segunda-feira, setembro 21

o poema de Eugénio


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;

era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.

E eu acreditava.

Acreditava,porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,

era no tempo em que o teu corpo era um aquário,

era no tempo em que os meus olhos

eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor,

já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certezade que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade
imagem: Carla Salgueiro

17 Comments:

Zaclis Veiga said...

lindo e triste e real

João Menéres said...

Que dirá o teu amigo?

Um beijo.

Anónimo said...

Este poema mostra como o fim pode originar uma coisa muito bela.

Leigo

Teresa said...

Marta
Esse é o meu poema do coração, que sabia de cor na minha adolescência. E sabe que hoje, antes de vir aqui, também pus um poema de E. Andrade no meu blogue?
Há coisas assim!
Bjs

Brancamar said...

Impressionantes sempre os poemas de Eugénio!
Tantas vezes já disse este, tantas vezes o li, mas nunca me canso.
E lembro-me dele nos seus dia pelo Porto, nos seus dias pelo trabalho, quase sempre solitário, porque humano, inteiro, reflectido, mas ao mesmo tempo de uma ternura imensa, de uma lealdade ímpar.
Deixo um beijo pra ti, minha conterrânea. :)

Claudia Sousa Dias said...

já o ouvi vezes sem conta...declamado pela Mirró, pelo Antero, pelo Luís...


csd

PAS[Ç]SOS said...

Como uma verdade divina, estas palavras não se gastam no tempo porque não se gasta a sua verdade. E mesmo que se procure, alguma vez, dizê-lo de outra forma, chegaremos sempre à mesma conclusão: infelizmente, as palavras gastam-se!!!

Carlos Pires said...

Julgo que foi Aristóteles na Poética que observou o facto de um cadáver provocar repulsa mas um cadáver pintado ou esculpido poder ser considerado belo.
Há belas fotografias de pessoas e paisagens feias. Há poemas belos sobre acontecimentos tristes e "feios".
Não é fácil explicar como é isso possível.

Anónimo said...

Foi com este poema que conheci Eugénio.
E trazia-o escrito num pequeno papel na minha carteira de adolescente.
Prenúncios?
Beijos, linda Marta.
Xana

Lina Faria said...

Belíssimo poema!

sonja valentina said...

recuso-me a acreditar que as palavras se gastem....

entremares said...

Os poemas às vezes recordam-nos "coisas", momentos, situações, pessoas. Às vezes bons momentos, outras vezes nem por isso.

O Eugénio para mim sempre foi o poeta dos álamos, das pedras azuis, da cor dos sorrisos e de outras tantas imagens que, depois dele as descrever, ficamos sempre a pensar... como é que ninguém se tinha ainda lembrado de descrever as coisas assim?

Eu sei que nesta vida, tudo tem um principio, um meio... e um fim. E creio que o Eugénio, melhor que ninguém, consegue falar destes três tempos com a mesma beleza, a mesma paixão.

Beijos.
Rolando

Anónimo said...

O amor às vezes não precisa de palavras, mas quando as elas se gastam é um sinal que o amor acabou.

Mimos de Natal - Por um sorriso said...

Amiga Marta,

já temos o blog do Mimos de Natal, toda a ajuda na divulgação do nosso projecto é bem-vinda.E desde já agradecemos a divulgação que possas dar no teu blog e no envio do projecto a todos os teus amigos.
obrigada.
beijinhos

Funes, o memorioso said...

Sonja Valentina: é evidente que as palavras se gastam. Já ninguém diz "mocidade" e (tirando o Paulo Portas) "lavoura". Eram palavras gastas. Foram substituídas por "juventude" e "agricultura". Também já ninguém diz "repartição". Agora diz-se "Loja" ou "Balcão", talvez porque a cidadania desceu ao nível da mercearia.
Também já ninguém diz Fontinhas rato.

MafaldaG. said...

Vou fazer isso. Obrigada. Disseram-me que ele ia estar presente em todos os encontros. O José vai estar nas Quintas de Leitura à mesma hora, pelo que não deve ir. Ainda bem que gostaste daquele depósito de frases idiotas. Melhor só haver Vida em Marta !

Dalaila said...

este poemo do eugénio é de génio!