segunda-feira, setembro 14

o Outono visto pela janela


na casa onde nasci havia sons e cheiros meus

as pessoas que os tinham emprestavam-mos à memória

e eu incluía-os como amigos íntimos

nesta não tem gente

ou se tem não têm cheiro

nem som porque eu não me lembro

gastei toda a memória nas pessoas antigas

e o espaço para as novas é um t1 que fica muito para além do t

onde eu estou sem visitas

fechado à medida de não deixar entrar

preciso do que já foi como do próximo ar para me lembrar que foi bom

eu já fui bom

agora não sei

mas já fui

juro que fui

e quero gastar as únicas energias a fazer manutenção às memórias

p’ra que nenhuma se perca

era pena

é que até a gente que me fez por dentro como a um cofre já não existe

e quero mantê-los ligados à máquina para sempre

e a máquina sou eu

e para sempre sou eu

anda

aconchega-te no mofo do t1

finge que és de antigamente para te dar os beijinhos de quando era pequenino

cheiras à minha avó

à roupa no estendal

à canção do fim dos bonecos

ao banho que está a ficar frio

ao grito do granizo do dia mais longo em que a casa esteve para cair

tu cheiras e sabes ao dia em que a casa esteve para cair

que foi no mesmo dia em que resistiu

como se estivesse ali desde o início dos tempos

e os tivesse começado para eu os acabar

acabar

acabar

acaba comigo que me falha a lembrança

e restas-me como a folha que esteve para cair

e que só não caiu porque o mundo acabou antes do Outono


João Negreiros in arranha os céus e chove
imagem: Google

5 Comments:

Funes, o memorioso said...

Tirando pela notória e assumida influência de Pessoa (na versão Álvaro Campos) e pelo lugar comum do cheiro como fonte de sentimentos literários, o poema até tem nota positiva. Suf.+, como nós dizíamos no liceu.

João Menéres said...

Tem ritmo.
Traz lembranças consigo. Lembranças minhas, tuas, de todos.
Eu, que não sou de Letras mas gosto imenso de Poesia, era mais generoso.
Mas, eu sou assim. Não tenho emenda...

Bravo, MARTA, sempre atenta ao gosto de quem te segue quase até MARTE.

entremares said...

Concordo com o João... sem emenda.

As memórias são assim. Com aquela "coisa" estranha que às vezes até temos memórias que nem chegaram a acontecer, mas que gostaríamos que tivessem acontecido...

Já te aconteceu?
A mim, já.

PAS[Ç]SOS said...

A poesia de João Negreiros consegue ser acidamente doce... ou docemente amarga, mas puxa-nos lá para dentro sem aquela delicadeza caracteristica dos poetas, como se nos arrastasse pelo cachaço e nos mostrasse o que sentimos mas somos incapazes de ver. [ou seja: de dizer!]

Peters said...

Ó PAS[Ç]SOS é mesmo isso...Adoro a poesia jovem...Quem diz que um bom vinho é o mais antigo acaba por ter uma desilusão ao prová-lo...