na multidão das personagens da saga do autor em vias de inventar a sua vida, personagens com algo de imprevisível ou de fantástico como é natural na adolescência ou fora dela no mundo pícaro em que o nosso herói evolui.

Mas não é como “quadro”, pintura de uma época, mesmo de uma tomada de consciência histórica e ideológica de um período conturbado da vida portuguesa que Sinais de Fogo merece o título de “grande livro” mais ainda do que de “grande romance”. Jorge de Sena, já notável poeta nos anos 40, não teria podido então descrever com a acuidade rara com que o faz em Sinais de Fogo o labirinto amoroso, espaço de fúria, de êxtase, mas sobretudo de busca do que não se encontra ou encontrado sossobra [sic! Deve ler-se soçobra] no dilaceramento, antes de se ter convertido no homem de experiencia longamente amadurecida pelos anos e pela imersão no imaginário romanesco do Ocidente que lhe foi familiar como a ninguém mais da sua geração. Todavia esse peso de memória e conhecimento antes o teria talvez manietado do que servido se a sua violência imaginativa, a sua audácia não o tivessem levado como que a esquecer pouco a pouco a peripécia exterior da sua aventura para o deixar nu e desarmado diante do seu próprio destino antevisto e desejado com uma veemência profética como o do futuro autor de tudo quanto fará dele uma personalidade única das letras portuguesas do nosso século. Posterior no tempo da escrita, Sinais de Fogo é a crónica-romance da invenção de si como Jorge de Sena, como grande poeta, mas igualmente como autor de textos inesquecíveis que são os contos Super Flumina Babilonis ou o Físico Prodigioso. Mas o que nestes contos nos aparece já como inscrita numa espécie de espaço mítico da nossa ficção, descobre aos olhos do leitor de Sinais de Fogo as suas raízes, ou melhor, o seu enraizamento num combate simultaneamente espiritual e sensual, cruel e delicado, simples e complexo, assumido com uma vontade de desnuamento, de clarificação da sua relação consigo e com os outros e o mundo de uma força sem exemplo nas nossas letras. Jorge de Sena não desceu ao inferno das suas pulsões e dos seus terrores para resgatar uma Euridice mediadora entre ele e o mundo, mas para libertar nele o prisioneiro que pedia um mundo para submeter ao seu génio desabrido o seu pavor. Sinais de Fogo é o memorial dessa travessia que não tem outro fim que o de descobrir em si os dons que nele o redimam de uma solidão humana para o deixarem a braços com a musa mais exigente e cruel que todas as solidões, musa que lhe exigirá todo o tempo eterno da sua futura vida. Dessa travessia saiu o Poeta capaz de converter os estigmas da sua vida real em sinais de fogo. Mais do que um dos raros grandes romances de amor da nossa literatura – paradoxalmente parca em romances de amor – Sinais de Fogo é a incomplacente biografia de um poeta destinado pelos deuses a sagrar-se poeta pelas suas próprias mãos, como o Indesejado, rei sem mais coroa que a imaginária. A raros como a Jorge de Sena a ficção serviu de reino para ser nele o filho das suas próprias obras e o rei de si mesmo.

Eduardo Lourenço

[desviado daqui. com vénia]

sexta-feira, maio 7

"O Canto"



à procura de um excerto do livro "A Poética do Espaço" de Gaston Bachelard, que adorei ler, encontrei este filme. gostei tanto.

quarta-feira, maio 5

John Nash

[...] «Ninguém mostrou uma obsessão maior pela originalidade, nem um maior desdém pela autoridade, nem mais zelo em preservar a sua independência: em jovem teve à sua volta os sumos sacerdotes da ciência do século XX - Albert Einstein, John von Neumman e Norbert Wiener - , mas não aderiu a nenhuma escola nem se converteu em discípulo de ninguém, tendo pelo contrário, em larga medida, percorrido o seu caminho sem guias nem seguidores. Em quase tudo o que fez - da teoria dos jogos à geometria - desprezou os conhecimentos recebidos, as modas comtemporâneas e os métodos estabelecidos. Trabalhava quase sempre só, habitualmente enquanto caminhava e, com frequência, ia assobiando Bach. [...] »

Sylvia Nasar in Uma Mente Brilhante, Relógio Dágua, 2002

[ao passear pelo facebook encontrei excertos deste filme que adorei ver. e fui à procura deste livro que tenho sublinhado e cheio de notas. a lápis e musicais. obrigada António]

terça-feira, dezembro 29

Mas quem disse que é proibido estar triste?


