sábado, junho 18

...o que mais me encantava era o rio...


«Mas de tudo o que via da janela, o que mais me encantava era o rio. Então a barra ainda era funda, entravam por ela enormes cargueiros, tantos que às vezes ficavam atracados dois a dois, desde o Lordelo até à ponte. E porque na margem de Gaia não havia cais, a carga era morosa e pitoresca.
As pipas, os fardos, os caixotes, rolavam pelas pranchas ou levavam-nos os homens da estiva  à cabeça para as barcaças, que iam acostar aos navios. Os guinchos funcionavam a vapor e ao içar a mecadoria, ou quando a baixavam para os porões, saía deles silvando um longo penacho de fumo.
Tudo era princípio, novidade. Pedagogo nato, o avô sussurava-me os nomes das ruas, dos lugares, dos objectos, dos navios, dos países, ordenando e colorindo a realidade que eu ainda não podia interpretar.  Quase por inteiro são suas as descrições das tragédias do rio, dos barcos a redemoinhar nas águas turbulentas, da violência dos ciclones.
A paisagem era o filme, ele o comentador, e para me agradar apressava-se de volta a casa depois do trabalho, eu à espera ao cimo das escadas, ansioso por acompanhar a continuação da história do mundo».

J. Rentes de Carvalho in Ernestina, pag.138/139, Quetzal, 2010

imagens: marta

Tivesse a minha fantasia permanecido dentro de limites...


«Tivesse a minha fantasia permanecido dentro de limites, se assim se pode dizer, aceitáveis, e as suas consequências talvez fossem benignas. Mas junto aos impulsos da leitura, o cinema simplesmente me fez desandar a cabeça.
Quando o noivado da Joaquina com o ourives se tornou oficial e deixei de ser preciso como chaperon, aos domingos, era certo e sabido no Estrêla- Cine de Coimbrões. Assistia à primeira matiné, repetia a dose na segunda e de longe a longe se meu pai, que também era fanático, chegava bem disposto e a horas, ainda ia com ele à sessão da noite.
Duma vez, porque ela nunca tinha visto o cinema, convenci minha avó a acompanhar-me, mas não gostou de se ver no escuro nem apreciou a «bonecada», e no intervalo quis que fôssemos embora. Recusei. Ela sem mais puxou-me uma orelha, torceu, fez-me pôr em pé, e com a gente a zombar levou-me pela coxia morto de vergonha. A mim! Que comandava legiões, que voava para planetas remotos e tinha um palácio em Bagdad!
Agora fará sorrir, mas foi dor funda. Pela humilhação e, em parte maior, por me ver tão brutamente expulso dos paraísos em que vivia e forçado a retornar ao dia-a-dia onde não era poderoso nem herói. Nem sequer adulto, sim um garotinho franzino do corpo, tímido no modo, que quando o deixavam sozinho apenas conhecia um fito: correr de volta aos seus sonhos».

J. Rentes de Carvalho in Ernestina, pag. 192/193, Quetzal, 2010

quarta-feira, março 16

Às vezes tenho medo, muito medo.


Às vezes tenho medo, muito medo.

Às vezes sofro.

Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na

possibilidade de as perder.

Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.

Pode não ser um amigo ou familiar.

Posso estar a vê-lo pela primeira vez.

Mas fico incomodado.

Aquela doença pertence-me.

Todas as doenças pertencem a toda a gente.

Todos os sofrimentos pertencem a toda a gente.

Todas as mortes pertencem um pouco a toda a gente.

Às vezes sinto isso muito,

outras vezes sinto menos.

Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo,

brincar com a poesia,

com a filosofia e com as palavras.

Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.

Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo

de querer ser inteligente.

Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.

Não fazem sentido as lógicas,

as filosofias,

as discussões.

Todo o nosso corpo sente.

E o que resta? Nada.

Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.

Só aquele pai que amo e está a envelhecer. Só aquela mãe

que amo e está a envelhecer.

Só aquele amigo que morreu num estúpido acidente.

Só aquele amigo que se tornou amargo

porque a mulher o deixou.

Só o amor e a falta de amor.

As mulheres que nos enganam e as mulheres que são enganadas,

as mulheres e os homens que enganam.

Os amigos que deixam de o ser,

alguns inimigos que morrem, e temos pena.

Que importa o resto?

Onde está o livro importante?

O filme que resolve?

Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada.

Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar às

mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso corpo,

mas que adianta?

Estamos sozinhos.

Se não estamos, vamos estar.

Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.

Vão morrer ou nós vamos morrer.

Ou então deixam de nos telefonar, ou então deixamos de

lhes querer telefonar.

Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.

Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes

descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.

Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não

adianta nada e nada impede.

Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.

Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar,

tentamos ter ideias, tentamos distrair as pessoas, tentamos

fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas, e

isso é bom, e até pode ser bonito, mas não adianta nada,

não resolve nada,

não adianta nada.


