quarta-feira, dezembro 1

Não partas já. Fica até onde a noite se dobra


Não partas já. Fica até onde a noite se dobra
para o lado da cama e o silêncio recorta
as margens do tempo. É aí que os livros
começam devagar e as cores nos cegam
e as mãos fazem de norte na viagem. Parte apenas
quando amanhã se ferir nos espelhos do quarto
em estilhaços de luz; e um feixe de poeiras
rasgar as janelas como uma ave desabrida.
Alguém murmurará então o teu nome, vagamente,
como a gastar os dedos na derradeira página.
E então, sim, parte, para que outra história se
invente mais tarde, quando os pássaros gritarem
à primeira lua e os gatos se deitarem sobre
o muro, de olhos acesos, fingindo que perguntam.

Maria do Rosário Pedreira

2 Comments:

João Menéres said...

Não estou a pensar partir...
Só estou um bocadinho ausente...
Não sabia que os grifos sofressem dos mesmos males que os homens...

Um beijo,

Terráqueo said...

Lindo, Belíssimo poema. Bjs.