Dás reviravoltas ao corpo e à imaginação para afastar a tristeza. Mas quem te disse que é proibido estar triste? A verdade é que, muitas vezes, não há nada mais sensato que estar triste; todos os dias acontecem coisas, aos outros e a nós, que não tem remédio, ou melhor, que tem esse antigo e único remédio de nos sentirmos tristes.

Não deixes que te receitem alegria, como quem prescreve uma temporada de antibióticos ou colheres de água do mar em estômago vazio. Se deixares que te tratem a tua tristeza como se fosse uma perversão ou, na melhor das hipóteses, uma doença, estás perdida: além de triste, irás sentir te culpada. E tu não tens culpa de estar triste. Não é normal que sintas dor quando te cortas? Não arde a pele se te dão uma chicotada?

Pois, do mesmo modo, o mundo, a vaga sucessão dos factos que acontecem (ou dos que não acontecem) criam um fundo de melancolia. Já o dizia o poeta Leopardi: «tal como o ar enche os espaços entre os objectos, assim a melancolia enche os intervalos entre um prazer e outro».

Vive a tua tristeza, tactei-a, desfolha-a nos teus olhos, molha-a com lágrimas, envolve-a em gritos ou em silêncio, copi-a em cadernos, anota-a no teu corpo, anota-a nos poros da tua pele. Pois só se não te defenderes fugirá, por momentos, para outro lugar que não o centro da tua íntima dor.

E para saboreares a tua tristeza vou recomendar-te também um prato melancólico: couve flor em brumas. Trata-se de cozer em vapor de água essa flor branca, triste e consistente. Devagar, com aquele odor que tem o próprio hálito que a boca exala nas lamentações, ela vaia cozendo até amaciar. E em volta em bruma, no seu vapor fumegante, põe-lhe azeite e alho e alguma pimenta, e salga-a com lágrimas que sejam tuas. Então saboreia-a devagarinho, mordendo-a do garfo, e chora mais, e chora ainda, que aquela flor acabará por ir chupando a tua melancolia sem te deixar seca, sem te deixar tranquila, sem te roubar a única coisa que é tua naquele momento, a única coisa que já ninguém te poderá tirar, a tua tristeza; mas com a sensação de teres partilhado com essa flor imarcescível, com essa flor absurda, pré-histórica, com essa flor que os noivos nunca pedem nas floristas, com essa flor de couve que ninguém põe nas jarras, com essa anomalia, com essa tristeza florescida, a tua própria tristeza de couve-flor, de planta triste e melancólica.

Héctor Abad Faciolince in Receitas de Amor para Mulheres Tristes
imagem: Nicoletta Ceccoli

receitas de amor para mulheres tristes

já cá está. mais um de Héctor Abad Faciolince.
[eu, este ano, sem saber, portei-me mesmo bem! :)]

quarta-feira, novembro 25

Questiono a eficiência


Questiono a eficiência, logo o valor, do raciocínio que é cultivado de qualquer forma particular que não seja a lógica abstracta. Questiono em especial o raciocínio originado pelo estudo matemático. A matemática é a ciência da forma e da quantidade; o raciocínio matemático é simplesmente a lógica aplicada à observação da forma e da quantidade. O grande erro reside na suposição de que mesmo as verdades do que é chamado de álgebra pura são verdades abstratas ou gerais. E esse erro é tão óbvio que fico espantado com sua aceitação universal. Os aximoas matemáticos não são axiomas de verdade geral. O que é uma verdade de relação é muitas vezes grosseiramente falso quanto à moral, por exemplo. Nessa última ciência, é muito comumente não-verdadeiro que a soma das partes deja igual ao todo.



Edgar Alan Poe in A Carta Roubada

imagem: google

sexta-feira, novembro 20

saudades de Macau


...e este, entre muitos, é especial. de 2002. dez anos antes, eu estava em Macau. sim, saudades, muitas. muitas. íssimas.
sobre o livro, aqui.