Gonçalo M. Tavares in O homem ou é tonto ou é mulher

imagem: Claudia Pinto

domingo, março 13

"Correntes" por Claudia Sousa Dias


As "Correntes" na Póvoa - Odisseia 2011 [I e II] 
por Claudia Sousa Dias.
Desviado daqui.

sexta-feira, março 11

Reduto Quase Final

«Na releitura de Reduto Quase Final o que mais surpreende no autor de O Que Diz Molero, depois do seu discurso endereçado a García Marquez, é a intenção primordial de a 'escrita' ser quase personagem imediata da ambiência de todo o livro, cujos textos em rigor se não podem enquadrar literariamente como novelas ou contos, nem como narrativa autobiográfica no seu conjunto e Dinis Machado nos confessar que este livro 'começa por ser, de alguma maneira, a tentativa de fixar um certo número de memórias particularmente expressivas em mim'.
Mas se a escrita ganha essa autonomia que já se declarava nas páginas de Molero, não é menos exacto dizer-se que, por entre a profusão de referências literárias e outras, mesmo no desvendar da força e envolvência das palavras, nos signos e símbolos de que sempre se rodeiam ou por eles se impõem (as palavras têm as suas 'casas' na memória e intenção do narrador quando delas se serve e a elas sempre apela para povoar o vazio do seu 'reduto' ou 'trincheira'), é o tempo e a recordação dos lugares que se ergue como 'matéria' ficcional ou biográfica de querer recuperar outra imagem de um passado vivido, das pessoas que andaram pelos mesmos cafés, nos sonhos de filmes ou livros para preencher o vazio das horas, talvez nesse sentido paradigmático (como se evoca acerca de A Queda de Camus, e é certamente dos melhores textos deste livro) do gosto de falar e de escrever para se ouvir ou 'ter de se reconhecer naquilo mesmo que escreve. E assim se explica: 'Tenho que me reconhecer no que escrevo. Não vale a pena se não for assim. Nem se trata, ao de leve, de contrariar outros processos, ou teorias. Ou outras formas de relação com as palavras, a linguagem, o texto' (pág.87).
Poucas vezes, entre nós, o ficcionista costumava colocar a si mesmo, como é hoje norma muito seguida, esse problema de a 'escrita' se impor como razão estética do próprio acto de criar, como na linguagem pictórica é importante a cor ou o sentido de composição de que o pintor se serve nas diferentes gradações da sua arte. Mas é quase imperativo que, nas entrelinhas ou nas linhas cruzadas do que se escreve, se possa encontrar a justificação do 'modo de escrever', em jeito de explicação necessária para se não trocarem as voltas ao texto, se dizerem coisas que de perto se não relacionem com as intenções do autor. E, nesse exercício de escrita, como expressivamente se evidencia em Reduto Quase Final, o que sobra para a compreensão do leitor é ainda a atitude de se dizer que as palavras se encontram nas 'casas' certas, se utilizaram estas e não outras, enfim, se está disposto a 'ser melhor todos os dias', que as intenções foram estas e não outras, que o autor nunca teve nem poderia ter. Tudo certo, e assim muito bem explicado. Mas o que melhor se entende, na urgência da escrita de um livro como este de Dinis Machado que relemos a uma distância de dez anos, é sobretudo a intenção primeira da sua propositada incursão pelos meandros do tempo e da memória, mesmo que nos confesse não ter sido esse o pretexto. O livro impôs-se 'por dentro', rápido e urgente, sem tempo para ficar na gaveta a amadurecer, na imperiosa razão pessoal de lhe não dar outra oportunidade: chegar ao fim da escrita e fazê-lo entrar na máquina, enxuto de outras versões ou tentativas literárias, colocá-lo nas mãos do leitor, e ainda lhe poder dizer que 'escrever tinha, para mim, nas ocasiões mais urgentes, um carácter ritualista'». [...]
Continua aqui.

[...foi uma boa conversa ... :)]

terça-feira, fevereiro 8

...é por estas e por outras...


Acho que em Portugal há um julgamento estranho da modéstia. Batem-se palmas a quem basicamente diz que não é muito bom a fazer o que faz. E quando alguém diz que tem confiança no que faz, utiliza-se uma palavra pejorativa: arrogante. Eu claramente tenho confiança no que faço, e nesse aspecto não sou modesto. Agora, precisamente porque tenho essa confiança não me passa pela cabeça falar mal de alguém. Não por eu ser um coração maravilhoso, mas porque seria perder tempo precioso para aquilo que tenho de fazer.
Gonçalo M. Tavares, in Mil Folhas, Público, 2005


[...que o acho um grande Senhor. Tal e qual os Senhores que escreve...]

