segunda-feira, setembro 7

Os livros


em cada página, o teu olhar. em cada montanha,

a tua voz. deixa-me falar contigo. lembro-me

tão bem de tudo o que me disseste.


as palavras existem. eu quero encontrar-te

sempre, em cada noite, sobre a mesa de papéis

desarrumados onde desarrumo a nossa vida.


em cada página, os campos. em cada montanha,

tu a chamares-me. as páginas são, outra vez,

o dia em que nasci. lembro-me tão bem de tudo.


passam anos sobre as palavras. os dias existem.

seguro os livros como se segurasse a tua voz

e, quando alguém diz o teu nome, eu continuo a responder.


José Luís Peixoto, in A Casa, a Escuridão, Temas e Debates
imagem: google

20 Comments:

entremares said...

Talvez que os livros consigam atribuir um tempo às palavras, é só. Um passado e um futuro. És livre de os ler ao contrário, ou só ler as páginas impares.

Ou até, quem sabe, só ler as páginas que invoquem o teu(seu, dele, deles) nome.

És livre.

Uma óptima semana para ti...

Leonardo B. said...

Cara Amiga

começo a ficar aflito! Gostava de ler todos os livros do mundo, todos os idiotas poemas de amor e seus respectivos desencantos, tudo... mas mesmo tudo; mas receio que não vou conseguir... a menos que a Amazon também faça entregas " lá em cima"!

Agradecido por partilhar este Peixoto, que não conhecia e lá vou ter que procurar nas estantes aqui da biblioteca...

Um imenso abraço

Leonardo B

Funes, o memorioso said...

A menina persiste, com zelo e afinco, na teratológica e vã tarefa de dar a conhecer ao mundo os mais repugnantes poemas que a mão humana foi dado escrever. Seguramente que juntos vão dar, no final, uma bela antologia de dejectos poéticos.

Marta said...

Prof. Funes:

NÃO ME ABORREÇA.

QUE EU HOJE ESTOU ZANGADA COM O MUNDO E CONSIOGO muitíssimo mais do que o HABITUAL.

Leonardo B. said...

Amiga Marta

... pela manhã (e daí estas, logicamente, estarem um pouco ramelentas...) rascunhei num pedaço do Público, sei lá de quando: - Da natureza do homem não faz parte a estupidez; a subtil manipulação que aquele faz da natureza, é, por vezes desconhecer com precisão, no que reside a gradual falsificação das "verdades incontestáveis" que o rodeiam!Daí a provável confusão entre estupidez e ignorância: o seu grau de pureza!"...

O meu grau de acidez matinal, é por vezes, bastante vincado... mas tem lógica!

Um abraço

Leonardo B.

Funes, o memorioso said...

Calma,
Ando a preparar uma prenda para si, a ver se a animo. Tenho é que escolher. Ainda não encontrei uma coisa que eu deteste suficientemente, para ter a certeza que a vai apreciar.

Funes, o memorioso said...

Leonardo B,
Onde é que foi buscar a ideia de que "da natureza do homem não faz parte a estupidez"?
A estupidez é, porventura, a parte mais essencial da natureza humana.

Funes, o memorioso said...

Já agora - e considerando que o blogger não tem sido alvo de grandes ataques de spam - seria possível, cara Marta, retirar o verificador de palavras?
É que muitas vezes eu quero insultar os seus posts e desisto por causa das letrinhas ilegíveis que me obriga a escrever depois do comentário.

Anónimo said...

Marta, não podes trancar a porta a alguns bloggers absolutamente mentecaptos?


Belíssimo poema.

xpto

Claudia Sousa Dias said...

que belo.

na orgialiteraria tens "A criança erm Ruínas " também dele.


:-)


beijinhos


csd

Marta said...

Caro Prof. Funes,
quando insultamos ou dizemos mal, temos de ser tão ou mais convictos como quando elogiamos ou dizemos bem. E ultrapassar todas as barreiras.

Leonardo B. said...

Oh meu caro Sr. Professor

e com a devida delicadeza, até porque não sou tido nem achado, nas quotidianas disputas do homem com os seus anjos e demónios,mas dizia-me alguém de bom sentido de humor que "água benta, whisky (ou uisque?) de malta e presunção, cada um escolhe a sua própria dose!" -
Na parte que me toca, ainda vivo na caverna de Platão... e já temo chegar à iluminada epóca da Inquisição! Mas admiro os que lhes ganham os tiques, sem cuidarem que não devem atirar a "pedra ao vizinho; a sua vem pelo mesmo caminho!"

Não leve a "vida" tão a sério... até porque há grande diferença entre as seguintes expressões: esgrimir e partilhar razões! Diferença abissal, que entretanto partilha uma "palavra" em comum – a razão espalha-se por seis biliões de seres humanos e cada um que tome a sua!
Se não gosta desta esplanada, porque a frequenta?... há tantos Palomares por aí para chatear a "carola"!

Um abraço e sempre boa disposição,
razão humilde de sobrevivência...

Leonardo B.

(aparte: e por favor, hesite na resposta... porque não a provoco (até porque a minha dignidade e a minha educação, assim me obrigam!)... não tenho honras, nem lugares de estilo a defender; apenas sinto que não é justo para a "dona" do blog, nem para mim que aprecio o Luis Peixoto, e acima de tudo respeito-o, que o Sr. Professor venha importunar a calma deste lugar... e acredite-me que não entendo nada de moral - apenas saber que "a minha liberdade termina onde a do "outro" começa, basta-me! Bem Haja!)

Termino

cduxa said...

Excelente escolha.

heretico said...

beijo...