2ª edição para Aqui na Terra

«Já é oficial: o “Aqui na Terra” vai para segunda edição. A boa notícia junta-se a outra: em cinco meses, fizemos já dez apresentações do livro, “à deriva, com o rumo certo”. E feitas as contas, juntamos mais de 400 pessoas em diversas sessões e tertúlias, muitas vezes a horas ditas impraticáveis. Verificamos que, afinal, há por esse País fora, quem queira ser cúmplice de palavras e ideias…aqui na terra. Entretanto, as apresentações no Alentejo transitam para Janeiro. Até porque, até meados de Dezembro, serão agendadas sessões em Espinho, São João da Madeira, Vieira do Minho e, possivelmente, Lisboa. A 15 de Dezembro sai nova fornada. E enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar…»

[...lê-se no blog do autor. em alguma das sessões agendadas voltarei a estar. antes do Natal... é que não há melhor presente do que um livro e um livro autografado, então, é a cereja...depois da capa...]

quarta-feira, novembro 11

acabei de o encontrar !!!






ainda não estou em mim. acho que não vou dormir. vou ficar aqui a olhar para ele. acabei de o encontrar. ao meu livro da 1ª classe. dizia eu, há pouco, que encontrei um novo planeta. na Amadora BD. fui à procura do site. encontrei o blog e fui espreitar. e encontrei o MEU LIVRO...tantos anos depois. o que eu não dava para o voltar a desfolhar. para o ter aqui no meu colo. estou mesmo muito emocionada. e grata. grata a este planeta, com o qual me cruzei, tenho a certeza, para sempre. porque nunca mais me vou esquecer deste momento. e, agora, a missão é encontrar um exemplar...pelo menos, tentar.

quinta-feira, outubro 29

Aqui na Terra, país fora


Depois do Porto, Guimarães, Viana do Castelo, Chaves, Castelo de Paiva, Alvito, Braga, "Aqui na Terra", de Miguel Carvalho, é apresentado, amanhã, às 21.30h, na Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão. «As palavras ditas estarão por conta da minha querida Cláudia Sousa Dias (socióloga e bibliomaníaca assumida) e do padre Salvador Cabral», diz o autor, no seu blog [de onde também retirei a imagem]. É. A "pão de forma" anda pelo país fora... com o "Aqui na Terra" com o país dentro... A não perder. Claro!

quarta-feira, setembro 30

Lembranças

1.Devia lembrar-me de lembranças minhas, mas lembro-me de lembranças alheias (lembranças de pessoas que nunca conheci nem nunca me conheceram).


2.Um dia, há muitos anos, cruzei-me na rua comigo numa cidade estrangeira. Recordo agora, do lado de fora, esse instante. Eu era muito jovem e julgava então que desejava morrer. Quem em mim se lembra olhou-me alheadamente, passando, e, por qualquer motivo pareci-lhe familiar. Talvez alguém encontrado um dia,, por acaso, em algum lugar da nossa (da minha e da sua) vida, talvez algum amigo de infância para sempre perdido (quando a infância era como uma vez foi, verosímil e única). Eu não me olhei ou , se me olhei, não me reconheci (é, pois, o Desconhecido aquilo que em mim, agora, se lembra). Sem saber porquê, desejava, ou julgava que desejava, morrer. Contudo era já muito tarde. Alguns anos antes, sim, poderia ter morrido, tão perto estivera então da dor e da perfeição. Mas nessa altura não o sabia ainda. Lembro-me de mim passando e do meu confuso e incerto medo como se fosse eu, como se o medo fosse meu.
Aquele lugar, que lugar era? Que fazia eu ali, tão longe? E eu, que fazia ali? Lembrar-me-ei, também eu, desse lugar e desse momento? Quem, ou o quê, se lembra de isto? Agora sei que, se me tivesse olhado, por um momento que fosse, poderia ter-me visto. Alguma vez voltarei a estar, assim, de de novo diante de mim?

3. C. tinha longos cabelos escuros e uma voz do Norte, levemente cantada. Lembro-me de isso e, ainda,de algumas poucas palavras e de uma respiração ao telefone respirando.