domingo, janeiro 16

de resto, também dizemos coisas quando não as dizemos

chega de conversa, diria o meu avô aníbal. e teria razão. pescador toda a vida, apreendeu essas secretas passagens que o silêncio incute e promove. falar, afinal, não é matar de modo inconsistente todos os modos do sossego?

o que, por agora, tinha para dizer deve estar nas páginas que se seguem. dez anos antes ou depois, há frases que nos vão resumindo – cicatrizam-se em nós (porque o mundo / assim como sou / não me basta). pensei também em dizer que, algures, entre estes dois livros, seguem longas linhas de uma sincera confissão. mas depois vi que isso seria uma redundância humana.
...
de resto, também dizemos coisas quando não as dizemos...



imagem: Luis Belrán

segunda-feira, janeiro 10

A Casa de Papel


«Todos os anos ofereço pelo menos cinquenta exemplares aos meus alunos, mas não consigo deixar de acrescentar uma nova estante, outra fila dupla; os livros avançam pela casa, silenciosos, inocentes. Não consigo detê-los.
Amiúde é mais difícil desfazermo-nos de um livro do que obtê-lo. Ligam-se a nós num pacto de necessidade e de esquecimento, como se fossem testemunhas de um momento das nossas vidas ao qual não regressaremos. Mas enquanto aí permanecerem, presumimos tê-los juntado. Vi que muita gente coloca a data, o dia, o mês e o ano da leitura; traçam um discreto calendário. Outros escrevem o seu nome na primeira página, antes de os emprestarem, anotam numa agenda o destinatário e acrescentam-lhe a data. Vi volumes carimbados como os das bibliotecas públicas ou com um delicado cartão do proprietário no seu interior. Ninguém quer extraviar um livro. Preferimos perder um anel, um relógio, o chapéu-de-chuva, do que o livro cujas páginas não mais leremos mas que conservam, na sonoridade do seu título, uma antiga e talvez perdida emoção.»
[Carlos María Domínguez, A Casa de Papel; trad. Henrique Tavares e Castro, ASA, (2.ª ed.) Maio 2010; ufff...]

Desviado daqui.

terça-feira, janeiro 4

Alguma delicadeza

A mulher é certamente um elemento humano fora do comum: as casas só não envelhecem porque ela existe. Um cuidado feminino suporta a construção (como o cimento). Uma casa só não cai, se dentro dela existir alguma delicadeza.
Gonçalo M. Tavares in Uma Viagem à Índia

sexta-feira, dezembro 24

Honrarei o Natal...


«Honrarei o Natal no meu coração e tentarei mantê-lo durante todo o ano»
Charles Dickens
[Feliz Natal estimados visitantes! Desculpem a minha ausência...]

domingo, dezembro 19

Pilar, José e o Amor

Onde se prova que as pessoas podem ser felizes para sempre.
O estereótipo de há cinquenta anos rezava: «casaram e foram felizes para sempre». O estereótipo contemporâneo preconiza: «casamento, pantufas, aborrecimento». Um estereótipo não é melhor, nem mais inteligente, do que o outro – a ideia de que os casamentos estão condenados ao tédio só parece mais brilhante do que aquela que toma a felicidade como um dado adquirido porque o pessimismo dá sempre uns fumos de ilustração aos seus praticantes: quem futura em negativo passa facilmente por lustroso cérebro porque há sempre um desastre ao virar da esquina – e muito mais mirones para o desastre do que para a alegria. As relações nascem muitas vezes mortas por falta de fé – falta-nos amor por esse amor que é como uma espécie de terceira entidade gerada pela atracção entre dois seres, e que precisa de ser estimado como milagre concreto.

As pessoas casam-se trocando juras de amor já com os códigos do divórcio e das partilhas debaixo do braço. Ou casam-se ainda no mito da paixão inexpugnável, e depois deixam-se pasmar atarantadas diante dos cacos da paixão misturados com as peúgas de anteontem. Ou casam-se por interesse, isto é: escolhendo, como no supermercado, o pedaço de homem ou mulher que mais garantias dá de criar bem os filhos e de fazer uma boa dupla sócio-económica. Os casamentos «arranjados» desapareceram da civilização ocidental mas são frequentemente substituídos pelos casamentos de conveniência – versão ainda mais triste, porque sonsa, feita de faqueiros e fancaria, dos explícitos arranjos familiares e comerciais de outrora. Ganhámos medo do amor, e o medo amarfanha. A literatura lançou um estereótipo avassalador: o de que o amor só pode ser chamejante em estado de clandestinidade. A experiência das ditaduras, mais ou menos universal, criou um modelo infantil de relação: o do grupo de resistentes bonzinhos que agem pela calada contra a sociedade dos maus. É dessa matéria que são feitos os livros da Enid Blyton e os sonhos da adolescência. A associação absoluta entre o prazer e a clandestinidade mata as alegrias da vida adulta.

