sexta-feira, setembro 18

perdoar não é esquecer, pois não?


sabem o filme do homem aranha vestido de preto? não foi dos melhores. mas gostei de o ver.

a história…uma metáfora. claro.

se quisermos todos os heróis são metáforas. hiperbólicas ou não.

o lado negro, obscuro que vive em cada um de nós. banal.

quem não o sabe? quem não o sente?

quando tudo parece estar bem, há sempre algo que transborda, numa perfusão de sentimentos e atitudes que não sabíamos ter cá dentro. de que não nos sabíamos capazes.

o filme traz à baila o perdão. um tema que me deixa sempre muito introspectiva.

afinal, o que é o perdão? o que significa perdoar? o que é perdoar?

«O mal. Um desafio para a filosofia e para a teologia» e «O perdão pode curar?» são textos de Paul Ricoeur que já li e que me trouxeram ainda mais inquietação.

depois, parece-me haver o perdoar a nós próprios e o perdoar aos outros. é distinto.

o perdão divino é uma instância superior, condicionada pela religião. obviamente. não vou por aí.
de acordo com Allen Dvorak “a palavra grega traduzida como "perdoar" significa literalmente cancelar ou remir. Significa a liberação ou cancelamento de uma obrigação e foi algumas vezes usada no sentido de perdoar um débito financeiro. Para entendermos o significado desta palavra dentro do conceito bíblico de perdão, precisamos entender que o pecador é um devedor espiritual (…)”.
o mesmo autor defende, com textos biblícos, que o perdão de Deus é condicional.

se esse é, imagine-se o perdão dos homens! alguém será capaz de perdoar sem pôr, pelo menos, uma única condição, por pequena que seja?
– estás perdoado. mas vai para longe de mim – ou – não te desejo o mesmo que me fizeste – mas afasta-te.
perdoar não é esquecer, pois não? digam-me que não, por favor.

como é que se esquece o que nos magoa profundamente?

como é que se esquece o que nos faz profundamente bem?

não consigo processar estes esquecimentos.

na índole das pessoas há uma espécie de etimologia.
demora é mais tempo do que a das palavras, a decifrar.

descobri que perdoar é o superlativo da doação. o prefixo per - (per)dão - assume o “por”; “através de”; e, ainda, o significado de plenitude. ou seja, parece-me, por muitos motivos, inclusive este, etimológico, que esta capacidade de doar, ou perdoar, é algo mais para deuses do que para homens. ou, então, de demiurgos!
eu creio que o perdão pode fazer renascer ou aniquilar.
e confunde-me a distância aparentemente curta entre dois pólos opostos.
provoca-me um jet-lag emocional.
mas o que dá cabo de mim é a associação esquecer/perdoar.
eu não esqueço.

eu, sem querer, identifico-me mais com Funes, do conto de Jorge Luís Borges. o rapaz que tinha uma memória prodigiosa e que não conseguia articulá-la com a sua pouca inteligência! o rapaz a quem era difícil dormir. o rapaz solitário e espectador lúcido de um mundo multiforme...tão belo este conto...
o perdão não passa pelo esquecimento. não pode passar.
a bem da memória.
imagem: quadro de Vieira da Silva

21 Comments:

Anónimo said...

Excelente tema Marta. Parabéns, até pela forma como o aborda. Mas creio que a resposta a vai ter de procurar dentro de si.
Eu que não aprecio filmes de banda desenhada, digo-lhe que fiquei curioso para ver esse Homem Aranha.
De resto, não tendo lido esse conto de Jorge Luis Borges também fiquei com vontade de o ler.
Bom fim-de-semana, cara Marta. E não se afaste por muito tempo.

J.M. de Magalhães

João Menéres said...

Agora, não tenho tempo para ler o texto. Lerei à noite.
Achei curiosa a coincidência de ontem ter falado na Helena e...

Lina Faria said...

belo texto, Marta. Virei sempre aqui!
bjs, Lina

sonja valentina said...

... ando às voltas eu mesma com esta questão, por motivos que agora não interessam para o caso.

e fico estupefacta quando me dizem que tenho que perdoar para seguir em frente... e nem imaginas a batalha interior que pr' aqui vai!

concordo contigo... a bem da memória é bom que perdoar não signifique esquecer... é que nesse caso acabaríamos por nos esquecer de nós próprios em algumas situações.

se isso faz de mim uma menos boa pessoa, que seja. mas assumo a minha incapacidade de esquecer (o que sofri). logo, não consigo perdoar!

Anónimo said...

A bem da memória Marta
mas também a bem da nossa dignidade.
Saio daqui emocionada e plasmada no seu pensamento. Agradeço-lhe.

Funes, o memorioso said...

"perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido"

Nunca compreendi esta frase do Pai Nosso, pela qual meio mundo pede a Deus a sua própria condenação. E nunca a compreendi, porque tenho tido a felicidade de viver sem ser ofendido. Ignoro como reagirei, se alguma vez, ofendido, me vir na situação de ter que perdoar.
A minha análise deste problema é, portanto, puramente intelectual e exógena, a análise de um tipo que vê um problema de fora, sem nunca o ter vivido.
Neste contexto, custa-me muito a entrar na cabeça a ideia de que se possa perdoar sem esquecer. Como é que pode perdoar, isto é, restabelecer a paz, a amizade e a luz, deixando num canto da memória uma sombra negra, não penetrada por essa luz?
Perdoar é começar do zero, escrevendo de novo a história numa folha de papel em branco. Se se guarda memória, o papel não foi inteiramente apagado. Pode-se escrever por cima, mas só se obtém um palimpsesto. O registo anterior está lá, pronto a ser de novo desocultado e a avivar a ferida aberta com a primitiva ofensa. Não, não me entra que possa haver perdão sem esquecimento.
Expus o meu pensamento por metáforas, o que é sempre a forma mais estúpida de expor um pensamento e, invariavelmente, revela que quem escreve não sabe o que quer dizer.

Duas notas finais:
1- Na leitura que faço, a pouca (a nula, diria eu) inteligência de Funes é consequência directa, imediata e necessária da sua memória. Porque é capaz de nomear, se mais esquercer, cada objecto do mundo que vê, Funes é incapaz de abstracção. Para ele, nominalista puro, o universal não existe, nem sequer na mente, como em Occam. Para Funes, o nome e o objecto são uma e a mesma coisa. Sem abstracção não há inteligência.

2- Perdoo-lhe, esquecendo tudo, todas as suas ofensas passadas. Quem posta Vieira da Silva merece eterno perdão.

Funes, o memorioso said...

"Porque é capaz de nomear, sem jamais esquercer..." - deve ler-se na nota 1 do meu comentário anterior.

Nefertiti said...

belíssima reflexão. obrigada, Marta.

Anónimo said...

Sendo assim, Funes, ninguém perdoa, pois não acredito que se esqueça o que nos magoa.
Ninguém esquece, logo ninguém perdoa.Logo perdoar é uma falsa questão.

Leigo

Funes, o memorioso said...

Será, Leigo. Mas, como reconhece, não faz a demonstração de que é impossível perdoar e esquecer. Limitou-se a proclamar a sua profissão de fé nessa hipótese ("não acredito q..." - escreveu). É uma crença. Respeitável, naturalmente, mas só isso, uma crença, não uma verdade científica. Mas a sua conclusão é razoável: provavelmente o perdão não existe. Tirando talvez para Deus que é omnipotente e infinitamente bom, o perdão é só um flatus vocis, um som sem significado nem sentido.

Funes, o memorioso said...

A minha última frase no comentário anterior pretendia ser dubitativa e não assertiva como me saiu. Devia ter escrito assim: "Tirando talvez para Deus que é omnipotente e infinitamente bom, é possível que o perdão seja só um flatus vocis, um som sem significado nem sentido."

Funes, o memorioso said...

Já esqueci o pouco latim que nunca soube. A expressão correcta é "flatus voci" ("voci" é genitivo singular, penso eu de que)

El Viejo @gustín said...

Para poder Perdonar hay primero que perdonarse a si mismo.

muy buena reflexión Marta.

1 beso

Tiago Taron said...

perdoar é levarmo-nos muito a sério,à excepção do valor que possa ter nas estratégias de educação ou nas manipulação amorosas, perdoar é atribuirnos uma superioridade que a decência não nos deveria autorizar. Há qualquer coisa de hipócrita em todo o perdão, semelhante à mais horrível frase da azuleijaria cristã: "Senhor quando estiver triste dai-me alguém para consolar". Tal como por consolar eu não posso transformar a minha tristeza em alegria, também ao perdoar não transformo a minha imperfeição, o meu lado negro, em perfeito e face luminosa.

Leila Pugnaloni said...

Marta,
Seu texto é preciso e a ilustração da Vieira da Silva é maravilhosa.
Sobre o perdão e o esquecimento: nada tenho a acrescentar.
Mas, no amor, por exemplo, quando se chega a este ponto, penso que o encantamento fica comprometido...e , então, já não sei...

Anónimo said...

Este tema é duro Marta, muito duro. E começas com o filme do Homem Aranha...Como se não fosse nada.
Um beijo, miúda:)

heretico said...

... nem esquecer, nem dar a outra face! diria...

(mas eu sou "heretico" rss)

belissimo. inteligente e "humano" texto.

beijo

Zaclis Veiga said...

Minha querida Marta
Creio que perdoar não é, necesariamente, esquecer.
Mas, certamente, é deixar de sofrer pelo mal que o outro nos fez.
Perdoar é liberar a nós mesmos da tristeza, raiva, ira ou qualquer sentimento dessa espécie que o outro nos causou.
Perdoar é uma decisão que afeta muito mais a quem perdoa do que quem é perdoado.

Claudia Sousa Dias said...

não convém, minha querida, não convém.

enquanto houver memória, não.

e esta existe para nossa segurança. para que possamos evitar os buracos que já conhecemos.

a não ser que o nosso olhar sobre as coisas mude e nós possamos ver as coisas de uma perspectiva mais ampla.
aí sim. pode-se colocar uma pedra sobre o assunto e recomeçar do zero.
mas antes não.

bípede falante said...

Marta, descobri o seu blog há poucos dias e estou fascinada por ele. Este post tocou-me profundamente por eu estar vivendo um momento extremo em que o perdão me é exigido e parece-me ser impossível.

Marta said...

gostei muito, muito mesmo, de saber o V. ponto de vista sobre este tema que tanto me interessa. OBRIGADA.muito.