Telefonara para dizer-me, entre mais coisas, que o melhor era eu fazer como se ela, e eu também, tivéssemos morrido há muito e lembrar-me de tudo (já não me lembro de quê) como de um vago sonho sonhado por outras duas pessoas, ou como se eu próprio fosse outra pessoa lembrando-se. Não era (não sei se lhe disse eu isso ou ela quem mo disse a mim) algo que se dissesse a alguém com 20 anos, mas era o género de coisa que só alguém com 20 anos pode completamente compreender. Lembro-me de que comprei, por esses dias, uma camisola castanha, de lã, e de que pensei então: «A quem falarei agora de todas as coisas sem importância?» A solidão é uma sôfrega evidência, alimenta-se de pequenos materiais, de circustâncias e de passagens, devorando a vida por onde ela é mais óbvia: por dentro.

Assim morremos os dois, tu e eu. Como poderíamos nós, ao telefone, saber que falávamos já, distantemente, de dois estranhos?


Agora o mundo é pequeno e incompreensível. Lembro-me (não sei quem) de quando o mundo e o tempo eram imensos e de quando também eu era imenso. As palavras podiam, então, conter inteiramente o destino:


- Fala-me, não pares de falar. Ouvindo-te tenho a certeza de que sou real, e de que também tu és, fora de mim, real.


- Somos reais, vês? - E seguravas-me na mão, sossegando-me, ou pousavas levemente a mão sobre a minha cabeça para eu adormecer.


[...]


Manuel António Pina in Poesia Reunida, pag. 263, 264, 265, Assírio & Alvim, 2001
imagem: Carla Salgueiro

domingo, agosto 30

Elegia da lembrança impossível


O que não daria eu pela memória

De uma rua de terra com baixos taipais

E de um alto ginete enchendo a alba

(Com o poncho grande e coçado)

Num dos dias da planície,

Num dia sem data.

O que não daria eu pela memória

Da minha mãe a olhar a manhã

Na fazenda de Santa Irene,

Sem saber que o seu nome ia ser Borges.

O que não daria eu pela memória

De ter lutado em Cepeda

E de ter visto Estanislau del Campo

Saudando a primeira bala

Com a alegria da coragem.

O que não daria eu pela memória

Dos barcos de Hengisto,

Zarpando do areal da Dinamarca

Para devastar uma ilha

Que ainda não era a Inglaterra.

O que não daria eu pela memória

(Tive-a e já a perdi)

De uma tela de ouro de Turner

Tão vasta como a música.

O que não daria eu pela memória

De ter sido um ouvinte daquele Sócrates

Que, na tarde da cicuta,

Examinou serenamente o problema

Da imortalidade,

Alternando os mitos e as razões

Enquanto a morte azul ia subindo

Dos seus pés já tão frios.

O que não daria eu pela memória

De que tu me dissesses que me amavas

E de não ter dormido até à aurora,

Dissoluto e feliz.


Jorge Luis Borges in Obras Completas, pag. 127, Teorema, 1989
imagem: Leila Pugnaloni

sexta-feira, julho 3

Qualquer coisa


«Um hálito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça quase sentir, qualquer coisa que faça não pensar.»
in Livro do Desassossego
imagem: Google

terça-feira, junho 30

O que o dia deve à noite


Foi o título que me agarrou ao livro. Não gosto da capa. Não conhecia o autor. Peguei nele, sem sentir o peso da grande história que tem dentro. Paguei e saí da livraria. Juntei-o aos outros dois que levei para férias. Li este e outro. E já há muito tempo que não tinha a sensação de ter efectuado duas viagens tão fantásticas. Seguidas. Uma massagem, duas refeições e umas braçadas na piscina foram a escala para sair de um livro e entrar noutro. Para sair da Colômbia e entrar na Argélia colonial [1936/1962]. Para conhecer a escrita poderosa de Yasmina Khadra. No fim do livro senti que tinha vivido intensamente aquelas vidas todas. Estava cansada, muito cansada mas muitíssimo satisfeita e triste e feliz. E então pensei que se quando morresse, [velha, sábia e serena] sentisse algo semelhante relativo à vida que vivi, era bom. Muito.
E, claro, no meio de toda a história política, contendas violentíssimas, desolação e paixão, religiões e culturas, desenrola-se a história de amor de Younes ou Jonas e Émilie. Tão incrível que ninguém - nem o próprio autor - me demoveria de acreditar que tudo o que li aconteceu. Aconteceu e Yasmina Khadra teve o dom de o converter em literatura. Pura.
Não consigo dizer mais. Só lendo. Só sentindo. E senti tanto que ainda me dói aqui. No peito. Tamanha foi a sofreguidão com que o li.