O belíssimo filme de Miguel Gonçalves Mendes, «José e Pilar», demonstra que as coisas não têm de ser assim: o amor pode ser público e oficial ( é difícil imaginar uma relação mais pública e oficial do que esta, assumida em duas cerimónias de casamento) e permanecer íntimo, faiscante, vivo. A história do início da relação entre Pilar e José é apenas aflorada por José, para esclarecer que Pilar nunca, ao contrário do que se disse, o entrevistou: telefonou-lhe dizendo que era jornalista, leitora e admiradora sua, e que queria conhecê-lo. José acrescenta que mal a viu chegar percebeu que aquilo era sério. Este abalo imediato e definitivo está descrito de um modo sublime no romance «História do Cerco de Lisboa» – mas isso já não consta do filme. Porque a singularidade deste filme está em começar anos depois do beijo fulgurante que sinaliza a união do par, para nos dar a ver exactamente isso em que nos custa tanto a acreditar: a vida que um amor pode ter, mais de vinte anos depois de ter começado. Pilar e José são duas personalidades fortíssimas, contrastantes, muitas vezes discordantes. A cena em que discutem por causa de Hillary Clinton ( que Pilar defende e José ataca) é exemplar quanto à vivacidade de cada um deles – e desse amor, que não só resiste a todas as discussões como parece alimentar-se delas. A química intensa que se desenha no ar sempre que eles estão juntos – um olhar, uma carícia, um abraço, o corpo de um procurando continuamente o corpo do outro – constitui a pedra de toque deste documentário, de uma imensa delicadeza. «Pilar e José» não é sobre a vida de uma vedeta da literatura ( embora a contenha, inevitavelmente) – é sobre a relação de amor entre duas pessoas particularmente expostas.

José dirá, a dado momento, que se pudesse voltar a viver a sua vida, repeti-la-ia toda, exactamente como foi. Parece estranha, esta afirmação, por parte do mesmo homem que diz: «Se eu tivesse morrido aos 63 anos, antes de conhecer a Pilar, morreria muito mais velho do que aquilo que sou». Na dedicatória das suas memórias de infância ( « As Pequenas Memórias»), José escreveu: «A Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar». Então, porque não diz José que, numa segunda vida, preferiria conhecer Pilar vinte anos mais cedo? Provavelmente, porque vinte anos antes não saberiam fazer durar o amor. Aprende-se a amar

(como a correr ou a desenhar) caindo, falhando, errando muitas e muitas vezes. Até ao momento em que ficamos prontos para ser felizes para sempre. Há é pouca gente para dar por isso.

Inês Pedrosa

[crónica publicada no Expresso]
imagem: Rui Duarte Silva

sábado, dezembro 18

o rio e o coração, o que os une?

Como ele sempre dissera:o rio e o coração, o que os une? O rio nunca está feito, como não está o coração. Ambos são sempre nascentes, sempre nascendo. Ou como eu hoje escrevo: milagre é o rio não findar mais. Milagre é o coração começar sempre no peito de outra vida.
Mia Couto in A chuva Pasmada

imagem: Ansel Easton Adams

terça-feira, dezembro 14

Eu vou


Finais de Janeiro de 1994
eu vou.
Este eu vou é como o cabeçalho de uma carta.

Eu vou,
o meu mundo «moderno» é perturbante. Só no fim do texto eu o deveria dizer, mas o fim do texto é imprevisível - estaca subitamente. Fica dito.
Levantei-me, pois, com dificuldade, sentindo na mão uma renda, mas pesada como uma salva de prata; choveu torrencialmente durante a noite, ventou, estou ao pé da letra, mergulhada dentro da água com imagens que passam rapidamente - releio Causa Amante, e admiro.me com a sua perenidade, estou-lhe grata por me ter tirado da cama, me acompanhar no banho e ter um som que me leva para outro lugar. Parece-me que Herbais está agora em toda a parte da casa, e que um poço profundo habita Sintra. Trago meias curtas muitas vezes, este inverno. Mal cobrem os tornozelos. É sendo criança nos pés que entro no meu mundo «moderno».

O território desta casa, hoje, dia de chuva,
estremece

como uma chávena nas mãos de Deus. Apesar de frágil, acho-o belo. Faz parte da minha sobrevivência actual, é o caderno guardado onde escrevo os meus pensamentos antes de ir à vida da rua, fazer as comparas do dia, tomar um café de máquina
e ouvir
outro cliente

dizer que é sensual e sublime. Ele refere-se à música e o que diz faz parte de um diálogo que se joga para cá e para lá do balcão - a propósito de um nome, o de quem serve - , e para quem eu olho com certa surpresa por deparar com um rosto de mulher que dá parte de inocente.

