sábado, dezembro 4

...um nome a acenar-me a acenar-me...

Há pouco, ao transcrever aquela frase do Hemingway, lembrei-me de mim a tropeçar no meu nome quando, depois de ter sido desligado do soro, me passeava no corredor como numa galeria sem história. Evadido do quarto e dos dois vultos de gaiola que saltitavam palavras mudas um para o outro como se fossem sopros de fumo, deslizava por entre portas e paredes duma brancura macia.

Andava por ali, transposto para qualquer Alguém de mim num território satélite sem vida. Ainda que árida, a atmosfera era leve e luminosa e eu transitava pelas pessoas como um longo olhar sem rumo. Um animal a planar dentro de uma redoma de vidro, é como me imagino naquela altura.

Nesse período, já o disse, as palavras que me chegavam vinham cegas. Sombras não havia nem podia haver numa claridade tão absorvente (só hoje

enquanto escrevo

é que me dou conta disso) não havia sombras não podia haver a não ser a do Outro que andava por lá o Outro que afinal não era mais que uma sombra saída de algures de mim e a deslocar-se por si só não se sabe em que direcção nem com que objectivo

uma sombra branca corrida no branco

como foi que desse apagamento consegui reter alguma luzinha a brilhar até agora é coisa que ainda estou para entender mas retive retive mesmo? retive -

- melhor assim.

Verdade, melhor assim.

Paredes mansas, as tais paredes em alvura - pérola; por entre elas, os sons, as figuras e o tempo, tudo num deslizar suave, sem densidade. Eu, em pessoa de coisíssima nenhuma, cumpria as tardes de hospital num vaguear inocente. Mesmo assim, aconteceu saltar-me ao caminho o meu nome. Saltou-me poucas vezes, é certo, três ou quatro se tanto mas era um nome que andava a monte repetido e desfigurado nos ficheiros da terapia da fala

um nome a acenar-me a acenar-me

José José José

numa espécie de provocação à distância José que nome tão feio considerava eu.

«Feio». No vocabulário das trevas brancas o meu qualificativo-chave era esse e provavelmente só utilizado na refutação dos nomes das pessoas. Estava longe de adivinhar que ao voltar um dia à comunidade dos vivos, iria ouvir o mesmo comentário da boca dum herói de Wim Wenders no filme Lisbon Story. O mesmo, sem tirar nem pôr. Com o mesmo sujeito e com a mesma frase, até. Viajante exótico no exótico duma cidade de que desconhecia em absoluto a língua, o passado e o presente (como me acontecera a mim no enquadramento para onde a doença me tinha atirado) o personagem de Wenders pretendia descobrir uma cidade de gente através de sons desabonados de quaisquer referências culturais (sons ausentes da memória, diria eu).

Uma sofisticação ociosa, essa de se querer reduzir a comunicação entre humanos a uma essencialidade tão artificiosamente concebida. Seria, mas Wenders tentou. Deve ter ficado tão encantado com a ideia que não perdeu tempo em enviar um viajante de microfone em punho à cidade de Ulissipo para a descobrir em metáfora num amontoado de palavras sem alma.

Mas aconteceu que ao longo das suas gravações o homem de Wenders deparou com alguém a pronunciar a palavra José. E achou insólito: José? Compreendeu que se tratava de um nome próprio, mas não conseguia mais do que classificá-lo como um articular de sílabas pobres. «Que nome tão feio», comentou de frente para a câmara. Textualmente como eu me tinha comentado a mim próprio no Hospital de Santa Maria. [...]

José Cardoso Pires in De Profundis, Valsa Lenta, pag. 40, Dom Quixote, 1997

4 Comments:

MCS said...

Este livro é de 1997?! chiça! Já o li há 11 anos!?
Este livro é maravilhoso.

MCS said...

11 anos!! já pareço o ministro das finanças a fazer contas...

Marta said...

Marco :) mais uns tantinhos!

eu tb o li nessa altura. e gosto tudo. e o prefácio, comovente...

Anónimo said...

Eu também li e adorei!
Cris