domingo, maio 10

Seria o amor português

[variações sobre um fado]

Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta...»
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs.
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
Do teu amor tudo seja novo,
Um homem e uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?


Fernando Assis Pacheco, in Poemas de Amor, Antologia de Poesia Portuguesa,pg.195, Dom Quixote,2002

sábado, maio 2

Metamorfose


Para a minha alma eu queria uma torre como esta,

assim alta,

assim de névoa acompanhando o rio.


Estou tão longe da margem que as pessoas passam

e as luzes se refletem na água.


E, contudo, a margem não pertence ao rio

nem o rio está em mim como a torre estaria

se eu a soubesse ter...


uma luz desce o rio

gente passa e não sabe


que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem


as nuvens não passem

tão alta tão alta


que a solidão possa tornar-se humana.



Jorge de Sena in Coroa da Terra, pag. 96, Publicações Dom Quixote
imagem: Duarte Monteiro

sábado, abril 25

Uma carta aos Serviços de Censura


Por ordem de V. Exa. Foi o meu livro HISTÓRIAS DE AMOR proibido de circular. Por ordem, ao que creio, do Ministério do Interior e em complemento da decisão de V. Exa.sobre a citação da Obra, foi encarregada da apreensão da PIDE. A intervenção inesperada desta Polícia Especial num assunto de índole exclusivamente literária é de todo o ponto injustificada e veio dar à questão um significado que lhe é totalmente alheio, podendo, em síntese, definir-se como atitude abusiva de direito policial.
Em verdade, não vejo eu – nem a Censura, ao que parece – que em HISTÓRIAS DE AMOR se atente por qualquer forma contra a segurança do Estado. Tão-pouco me parece motivo de polícia a atitude de um escritor português que se debruça sobre aspectos reais e concretos da realidade portuguesa, condenando, por exemplo, o adultério (Week-end), a vadiagem de pior extracção (Ritual dos Pequenos Vampiros), o amor clandestino (Rapariga dos Fósforos), etc. – aspectos da realidade quotidiana que qualquer moral consequente ataca. Muito pelo contrário,entendo que tal atitude é meritória e vem em abono dos mais elementares princípios morais. Nunca, seja em que caso for, ele seria objecto de polícia e muito menos de Polícia Especial.

Não é meu propósito fixar-me aqui em considerandos que com justiça viessem sublinhar a ilógica intromissão da PIDE no caso. Permito-me apenas trazer ao conhecimento de V. Exa. Este meu necessário protesto, certo de que, como Director de um organismo destinado expressamente a tratar de direito de assuntos literários, não deixará de lhe dar a merecida atenção.Isto porque cuido que os Serviços de Censura, sob a Direcção de V. Exa., não são de modo algum instrumento activo de política sectária mas um «meio de harmonizar trabalho dos escritores com a lei e os superiores interesses da Nação».
Consideraram os Serviços de Censura a minha obra HISTÓRIAS DE AMOR como:
a) De conteúdo social – V. Exa. Decerto avalia a que ponto tal classificação é pessoal e arbitrária e por mim, Senhor Director, permitindo-me observar aqui que nem o romântico Garrett escapou na boca de muitos críticos a esse rótulo.
b) Demasiado realista em certas passagens – Pelo exemplar censurado que me foi cedido para consulta e que justamente restituo, pude verificar que a quase totalidade dos «cortes» é, no mais exigente e puritano dos conceitos, infundada pois trata-se de frases comuns, e comummente aceites sem intuito pornográfico ou sentido aliciante de baixa literatura. Tomo a liberdade de submeter a V. Exa. Estes exemplos que propositadamente não escolhi constituem os «cortes» totais de 3 páginas:

«de novo tombavam para o lado e ficavam assim, as bocas entreabertas – misturado com a saliva dos beijos – É indecente, estou a molhar-te com suor» (pag.33); «lá estava ela ainda no leito com uma perna abandonada entre os lençóis – o sol e a perna loura entre os lençóis ainda quentes – o moço saltou da cama e veio até à janela enrolado na coberta – e novamente os apertou nos dentes» (pag.40); «nu» (pag.153).

