quarta-feira, setembro 2

Flash


Não te queria quebrada pelos quatro elementos.

Nem apanhada apenas pelo tacto;

ou no aroma;

ou pela carne ouvida, aos trabalhos das luas

na funda malha de água.

Ou ver-te entre os braços a operação de uma estrela.

Nem que só a falcoaria me escurecesse como um golpe,

trémulo alimento entre roupa

alta,

nas camas.


Magnificiência.

Levantava-te


em música, em ferida

- aterrada pela riqueza -

a negra jubilação. Levantava-te em mim como uma coroa.

Fazia tremer o mundo.


E queimavas-me a boca, pura

colher de ouro tragada

viva. Brilhava-te a língua.

Eu brilhava.

Ou que então, entrecravados num só contínuo nexo,

nascesse da carne única

uma cana de mármore.

E alguém, passando, cortasse o sopro

de uma morte trançada. Lábios anónimos, no hausto

de árdua fêmea e macho

anelados entre si, criassem um órgão novo entre a ordem.

Modulassem.

E a pontadas de fogo, pulsavam os rostos, emplumavam-se.

Os animais bebiam, ficavam cheios da rapidez da água.

Os planetas fechavam-se nessa

floresta de som unânime

pedra. E éramos, nós, o fausto violento, transformador

da terra.


Nome do mundo, diadema.


Herberto Helder
imagem: [enviada por mail. desconheço o autor. infelizmente.]

1 Comment:

Claudia Sousa Dias said...

teluricidade.

csd