«Tudo isto se passa à maneira de Verlaine», segreda-me a árvore genealógica da minha sensibilidade e sabores. Não é que eu oiça, entretida a saborear o meu café; é o que me segreda o passo cadenciado da parelha de cavalos que estaca, abrupta, em frente do «bistrot». Dizem-me ainda, cobrindo o diálogo de sedução que se passa ao lado, ao ritmo da música, ao ritmo da música de Elvis « as metáforas dos cavalos sobre o texto não são metáforas. Não é o texto que estaca como nós - tudo estaca subitamente.» Tudo o que há pára de súbito. E, constantemente, recomeça.

Eu vou.

Eu vou pensar a minha vida do exterior. [...]

Maria Gabriela Llansol in Inquérito às Quatro Confidências, pag. 1, Relógio D´Água

segunda-feira, dezembro 13

...tentando conhecer...

[passados 7 anos de ter começado a ler Maria Gabriella Llansol, conheci-a e falei com ela. Foi uma tarde inesquecível. e esta é uma das dedicatórias mais lindas que tenho num dos seus livros. porque foi verdade. nesse «dia de um de Março, dia em que nos emocionamos, tentando conhecer»]

Há duas horas que fugia ao sol...


«Há duas horas que fugia ao sol, pela estrada calva de caniços, de árvores, de pássaros e de borboletas. Apenas via moscas que pareciam imobilizadas em frente do seu nariz pela gelatina do calor e a lastimosa tira alcatroada a fluir no horizonte, a grande distância do início e a grande distância do fim. Atormentava-o a comichão nos pés descalços, produzida por uma amálgama de poeira e de suor sobre o eczema ténue. Raspava-os no solo mas o atrito tornava o calor insuportável e sentia os pés, como as costas, chapeados de lume. Olhou em redor à procura de sombra, ainda que curta e linear, para ao menos beber a sua água. Adiante, no cotovelo fincado na estrada, uma pedra alta esvaziara-se num nicho pouco profundo e Simão introduzira-se na concavidade, raso de luz. Sentou-se em breve, com as pernas abertas e as mãos a agarrarem cada pé, numa inquietude sonolenta de Buda. Via a tarde poluir-se, concentrada num sol espesso (engrossado pelos raios de luz que a ele se haviam recolhido) e com limites.»
(…)
Os pregos na erva, Maria Gabriela Llansol (Ed. Rolim)


[desviado daqui.
este foi o livro que que me abriu portas à escrita de Maria Gabriela Llansol]

sábado, dezembro 4

...um nome a acenar-me a acenar-me...

Há pouco, ao transcrever aquela frase do Hemingway, lembrei-me de mim a tropeçar no meu nome quando, depois de ter sido desligado do soro, me passeava no corredor como numa galeria sem história. Evadido do quarto e dos dois vultos de gaiola que saltitavam palavras mudas um para o outro como se fossem sopros de fumo, deslizava por entre portas e paredes duma brancura macia.

Andava por ali, transposto para qualquer Alguém de mim num território satélite sem vida. Ainda que árida, a atmosfera era leve e luminosa e eu transitava pelas pessoas como um longo olhar sem rumo. Um animal a planar dentro de uma redoma de vidro, é como me imagino naquela altura.

Nesse período, já o disse, as palavras que me chegavam vinham cegas. Sombras não havia nem podia haver numa claridade tão absorvente (só hoje

enquanto escrevo

é que me dou conta disso) não havia sombras não podia haver a não ser a do Outro que andava por lá o Outro que afinal não era mais que uma sombra saída de algures de mim e a deslocar-se por si só não se sabe em que direcção nem com que objectivo

uma sombra branca corrida no branco

como foi que desse apagamento consegui reter alguma luzinha a brilhar até agora é coisa que ainda estou para entender mas retive retive mesmo? retive -

- melhor assim.

Verdade, melhor assim.

Paredes mansas, as tais paredes em alvura - pérola; por entre elas, os sons, as figuras e o tempo, tudo num deslizar suave, sem densidade. Eu, em pessoa de coisíssima nenhuma, cumpria as tardes de hospital num vaguear inocente. Mesmo assim, aconteceu saltar-me ao caminho o meu nome. Saltou-me poucas vezes, é certo, três ou quatro se tanto mas era um nome que andava a monte repetido e desfigurado nos ficheiros da terapia da fala

um nome a acenar-me a acenar-me

José José José

numa espécie de provocação à distância José que nome tão feio considerava eu.

