quinta-feira, julho 15

Cansado


Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Álvaro de Campos

terça-feira, junho 29

Achei no lixo


Achei no lixo um velho caderno de significados
sem nome e com todas as páginas em branco
ando agora a preenchê-lo com as minhas dúvidas
por exemplo dor alegria distracção partilha dádiva
ou com respostas para as perguntas ainda por fazer
por exemplo dor alegria distracção partilha dádiva
logo que esteja completamente preenchido devolvo-o
ao lixo de onde o trouxe com pena de quem o encontrar
velho e usado e com todas as páginas em branco.


Carlos Alberto Machado in Talismã, Lisboa: A&A, 2004

quarta-feira, junho 2

sim, creio


Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro.
Ámen.

Natália Correia
[obrigada duende, não conhecia]

quarta-feira, março 31

é lindíssimo!

poema de Constantino Cavafis.

[há dias assim. tanto. que não consigo dizer mais nada. ouçam. é lindíssimo]

segunda-feira, março 22

Tivesse ainda tempo e entregava-te o coração


A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

José Tolentino Mendonça in A que distância deixaste o coração

quinta-feira, março 18

Segunda infância


À tua palavra me acolho lá onde

o dia começa e o corpo nos renasce

Regresso recém-nascido ao teu regaço

minha mais funda infância meu paul

Voltam de novo as folhas para as árvores

e nunca as lágrimas deixaram os olhos


Nem houve céus forrados sobre as horas

nem míseras ideias de cotim

despovoaram alegres tardes de pássaros

O sol continua a ser o único

acontecimento importante da rua

Eu passo mas não peço às árvores

coração para além dos frutos

Tu és ainda o maior dos mares

e embrulho-me na voz com que desdobras

o inumerável número dos dias

Ruy Belo , Obra Poética, vol. 1, Presença, Lisboa, 1981
[infelizmente desconheço o autor da imagem]

quinta-feira, fevereiro 18

no ruído do meu silêncio


no ruído do meu silêncio não me perco, traço pontos entre linhas imaginárias, os pontos reais , os pensamentos incorpóreos, e entre um ponto e outro anoto as variantes de silêncio que percebo:

o silêncio do vento parado, o silêncio do ar respirado, o silêncio do meu coração, o silêncio da minha alma


custa-me mais ouvir a alma, esse silêncio que toco de uma a outra

letra à música que faço no silêncio que afogo


há silêncios tão longos como uma noite longe
imagem: [não sei]

segunda-feira, fevereiro 8

Mãos Dadas


Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considere a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.



Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.

não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.

não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, fevereiro 3

Os Dias Legíveis


1
A noite cicia.
Um silêncio de palavras
é pura a melodia do vento.

O sol da tarde.
O que a vida freme.
A memória esquece.



2
Ouço
Num arco de fogo a manhã
Escrevo e medito :
a rosa no lume
as mãos dolentes
o mar lavrado de lonjura
grita fundo na tábua e no fumo

3
O que foi um pássaro
a cantar dentro de horas ?
Ali

4.
Estive voltado para um relógio
indiferente a quem vinha pela estrada

Escrevi caminhos
por entre palavras e pássaros

José Ribeiro Marto
imagem: Emir Ozsahin

domingo, janeiro 31

e por vezes


E por vezes as noites duram meses

E por vezes os meses oceanos

E por vezes os braços que apertamos

nunca mais são os mesmos E por vezes


encontramos de nós em poucos meses

o que a noite nos fez em muitos anos

E por vezes fingimos que lembramos

E por vezes lembramos que por vezes


ao tomarmos o gosto aos oceanos

só o sarro das noites não dos meses

lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos

E por vezes por vezes

ah por vezes

num segundo se evolam tantos anos


Davida Mourão-Ferreira
imagem: Artur K

segunda-feira, janeiro 25

Parada Cardíaca



Essa minha secura
essa falta de sentimento
não tem ninguém que segure,
vem de dentro.

Vem da zona escura
donde vem o que sinto.
Sinto muito,
sentir é muito lento.


Paulo Leminski
imagem: Claudia Santos Silva

terça-feira, janeiro 19

Assim, no pensamento



As nuvens são sombrias
Mas, nos lados do sul,
Um bocado do céu
É tristemente azul.

Assim, no pensamento,
Sem haver solução,
Há um bocado que lembra
Que existe o coração.