No que respeita a este último aspecto, afigura-se-me de único interesse saber em que medida estas palavras funcionam como elementos eróticos ou deturpadores da realidade e não como em si mesmas podem ser tomadas. As palavras são sempre vazias e só tomam corpo e sabor autênticos quando informadas de intenção.
[...]
É evidentemente certo que Maiakowski e Eluard são poetas e cidadãos comunistas, mas uma leitura mais circunstanciada do texto poderá demonstrar que os cito de mistura com Gide, Pessoa e Debussy não foi por pretender camuflá-los (tão conhecidos eles são! ) Mas para sugerir que naquele momento do conto não interessava ao protagonista qualquer evasão literária ou artística fossem quais fossem as suas preferências [...]
Mais razoável, perante as justificações que acabo de apresentar, e mais consentâneo com o desejo do meu editor, seria o de se considerar o livro em bloco, não exigindo emendas a cada um dos «cortes» de per si, substituindo-se um caderno de 32 páginas em todos os exemplares apreendidos para que desta forma se aproveitasse a quase totalidade dos exemplares com as restantes páginas impressas.
Convicto de que este alvitre e as razões aqui alegadas merecerão a consideração mais justa e oportuna, subscrevo-me...
Excertos da carta de José Cardoso Pires ao Director dos Serviços de Censura (26.10.52)
Escrita após a proibição e retirada do mercado de Histórias de Amor, classificado como «Imoral. Contos de misérias sociais e em que o aspecto sexual se revela indecorosamente. De proibir.»
Texto citado a partir de Cândido de Azevedo, in A censura de Salazar e Caetano , Editorial Caminho 1999
José Cardoso Pires in Histórias de Amor, Edições Nelson de Matos, pag. 165-171, 2008
[Porque me é impossível imaginar o mundo sem que todas as palavras respirem! Esta é a minha forma de celebrar o 25 de Abril. É também a minha homenagem a José Cardoso Pires que tanto, tudo, íssimo gosto de ler. Uma forma de agradecer o poder dizer, hoje, o abecedário inteiro. O meu superlativo absoluto sintético de liberdade.]

quarta-feira, abril 22

António Gedeão e Herberto Helder


Sabes, Miguel, não gosto de António Gedeão como gosto de Herberto Helder.

Claro que não!

Como te disse, descobri António Gedeão com nove, dez anos, era ainda uma criança.

Foi na biblioteca. Descobri-o num livro. Num poema. Numa lágrima de preta.

E foram muitas descobertas numa.

Já tinha lido outros poemas. Nos livros lá de casa. No meu livro de português.

O meu livro de português tinha poemas que, ainda hoje, sei de cor e salteado, como nunca soube a tabuada.Tinha um poema pequenino, cinco linhas, talvez. E nessa altura - já te disse isto - eu achava que poemas eram poucas palavras a dizerem muitas, muitas coisas.

Nesse tempo, eu achava também que poemas eram escritos que adivinhavam coisas nossas. Talvez porque aquele poema - o do meu livro de português - tinha uma coisa que eu também tinha. E só eu sabia disso. E, então, pensei que poemas e segredos eram a mesma coisa.

Mas nunca um poema, por aquela idade, me soube tanto a palavras para dizer, como aquele, do António Gedeão.

Dei conta que as palavras faziam música.

Nunca um poema fora, para mim, palavras para ler em voz alta.

Depois de ler lágrima de preta, achei que um poema devia ser sempre sentido em voz alta.

E achei mais: achei que um poema era uma coisa útil. Tal e qual um objecto útil que nos facilita a vida. Foi, assim, com lágrima de preta. Descobri António Gedeão e foi com António Gedeão que descobri o que era um pseudónimo. E achei aquilo divertido. E descobri que, afinal, todos temos pseudónimos dentro de nós. Que revelamos ou não.