«Feio». No vocabulário das trevas brancas o meu qualificativo-chave era esse e provavelmente só utilizado na refutação dos nomes das pessoas. Estava longe de adivinhar que ao voltar um dia à comunidade dos vivos, iria ouvir o mesmo comentário da boca dum herói de Wim Wenders no filme Lisbon Story. O mesmo, sem tirar nem pôr. Com o mesmo sujeito e com a mesma frase, até. Viajante exótico no exótico duma cidade de que desconhecia em absoluto a língua, o passado e o presente (como me acontecera a mim no enquadramento para onde a doença me tinha atirado) o personagem de Wenders pretendia descobrir uma cidade de gente através de sons desabonados de quaisquer referências culturais (sons ausentes da memória, diria eu).

Uma sofisticação ociosa, essa de se querer reduzir a comunicação entre humanos a uma essencialidade tão artificiosamente concebida. Seria, mas Wenders tentou. Deve ter ficado tão encantado com a ideia que não perdeu tempo em enviar um viajante de microfone em punho à cidade de Ulissipo para a descobrir em metáfora num amontoado de palavras sem alma.

Mas aconteceu que ao longo das suas gravações o homem de Wenders deparou com alguém a pronunciar a palavra José. E achou insólito: José? Compreendeu que se tratava de um nome próprio, mas não conseguia mais do que classificá-lo como um articular de sílabas pobres. «Que nome tão feio», comentou de frente para a câmara. Textualmente como eu me tinha comentado a mim próprio no Hospital de Santa Maria. [...]

