quarta-feira, setembro 23

O sétimo dia [excerto de uma crónica]


Queria escrever sobre a dor. As diferentes cores da dor. Quando no hospital, em Nova Iorque, todos os dias o cancro levava os nossos meninos, eu olhava nos olhos da enfermeira Mary, a mulher que conheci que mais se parecia com um anjo, e perguntava-lhe:

"E a dor? Onde a pomos?", sabendo que já não havia espaço para mais. Às vezes, estava tão cansado, tão cansado...A Mary é irlandesa e tem uma fé inabalável. Confrontada com a crueldade de Deus, dizia que estava de certo muito ocupado, num Universo tão grande, que até Ele, por vezes, se distraía.

Todos os meses, na capela do hospital, médicos e enfermeiras juntavam-se para lembrar as crianças que tinham partido. A propósito de cada uma delas se contava uma história, uma graça, um episódio de coragem. A dor era lavada com lágrimas, e a coragem reconstituída no abraço que nos fazia partilhar a humanidade. Durante a cerimónia, um dos médicos mais velhos, e o que mais teimava disfarçar a sua enorme ternura, tocava piano. A dor comia bocadinhos de nós. Partes de mim deixaram de existir. A certeza que fica é que para a vida valer a pena é necessário amar e ser amado, e ter muito cuidado com o cristal de que os outros são feitos. Os outros sim, que nós somos de aço. Excepto, claro, quando choramos.

(...)

Nuno Lobo Antunes, Neuropediatra
imagem: Google

12 Comments:

PAS[Ç]SOS said...

Relatos de vida narrados sem demasiado sentimentalismo, apenas com a dose de emoção de quem tem de conviver com eles, esses relatos de histórias a quem a doença roubou precocemente a vida.

Zaclis Veiga said...

Esse texto me lembro que há momentos nos quais precisamos nos deparar com a dor dos outros para perceber o valor de nossa vida.

cduxa said...

Lindo,lindo! é um médico que escreve com emoção mesmo quando fala de coisas científicas.Gostava de saber de onde tirou este texto.

Patti said...

Tenho receio de ler este livro, ainda nem lhe peguei na estante da livraria...

Teresa said...

Olá Marta
A capacidade de escrever com o coração e de nos emocionar profundamente, será genética? Neste caso, será um dom de família?

Anónimo said...

L I N D O!!!
Maria Benedita

C. said...

Conheci a pessoa(o autor)num contexto que envolvia justamente público e questões ligados à área da saúde. Devo dizer que, ainda assim, prefiro o escrito ao escritor, apesar de toda a concessão que ele faz a um certo "sentimentalismo" que facilita a venda dos livros. É que não o vi ter o mínimo gesto que fosse daquilo a que ele chama "partilhar a humanidade". Até fiquei descoroçoada.
Se calhar isto também é genético
:-))

Com um beijinho. Também de agradecimento pelas palavras carinhosas que "lá" vai deixando.

Lunna said...

A gente nunca sabe realmente o que o abrir de uma tela no computador nos revela e não é que hoje eu fiquei boquiaberta aqui mesmo? A paisagem, as palavras, o cenário... Tudo causou-me uma deliciosa sensação, mesmo que o tema em questão (a dor) me faça suspirar e pensar naqueles que sofrem em silêncio ou gritando com o mundo.
Que blog delicioso este, que prazer agradável sinto eu por essa posibilidade. Grata.
Beijos meus

Ps. E tudo isso começou com um simples desejo de retribuição. Amém

hasaliah said...

A dor humaniza-nos,,,, mostra o quanto somos frágeis.
A dor aproxima-nos,,,, ensina que somos todos feitos da mesma matéria.
A dor retira-nos as defesas mas, deixa-nos mais fortes..............

Bem hajam todos os que trabalham na saúde.

sonja valentina said...

há alturas em que precisava de um pouco da fé da enfermeira Mary...

obrigada, Marta!

Anónimo said...

Este doeu, Marta, mas é muito bonito.
Cristina M.

Anónimo said...

Já o ouvi algumas vezes e gosto muito! Costuma contar muitas histórias, o que enriquece imenso as palestras mas nunca tinha ouvido esta...tou sem palavras!

C