E esse bocado é que é
A verdade que está
A ser beleza eterna
Para além do que há.


Fernando Pessoa

sexta-feira, janeiro 15

Se eu pudesse trincar a terra toda

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
E se a terra fosse uma coisa para trincar
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz,
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade e na infelicidade
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

Alberto Caeiro in Poesia,pag.55, Assírio & Alvim

imagem: José P. Dionisio

quinta-feira, janeiro 7

o lado bom da saudade

Talvez o vento
Talvez as marés
Talvez o jeito
De seres como és
Fossem as ondas
A bater baixinho
Lá onde o mar faz o ninho
Estavas na praia
Os gestos discretos
Eram mistérios
De outros alfabetos
Puseste a mesa
Deste-me um lugar
E eu acabei por ficar
Não sei que nome te dar
O teu nome verdadeiro
Menina de olhar o mar
Saudades do mundo inteiro
E tu sorrias
E eu fui ficando
Por mais uns dias (nem me lembro quando)
Contei-te histórias
De tudo o que passei
E outras que eu inventei
Juntaste as mãos
À frente do peito
Disseste adeus
Não perdeste o jeito
De me dizer
Que a eternidade
É o lado bom da saudade
Não sei que nome te dar
O teu nome verdadeiro
Menina de olhar o mar
Saudades do mundo inteiro

João Monge/Luís Represas

imagem: Leila Pugnaloni

quarta-feira, dezembro 30

desejo [vos] para 2010


Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você sesentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
Eque pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono dequem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar esofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
Eque se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.
Vitor Hugo
imagem: Sonja Valentina

terça-feira, outubro 13

Para o Ricardo


Mal nos conhecemos


Inaugurámos a palavra «amigo».


«Amigo» é um sorriso


De boca em boca,


Um olhar bem limpo,


Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,


Um coração pronto a pulsar


Na nossa mão!


«Amigo» (recordam-se, vocês aí,


Escrupulosos detritos?)


«Amigo» é o contrário de inimigo!


«Amigo» é o erro corrigido,


Não o erro perseguido, explorado,


É a verdade partilhada, praticada.


«Amigo» é a solidão derrotada!


«Amigo» é uma grande tarefa,


Um trabalho sem fim,


Um espaço útil, um tempo fértil,


«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill, in No Reino da Dinamarca

[este poema é dedicado ao meu querido RICARDO. Parabéns pelo dia 4 de Outubro. Muitos 4 de Outubro nas nossas vidas. Felizes como nesse magnífico Domingo que ainda não vos tinha agradecido. Aqui. Eu sei que sabem, aquilo da felicidade... de te/vos ter como amigo (s)]

quinta-feira, outubro 8

Mudam-se os tempos


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.


Luís Vaz de Camões
imagem: google

sexta-feira, outubro 2

É ter cá dentro um astro que flameja


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma e sangue e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!
Florbela Espanca
imagem: Google

terça-feira, setembro 29

Sei muito bem


(Sei muito bem que na infância de toda

[a gente houve um jardim

Particular ou público, ou do vizinho.

Sei muito bem que brincarmos

[era o dono dele.

E que a tristeza é de hoje.)


Sei isso muitas vezes,

Mas se eu pedi amor, porque é que me

[trouxeram

Dobrada à moda do Porto fria?

Não é prato que se possa comer frio.

Não me queixei, mas estava frio,

Nunca se pode comer frio, mas veio frio.


Fernando Pessoa
imagem: Google

sábado, setembro 26

[o caminho de casa]


«As palavras fazem

sentido (o tempo que levei até descobrir isto!),

um sentido justo,

feito de mais palavras.

(A impossibilidade de falar

e de ficar calado

não pode parar de falar,

escrevi eu ou outro).


Volto a casa.

ao princípio,

provavelmente um pouco mais velho.

As mesmas árvores,

mais velhas

a lembrança delas

passando sem tempo nos meus olhos,

como uma ideia feita ou um sentimento.


Entre o que regressa

e o que partiu um dia

ficaram palavras;


talvez (quem sabe?)

algum sentido.


Agora, como um intruso, subo as

escadas e abro a porta; e entro, vivo,

para fora de alguma coisa morta.


Senta-te aqui, fala comigo,

faz sentido

e totalidade à minha volta!»


Manuel António Pina in Poesia Reunida, pag.205, Assírio e Alvim, 2001
imagem: Google