José Cardoso Pires in De Profundis, Valsa Lenta, pag. 40, Dom Quixote, 1997

terça-feira, novembro 30

Arroz do Céu

Ao longo dos passeios de Nova York, por sobre as estações e galerias do subway, abrem-se grandes respiradouros gradeados por onde cai de tudo: o sol e a chuva, o luar e a neve, luvas, lunetas e botões, papelada. chewing gum, tacões de sapatos de mulheres que ficam entalados, e até dinheiro. Às vezes, lá no fundo, no lixo acumulado ou em poças de água estagnada, brilham moedas de níquel e mesmo de prata. Os garotos ajoelham de nariz colado às grades, tentando lobrigar tesouros na obscuridade donde sopra um hálito húmido e oleoso e o cheiro dos freios queimados. Fazem prodígios de habilidade e obstinação para pescar as moedas perdidas. Alguns têm êxito nisso, mas depois engalfinham‐se em disputas tremendas sobre a posse e a partilha do tesouro: nunca se sabe quem foi que viu primeiro.
Outros, quando a colheita promete, chegam a arriscar nisso algum capital: juntam as posses, e entram dois, é quanto basta, no subway; uma vez lá dentro. trepam sub‐repticiamente aos respiradouros, o que é uma difícil operação de acrobacia, para colher aquele dinheiro‐de‐ ninguém, enquanto um ou mais camaradas vigilantes os vão guiando cá de fora. Também os há que entram sem pagar, por entre as pernas da freguesia e agachando‐se por baixo dos torniquetes.
O limpa‐vias trabalhava há muitos anos no subway, sempre de olhos no chão. Uma toupeira, um rato dos canos. Picava papéis na ponta de um pau com um prego, e metia‐os no saco. Varria milhões de pontas de cigarros, na maioria quase intactos, de fumadores impacientes, raspava das plataformas o chewing gum odioso, limpava as latrinas, espalhava desinfectantes, ajudava a pôr graxa nas calhas, polvilhava as vias de um pó branco e misterioso, e todas as vezes que o camarada da lanterna soltava um apito estrídulo – lá vem o comboio! – ele encolhia‐se contra a parede negra, onde escorriam águas de infiltração, na estreita passagem de serviço. Até já tinha ajudado a recolher pedaços de cadáveres, de gente que se atirava para debaixo dos trens, e a transportar os corpos exangues de velhos que de repente se lembravam de morrer de ataque cardíaco, nas horas de maior ajuntamento, uns e outros perturbando o horário e provocando a curiosidade casual e momentânea dos passageiros apressados. Sempre de olhos no chão, bisonho e calado, como quem nada espera do Alto, e não esperava. A vida dele vinha toda do chão imundo e viscoso. Nem sequer olhava a lívida claridade que resvala dos respiradouros para o negrume interior, onde tremeluzem lâmpadas eléctricas, entre as pilastras inumeráveis daquela floresta subterrânea metalizada: nunca lhos tinham mandado limpar. Eram provavelmente o domínio exclusivo de operários especializados, membros de outro sindicato, que ele não conhecia. Nem talvez soubesse que existiam os respiradouros. Era estrangeiro, imigrante, como tanta gente. não brincara nem vadiara na voragem empolgante das ruas da grande cidade, e vivia perfeitamente resignado à sua obscuridade. Devia aquele emprego a um camarada que era membro dum clube onde mandavam homens de peso, mas ele de política não entendia nada, nem fazia perguntas. Como tinha nascido na Lituânia, ou talvez na Estónia, só falava em monossílabos; e, debaixo da pátina oleosa e negra que o ar do subway nela imprimira com o tempo. a sua face era incolor e a raça indistinta. Antes disso tinha trabalhado em escavações, um «toupeira». Este emprego era muito melhor, embora também fosse subterrâneo. E não tinha que falar o inglês, que mal entendia.
Ora, à esquina de certa rua, no Uptown, há uma igreja, a de São João Baptista e do Santíssimo Sacramento, a todo o comprimento de cuja fachada barroca e cinzenta os respiradouros do subway formam uma longa plataforma de aço arrendado. Os casamentos são frequentes, ali, por ser chique a paróquia e imponente a igreja. O arroz chove às cabazadas em cima dos noivos, à saída da cerimónia, num grande estrago de alegria. Metade dele some‐se logo pelas grelhas dos respiradouros, outra parte fica espalhada nas placas de cimento do passeio. Depois dos casamentos, o sacristão ou porteiro da igreja, de cigarro ao canto da boca, varre o arroz para dentro das grades, por comodidade. Provavelmente é irlandês, o arroz não lhe interessa, nem se ocupa de pombos: pombos é lá com os italianos, que, apesar de se dizerem católicos, são uma espécie de pagãos. O que se derramou no pavimento da rua, lá fica: é com os varredores municipais.
Volta e meia há casório, sobretudo no bom tempo, ou aos domingos. E um desperdício de arroz, não sei donde vem o costume: talvez seja um prenúncio votivo de abundância, ou um símbolo do «crescei e multiplicai‐vos» (como arroz). A gente pára a olhar, e tem vontade de perguntar: «A como está hoje o arroz de primeira cá na freguesia?»
Aquela chuva de grãos atravessa as grades, resvala no plano inclinado do respiradouro, e, se mão adere à sujidade pegajosa ou ao chewing gum (o bairro é pouco dado a mastigar o chicle), ressalta para dentro do subterrâneo, numa estreita passagem de serviço vedada aos passageiros.
A primeira vez que viu aquele arroz derramado no chão, e sentiu os bagos a estalar‐lhe debaixo das botifarras, o limpa‐vias não fez caso; varreu‐os com o resto do lixo para dentro do saco cilíndrico, com um aro na boca. Mas como ia agora por ali com mais frequência, notou que a coisa se repetia. O arroz limpo e polido brilhava como as pérolas de mil colares desfeitos no escuro da galeria. O homem matutou: donde é que viria tanto arroz? Intrigado, ergueu os olhos pela primeira vez para o Alto, e avistou a vaga luz de masmorra que escorria da parede. Mas o respiradouro, se bem me compreendem, obliquava como uma chaminé, e a grade, ela própria, ficava‐lhe invisível do interior. Era dali, com certeza, que caía o arroz, como as moedas, a poeira, a água da chuva e o resto. O limpa‐vias encolheu os ombros, sem entender. Desconhecia os ritos e as elegâncias. No casamento dele não tinha havido arroz de qualidade nenhuma, nem cru, nem doce, nem de galinha.
Até que um dia, depois de olhar em roda, não andasse alguém a espiá‐lo, abaixou‐se, ajuntou os bagos com a mão, num montículo, e encheu com eles um bolso do macaco. Chegado a casa, a mulher cruzou as mãos de assombro: alvo, carolino, de primeira! Dias depois, sempre sozinho, varreu o arroz para dentro de um cartucho que apanhara abandonado num cesto de lixo da estação, e levou‐o para casa. Pobres, aquela fartura de arroz enchia‐lhes a barriga, a ele, à patroa e aos seis ou sete filhos. Ela habituou‐se, e às vezes dizia‐lhe: «Vê lá se hoje há arroz, acabou‐se‐nos o que tínhamos em casa.» Confiada naquele remedeio de vida!
O limpa‐vias nunca perguntou donde é que chovia tanto grão, sobretudo no bom tempo, pelo Verão, e aos domingos, que até parecia uma colheita regular. Embrulhava‐o num jornal ou metia‐o num cartucho, e assim o levava à família. Ignorando que lá em cima era a Igreja de São João Baptista e do Santíssimo Sacramento, e como tal de bom‐tom, não sabia a que atribuir o fenómeno. Pelo lado da raiz, no subway, os palácios, os casebres e os templos não se distinguem.
E foi assim que aquela chuva benéfica, de arroz polido, carolino, de primeira, acabou por lhe dar a noção concreta de uma Providência. O arroz vinha do Céu, como a chuva, a neve, o sol e o raio. Deus, no Alto, pensava no limpa‐vias, tão pobre e calado, e mandava‐lhe aquele maná para encher a barriga aos filhos. Sem ele ter pedido nada. Guardou segredo – é mau contar os prodígios com que a graça divina nos favorece. Resignou‐se a ser o objecto da vontade misericordiosa do Senhor. E começou a rezar‐lhe fervorosamente, à noite, o que nunca fizera: ao lado da mulher. Arroz do Céu...
O Céu do limpa‐vias é a rua que os outros pisam.
José Rodrigues Miguéis in Gente da Terceira Classe

Com lento amor...

