quarta-feira, setembro 30

Lembranças

1.Devia lembrar-me de lembranças minhas, mas lembro-me de lembranças alheias (lembranças de pessoas que nunca conheci nem nunca me conheceram).


2.Um dia, há muitos anos, cruzei-me na rua comigo numa cidade estrangeira. Recordo agora, do lado de fora, esse instante. Eu era muito jovem e julgava então que desejava morrer. Quem em mim se lembra olhou-me alheadamente, passando, e, por qualquer motivo pareci-lhe familiar. Talvez alguém encontrado um dia,, por acaso, em algum lugar da nossa (da minha e da sua) vida, talvez algum amigo de infância para sempre perdido (quando a infância era como uma vez foi, verosímil e única). Eu não me olhei ou , se me olhei, não me reconheci (é, pois, o Desconhecido aquilo que em mim, agora, se lembra). Sem saber porquê, desejava, ou julgava que desejava, morrer. Contudo era já muito tarde. Alguns anos antes, sim, poderia ter morrido, tão perto estivera então da dor e da perfeição. Mas nessa altura não o sabia ainda. Lembro-me de mim passando e do meu confuso e incerto medo como se fosse eu, como se o medo fosse meu.
Aquele lugar, que lugar era? Que fazia eu ali, tão longe? E eu, que fazia ali? Lembrar-me-ei, também eu, desse lugar e desse momento? Quem, ou o quê, se lembra de isto? Agora sei que, se me tivesse olhado, por um momento que fosse, poderia ter-me visto. Alguma vez voltarei a estar, assim, de de novo diante de mim?

3. C. tinha longos cabelos escuros e uma voz do Norte, levemente cantada. Lembro-me de isso e, ainda,de algumas poucas palavras e de uma respiração ao telefone respirando.

Telefonara para dizer-me, entre mais coisas, que o melhor era eu fazer como se ela, e eu também, tivéssemos morrido há muito e lembrar-me de tudo (já não me lembro de quê) como de um vago sonho sonhado por outras duas pessoas, ou como se eu próprio fosse outra pessoa lembrando-se. Não era (não sei se lhe disse eu isso ou ela quem mo disse a mim) algo que se dissesse a alguém com 20 anos, mas era o género de coisa que só alguém com 20 anos pode completamente compreender. Lembro-me de que comprei, por esses dias, uma camisola castanha, de lã, e de que pensei então: «A quem falarei agora de todas as coisas sem importância?» A solidão é uma sôfrega evidência, alimenta-se de pequenos materiais, de circustâncias e de passagens, devorando a vida por onde ela é mais óbvia: por dentro.

Assim morremos os dois, tu e eu. Como poderíamos nós, ao telefone, saber que falávamos já, distantemente, de dois estranhos?


Agora o mundo é pequeno e incompreensível. Lembro-me (não sei quem) de quando o mundo e o tempo eram imensos e de quando também eu era imenso. As palavras podiam, então, conter inteiramente o destino:


- Fala-me, não pares de falar. Ouvindo-te tenho a certeza de que sou real, e de que também tu és, fora de mim, real.


- Somos reais, vês? - E seguravas-me na mão, sossegando-me, ou pousavas levemente a mão sobre a minha cabeça para eu adormecer.


[...]


Manuel António Pina in Poesia Reunida, pag. 263, 264, 265, Assírio & Alvim, 2001
imagem: Carla Salgueiro

6 Comments:

Angélica Lins said...

B.E.L.O.
Como tudo que é postado aqui.

Abraço angelical.
=)

Sandra said...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Gi said...

A esquizofrenia pode ser genialmente bela.

Zaclis Veiga said...

Que texto lindo!
Me fez bem.
beijos

Voar sem Hasas said...

Será que vermo-nos de "fora", como se, não fossemos nós, nos ajudaria a perceber verdadeiramente como somos?

Se isso acontecesse,,,,,,, será que os outros nos vêem a nós como nós realmente somos?

Pôr-mo-nos no lugar do outro para o entender .... ou .... pôr-mo-nos no lugar de outrém para nos conhecermos....

Devo acrescentar que a foto é linda. Parabéns à CARLA

Claudia Sousa Dias said...

que bela imagem...

csd