Funes, o memorioso said...

Vamos lá, então:

1- Antes de mais, um esclarecimento prévio: eu adoro esta esplanada. Digo mal? Pois digo. E depois. Será que já se esqueceram que a primeira manifestação literária desta língua que partilhamos foram as canções de escárnio e mal dizer?
Eu digo mal, porque gosto de dizer bem. De um modo geral, a excelência é rara. Ao dizermos bem de tudo, estamos a meter no mesmo saco o que é bom e o que é mau. O efeito desse absurdo igualitarismo é apenas o de menorizar e desvalorizar o que é bom, não lhe dando o valor que merece.
2- Em segundo lugar, não insultei ninguém. Disse mal de um poema e, pelo caminho, da grande maioria dos poemas que aqui se publicam. É a mais pura verdade que não justifiquei a razão de dizer mal. Segui, de resto, o mesmo critério dos que disseram bem que também não fundamentaram o respectivo juízo. Sendo certo que,pela vulgaridade do mal e pela rareza do bem, quem diz bem é que devia ter o ónus de provar a bondade que alega.
Mas os erros dos outros não justificam os meus e, por isso, impõe-se que me explique. Na certeza, ressalvo sempre, que não há no meu espírito qualquer ódio contra o autor do poema ou contra quem quer que seja no mundo. O poema é medíocre. Apenas isso. Como medíocre é quase tudo o que nós todos fazemos.
Se um tipo escreve poemas e não tem jeito nenhum para o fazer, é uma obra de caridade dizer-lho. Ele está a perder o seu tempo e a desperdiçar outro eventual talento que tenha. Se tem jeito e escreve um poema medíocre, também temos obrigação de lho dizer, porque se apenas dissermos bem, ele fica todo satisfeito com o seu talentozinho e desperdiça o talentozão potencial que possui.
O problema é que, não sei porquê, em Portugal instalou-se a ideia disparatada que criticar só pode ser dizer bem. Se se disser mal, isso é insulto e a voz que diz mal tem que ser silenciada, como sugere um equivocado anónimo num comentário acima.
O estranho é que quem assim reclama o silêncio costuma ser admirador incondicional do Manifesto Anti-Dantas, um texto que, esses sim, entrando pela via do insulto aberto.
Mas vamos à crítica do poema:
É medíocre.
E é medíocre pela mesmíssima razão que que costuma ser medíocres quase todos os poemas medíocres: não significa nada. Com o poema, o autor não quis dizer nada a leitor nenhum. Alinhou uma frases comuns, escritas de acordo com as convenções literárias do tempo, mas sem significado nenhum. Imagina apenas que é assim que tem que escrever, para ser reconhecido pelos árbitros do gosto. Sonha que é assim que entra na História da Literatura. Nada mais.
"em cada página, o teu olhar. em cada montanha, a tua voz"; "eu quero encontrar-te sempre, em cada noite, sobre a mesa de papéis desarrumados onde desarrumo a nossa vida"; "em cada página, os campos. em cada montanha, tu a chamares-me. as páginas são, outra vez, o dia em que nasci"; "passam anos sobre as palavras"; "seguro os livros como se segurasse a tua voz"...
O poema está contaminado de imagens e de metáforas. Há quatro ou cinco metáforas bem sucedidas na História da Literatura. É a figura de estilo mais difícil de construir. Por isso mesmo, a generalidade dos escritores que o são evita-a. O abuso da metáfora denuncia logo o poeta principiante ou o poeta medíocre. Porque a metáfora quando não resulta (e não resulta quase nunca) dá apenas frases sem qualquer sentido que não resistem ao teste da inversão. Se se inverterem as frases do poema, este não se altera, não perde sentido nem ganha um novo sentido. Só um exemplo: "em cada página, o teu olhar. em cada montanha, a tua voz" podia perfeitamente ser "em cada página, a tua voz. em cada montanha, o teu olhar".
Nada se alterava. E nada se alterava justamente, porque o poeta nada quis dizer. E quando nada se quer dizer, pode-se dizer qualquer coisa. Só que o que se diz nessas ocasiões costuma ser medíocre.

Claudia Sousa Dias said...

bem...

cuidado com o chicote linguístico do Professor Funes...


:-)

Parece-me que o JLP ficou sem pele nas costas...

CSD

Funes, o memorioso said...

Deus me livre de querer chicotear quem quer que seja. Quem sou eu para julgar JLP?
Eu disse mal de um poema medíocre. Só isso. E isso não exclui a possível genialidade de JLP. Fernando Pessoa, que unanimemente todos reconhecemos como um génio, também escreveu coisas tão abjectamente miseráveis como "O menino de sua mãe" ou que "tudo vale a pena, quando a alma não é perquena", frase, de resto, absolutamente exemplar das frases que não querem dizer absolutamente nada.

Claudia Sousa Dias said...

Ufa...Ainda bem...

:-)))


CSD

leal maria said...

A dissecação que o "memorioso Funes" fez ao poema de José Luís Peixoto é de uma pertinência...
Hoje em dia muita da poesia que aí se escreve não passa de um debitar profuso de palavras que, impreterivelmente, vai desaguar num texto hiper-metafórico.
Adoraria que ele dissecasse alguns dos meus.

Marta said...

sim, Leal Maria, Prof. Funes é muito analítico, muito pertinente, muito fracturante, muito inteligente, muito irritante.

mas os escritores não escrevem sempre preciosidades, até os génios escrevem banalidades
e depois?

até o prof. Funes que é autor de algumas pérolas em forma de posts, escreve posts que nunca deveriam conhecer o seu blog e depois?

quem me dera tempo!