Com lento amor olhava os dispersos
Tons da tarde. A ela comprazia
Perder-se na complexa melodia
Ou na curiosa vida dos versos.
Não o rubro elemental mas os cinzentos
Fiaram seu destino delicado,
Feito a discriminar e exercitado
Na vacilação e nos matizes.
Sem se atrever a andar neste perplexo
Labirinto, olhava lá de fora
As formas, o tumulto e a carreira,
Como aquela outra dama do espelho.
Deuses que habitam para lá do rogo
Abandonaram-na a esse tigre, o Fogo.

Jorge Luís Borges

imagem: Francesca Woodman

O poeta...


[escultura em madeira da autoria de Berzé]
O poeta superior diz o que efectivamente sente. O poeta médio diz o que decide sentir. O poeta inferior diz o que julga que deve sentir. Nada disto tem que ver com a sinceridade. Em primeiro lugar, ninguém sabe o que verdadeiramente sente: é possível sentirmos alívio com a morte de alguém querido, e julgar que estamos sentindo pena, porque é isso que se deve sentir nessas ocasiões. A maioria da gente sente convencionalmente, embora com a maior sinceridade humana; o que não sente é com qualquer espécie ou grau de sinceridade intelectual, e essa é que importa no poeta. Tanto assim é que não creio que haja, em toda a já longa história da Poesia, mais que uns quatro ou cinco poetas, que dissessem o que verdadeiramente, e não só efectivamente, sentiam. Há alguns, muito grandes, que nunca o disseram, que foram sempre incapazes de o dizer. Quando muito há, em certos poetas, momentos em que dizem o que sentem.

Aqui e ali o disse Wordsworth. Uma ou duas vezes o disse Coleridge; pois a Rima do Velho Nauta e Kubla Khan são mais sinceros que todo o Milton, direi mesmo que todo o Shakespeare. Há apenas uma reserva com respeito a Shakespeare: é que Shakespeare era essencial e estruturalmente factício; e por isso a sua constante insinceridade chega a ser uma constante sinceridade, de onde a sua grandeza.
Quando um poeta inferior sente, sente sempre por caderno de encargos. Pode ser sincero na emoção: que importa, se o não é na poesia? Há poetas que atiram com o que sentem para o verso; nunca verificaram que o não sentiram. Chora Camões a perda da alma sua gentil; e afinal quem chora é Petrarca. Se Camões tivesse tido a emoção sinceramente sua, teria encontrado uma forma nova, palavras novas — tudo menos o soneto e o verso de dez sílabas. Mas não: usou o soneto em decassílabos como usaria luto na vida.
O meu mestre Caeiro foi o único poeta inteiramente sincero do mundo.

Fernando Pessoa in Ideias Estéticas - Da Literatura


imagem: Fernando Pessoa, da autoria de Berzé [a quem muito agradeço o envio]

segunda-feira, novembro 29

A casa vive. Respira.

"A casa vive. Respira. Ouço-a toda a noite a suspirar. As largas paredes de adobe e madeira estão sempre frescas, mesmo quando, em pleno meio-dia,o sol silencia os pássaros, açoita as árvores, derrete o asfalto. Deslizo ao longo delas como um ácaro na pele do hospedeiro. Sinto, se as abraço, um coração a pulsar. Será o meu. Será o da casa. Pouco importa. Faz-se bem. Transmite-me segurança. A Velha Esperança traz às vezes um dos netos mais pequenos. Transporta-os às costas, bem presos com um pano, segundo o uso secular da terra. Faz assim todo o seu trabalho .Varre o chão, limpa o pó aos livros, cozinha, lava a roupa, passa-a a ferro. O bebé, a cabeça colada às suas costas sente-lhe o coração e o calor, julga-se de novo no útero da mãe, e dorme. Ao entardecer, já o disse, fico na sala de visitas, colado às vidraças, vendo morrer o sol. Depois que a noite cai vagueio pelas diferentes divisões. A sala de visitas comunica com o jardim, estreito e mal tratado, cujo único encanto são duas gloriosos palmeiras imperiais, muito altas, muito altivas, que se erguem uma em cada extremo, vigiando a casa. A sala está ligada à biblioteca. Passa-se desta para o corredor através de um aporta larga. O corredor é um túnel fundo, húmido e escuro, que permite o acesso ao quarto de dormir, à sala de jantar e à cozinha. Esta parte da casa está voltada para o quintal. A luz da manhã afaga as paredes, verde, branda, filtrada pela ramagem alta do abacateiro.
José Eduardo Agualusa in O Vendedor de Passados