domingo, setembro 6

Logo à noite, no Clube Literário do Porto, às 21 horas


Os filhos dos outros portam-se bem à mesa
Se cada vez que der um gole de água pensar nisso vou ter de pensar em muitas outras coisas e isso leva-me, a pouco e pouco, a pensar em tudo. Então, em vez de ser um ser, vou ser uma fábrica de ângulos… de pontos de vista que não vão estar certos porque vão ser só mais uma unidade que faz parte das múltiplas possibilidades de análise que rodeiam a nossa vida e a vida dos que nos rodeiam.
A loucura, ou o início dela, é isso, é o momento em que começamos a pensar… a partir daí é sempre a cair de forma sossegada como quem engole chicletes na montanha russa. A loucura é a incapacidade que temos de parar de pensar.
A loucura é o som que nunca ouvimos até ouvirmos, a pessoa que não temíamos até tremermos, a corrente que levávamos no pescoço até sabermos que era de ar… e dá-nos um arrepio daqueles… ou um dos outros… se decidirmos entrar na vida de outra pessoa e analisar a infelicidade pelo ponto de vista de alguém a quem não conhecíamos as maleitas… até passarmos a conhecer. E, quando damos conta, contamos-lhes as dívidas e os trocos, sabemos-lhes os defeitos e as injúrias de alcofa, beijamos-lhes os filhos como nossos, o sangue como morcegos, a sina como ciganos e nós somos eles… e todos.
Mas, quando nos aborrecemos, voltamos para casa… para deixar de sofrer muito com a vida dos outros e passamos a sofrer um bocadinho com os nossos. É que os nossos filhos são mais feios… a nossa mulher é mais gorda… os nossos pais estão menos mortos… os problemas dos outros, dos outros que fazem parte da raça sem sermos nós, são nobres, os outros são heróicos, os outros passam na televisão, os outros choram sem soltar ranho, morrem sem borrar as calças… e as dívidas de jogo são porque tiveram um descuido, uma hesitação, uma fraqueza… nós não…. nós somos descuidados, hesitantes, fracos e nós não gostamos nem um pouco de nós porque queremos passar as tardes em casa do resto da raça a ajudar a raça a sentir-se melhor com ela própria. Nós queremos passar as tardes a jogar às cartas em casa do resto da raça humana e elogiar-lhes as cortinas… e os dentinhos de leite dos rebentos… enquanto os nossos filhos crescem órfãos, os nossos irmãos não nos conhecem, os nossos pais morrem de solidão nos asilos, os nossos cães morrem à fome no beco do caminho para as férias… e a nossa empregada não recebe subsídio de Natal… e o nosso peixe não tem quem lhe mude a água… e a nossa roupa fede porque não quisemos tomar banho. E por isso tudo fedemos a falhanço e levamos eternamente o rosto da derrota dos que se deixaram ficar… dos que não gostam de si… nem do que sai de si…
E que é feito de si?... está com tão bom aspecto… e a sua senhora… está boazinha?… há que tempos que não os via…
João Negreiros in a verdade dói e pode estar errada
imagem: "o poeta" Chagall

6 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

e de que maneira...


csd

Anónimo said...

Marta,
quando dizes logo à noite é hoje, Domingo ou segunda-feira?

Marta said...

Domingo, dia 6 de Setembro :) às 21.30 no Clube Literário do Porto.
A NÃO PERDER!

Sofá Amarelo said...

Dava tudo para estar no Porto, cidade mágica por onde eu gosto de deambular sempre que posso - estive aí em Agosto... mas agora estou a 300 km, ohhh....

Muitos beijinhos!!! Boa semana!!!

Paulo said...

Marta, gostei do excerto de João Negreiros que aqui colocou. Fiquei curioso e interessado em conhecer o autor, o que farei em breve.Parabéns pela escolha.

Maria said...

Grande Poema, faz-me lembrar as tardes passadas no desperdício da minha vida a consolar quem nos suga a auto-estima e a deitar a nossa pela janela fora.
Este poema dá-me arrepios e todos os dias toca a sineta da minha consciência.
Obrigada João Negreiros .
MariaVForte