sábado, setembro 26

[o caminho de casa]


«As palavras fazem

sentido (o tempo que levei até descobrir isto!),

um sentido justo,

feito de mais palavras.

(A impossibilidade de falar

e de ficar calado

não pode parar de falar,

escrevi eu ou outro).


Volto a casa.

ao princípio,

provavelmente um pouco mais velho.

As mesmas árvores,

mais velhas

a lembrança delas

passando sem tempo nos meus olhos,

como uma ideia feita ou um sentimento.


Entre o que regressa

e o que partiu um dia

ficaram palavras;


talvez (quem sabe?)

algum sentido.


Agora, como um intruso, subo as

escadas e abro a porta; e entro, vivo,

para fora de alguma coisa morta.


Senta-te aqui, fala comigo,

faz sentido

e totalidade à minha volta!»


Manuel António Pina in Poesia Reunida, pag.205, Assírio e Alvim, 2001
imagem: Google

8 Comments:

Anónimo said...

Ou é de mim ou andas a caminhar muito em direcção a casa...;)
o importante é que não percas o gosto: mais um verdadeiro poema gourmet!

Leigo

observatory said...

:)

sonja valentina said...

regressar tem destas coisas... com e sem sentido.

Claudia Sousa Dias said...

regressar...às coisas boas da vida.

a casa, quando feita à nossa medida, tem destas coisas.

e a tua casa, o teu planeta, refacte o universo daquilo que te vai na alma.

por isso só pode ser um lugar aprazível.

mesmo que fora do (nosso) planeta.

beijinho e bom fim de semana

:-)

CSD

mfc said...

Faz mais que sentido... isso é o essencial.

Zaclis Veiga said...

me atordoou.
saudade da minha casa que é um país...
beijo

frank verlag said...

Quando há caminho....Pois

PAS[Ç]SOS said...

No regresso há um sentido que nos leva mais velhos às memórias do que fomos. Um desejo de [re]encontrar o sentido no que pensamos o ter tido. E nas palavras vivemos o que não deixámos morrer. E as imagens podem ser o convite que ouvimos… sem falar.