E, essencialmente, achei que ele fez bem, porque acho Rómulo um nome feio.

Foram muitas as descobertas. Tinha talvez dez anos.

Eu não gosto de Herberto Helder como gosto de António Gedeão.

Descobri Herberto Helder numa livraria. Num livro. Num poema.

Num não sei como dizer-te que a minha voz te procura.

E foram muitas descobertas numa.

Já antes tinha lido poemas. Nos livros, em minha casa. Nos livros das livrarias.

No meu livro de quinhentas e setenta e uma página de poemas, há um poema que me faz emudecer.Por isso, eu nunca o vou poder ler em voz alta. Só sentir.

É um poema que acontece, que teima em acontecer até ao milagre.

Daqueles poemas que mantêm segredos. Secretos, seguros.

Poemas com guelras. Poemas que adivinhavam coisas nossas.

Poemas raros de carne e rosa.

Poemas de muitas palavras, a fazer sentir coisas únicas.

Mas eu regresso sempre ao não sei como dizer-te que a minha voz te procura.

Foi com Herberto Helder que descobri a poesia toda.

E achei aquilo tudo. Terno. Eterno. Violento e voraz.

Mas nunca um poema, por aquela idade, me soube tanto a suor.

Dei conta que as palavras faziam amor.

Depois de ler não sei como dizer-te que a minha voz te procura,

eu achei que quem não o lesse, seria certamente infeliz.

Mas, depois, dei conta que isso de ser feliz ou infeliz é patético,

quando o assunto é aquele poema. E outros.

Foram muitas as descobertas. Tinha talvez vinte anos.

Imagem da livraria Lello: Zaclis Veiga
[texto editado em 2006, ano em que se assinalou o centenário do nascimento de António Gedeão]

sábado, abril 18

Animal olhar



Meus olhos não fabricam

a realidade ou tu:

limpos barcos,

novidade acesa como a terra viva,

movimento de braços, amálgama

exacta duna.


Meus olhos não fabricam mas encontram.


A terra que se enche já vem cheia,

o hálito começa na claridade do céu.

Os homens dançam por vezes.

Este momento é teu.

[...]

Silêncio no teu olhar, na tua boca.

Em tua língua primitiva o mar se olha.

É o deserto e falas, boca brusca

de ignorado alento.

Não te construo, constróis-me, construo-te

Construo-te, mar,

parede pura,

criada.


Aqui onde o sol se acende em carne,

onde a casa é um nome de mar,

e os frutos e os espelhos

amadurecem o corpo solidário:

É Verão.


Aqui tu és

lenta verdade no sossego do sangue:

circulação de nomes e de peixes.

[...]

Esta ciência de inocência e água

se toco, delicado, ou pão ou página,

ou corpo, ou fruto, ou verde folha,

este pisar que é duro e leve,

a frescura e a sombra, o ar, a luz

- tudo me dás, tudo te dou, tudo nos damos.


E a terra mais próxima e as ervas

e os bichos translúcidos entre pedras,

a serena eclosão dos nomes, cabeleira

sobre o corpo fresco, intenso e nu.

Verdade ainda mais próxima dos tranquilos campos,

paz que se alonga às searas por um corpo amado,

renhidamente amado entre a verdura

na noite de estrelas claras e estáticas.


Sobrio o teu corpo me pede

penetração:nomes puros:

os de boca, braços, mãos

sobre a terra e sobre os muros.


Sobrio o teu corpo me pede

nomes justos, nomes duros:

os da terra, fogo e punhos,

claros, acres, escuros.


António Ramos Rosa in Antologia Poética, pag 87,88, 89, Dom Quixote,2001
[excertos de um belo e extenso poema]
imagem: Maria E. Salvador

sexta-feira, abril 17

A respiração das coisas

Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.
Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.
Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.
No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.
Um dia em Epidauro – aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas – coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.
Tempos mais tarde, escrevi estes versos:


A voz sobe os últimos degraus
Ouço a palavra alada impessoal
Que reconheço por não ser já minha


Sophia de Mello Breyner Andrese in Ilhas, pag.70, Texto Editora,1990
imagem:
daqui