sexta-feira, dezembro 3

Snu [e Francisco Sá Carneiro]


[...] Snu era proprietária e geria a Editorial D. Quixote, uma editora marcante, nos anos 60 e 70, na busca de espaços de liberdade num ambiente de censura editorial. A D. Quixote não fugia a publicar autores de esquerda, pensadores marxistas, obras sobre a realidade nacional, volumes de autores portugueses e estrangeiros mal aceites ou mesmo vetados pelo salazarismo. [...] Uma vez me lembro que por causa dela irrompeu aceso debate entre jovens: a D. Quixote difundira um discurso de Fidel Castro numa versão que não era integral, faltavam passagens, o texto não correspondia ao divulgado pelo Gramma, órgão oficial do Partido Comunista Cubano. Choveram as acusações e as insinuações de favor feito à CIA, de jogada pró-americana, de manipulação imperialista. Snu, com a capacidade de liderar os acontecimentos e a serenidade que sempre apresentava, de imediato reparou o lapso, pedindo desculpa por ele, editando a versão fidedigna e desarmando as teses conspiratórias as mais sofisticadas, com o profissionalismo e o rigor respeitado por todos os que consigo privavam [...] Enfim. É um mundo de recordações localizadas entre 1976 e 1979, antes, portanto, de Snu aparecer na ribalta da política, ao lado do primeiro-ministro de Portugal. E uma pergunta quase inevitável que ocorre, a esse propósito, é a da importância efectiva do seu papel na carreira do Chefe de Governo de centro-direita após o 25 de Abril de 1974.
Para sermos verdadeiros, teremos de reconhecer que o percurso político de Francisco Sá Carneiro se deve,acima de tudo, a ele próprio, às suas qualidades, à sua capacidade de mandar, de intuir, de mobilizar, de concretizar. E, muito, de persistir.
Como teremos, ainda, de admirar a influência inquestionável dos que o apoiaram, influenciaram, secundaram, estiveram firmes em torno de si em instantes muito difíceis da sua vida, política e pessoal. E, de entre esses, avulta, impressiva Isabel, antes e durante, por exemplo, aquele terrível ano de 1975.
Mas é também a verdade que nos obriga a testemunhar como Snu foi essencial entre 1976 e 1980. Pela compreensão, complementariedade, abertura de perspectivas, pertinácia, inteligência e partilha de alegrias e provações, determinação de liderança, legítima ambição de deixar traço na História. E até pelo estímulo e o acicate da própria afirmação perante a mulher descoberta e amada. Porque conhecer e amar Snu foi, de facto, um desafio galvanizante para o indomável líder do centro e da direita portuguesa.
Descontando o halo mítico que a trágica morte adensou - e que a própria mãe não consegue entender - , sempre permanece, soberana, a personalidade invulgar daquela nórdica que suscitou grandes controvérsias nesses latinos de velha cepa, coração grande e maldicência afiada que são os portugueses. Vale a pena repeti-lo. Uma mulher só, mesmo no meio de multidões.
Uma mulher que era uma grande senhora pela educação, pelo porte e pelo modo de encarar o mundo. Uma grande senhora que,podendo ter, em diversas circunstâncias, caminhos fáceis para trilhar, preferiu, tantas vezes, as sendas mais ingratas, os trilhos mais penosos, os rumos mais arriscados. E, nessa aposta, foi notável.
Racional, atenta, dissecante das situações e das pessoas, e, ao mesmo tempo, com um fundo tão melacolicamente afectivo e sensível. Para não dizer inseguro.
Talvez tenha sido mesmo esse traço melancólico que a identificou com os portugueses, dados, desde a origem à «menencronia» de que falava El-Rei D. Duarte. Embora os últimos sem a preocupação de rigor, de disciplina, de eficiência que, mais depressa, povoa as terras do Norte da Europa. [...]
Três sentimentos sobressaem ao ler este depoimento singular. O primeiro é o de amor maternal. Neste tempo de grandes choques culturais, faz bem ler o retrato que uma mãe faz de sua filha. Naturalmente assinalado pela emoção do momento vivido, e pela convergência de tantas memórias e cumplicidades, mas sobretudo prova de que - como diz o nosso povo - não há amor como o de mãe. Está nele tudo o que de mais intenso e completo pode existir no afecto entre pessoas. O segundo sentimento que nos impressiona é o da coragem lúcida. Porque, apesar de tudo, foi preciso ter coragem para dizer em voz alta aquele amor, que a maior parte gosta de guardar para si nos instantes supremos de dor. [...] Há como que uma irremovível sensação de injustiça nesta inversão de gerações que se traduz em os filhos partirem antes dos pais. Perante essa injustiça, contar, em voz alta, o desgosto da partida e a dimensão da ausência sentida exige coragem, a coragem de afirmar. E a coragem lúcida, serena, perscrutante. O terceiro sentimento que não pode deixar de nos tocar é o da admiração, agora não por Snu, mas por uma mãe. [...]
Achamos que o importante foi determinado evento ou certa pessoa. E só anos largos volvidos descobrimos que há passagens breves, contactos fugazes, testemunhos pontuais que marcaram de modo mais profundo e duradouro o que somos e como vivemos. Foi assim com Snu. Como foi assim com Francisco Sá Carneiro. À medida que o tempo corre, e que as décadas vão permitindo a perspectiva da sua memória, vamos entendendo melhor o que significaram e o que lhe devemos. E, nessa medida, o depoimento de uma mãe, escrito em 1986, não é mais, como o seria se editado naquela altura em Portugal, um refrigério para amigos ou companheiros de caminhadas pessoais ou políticas. Hoje, Snu, tal como Francisco Sá Carneiro, é, cada qual à sua maneira, património de todos nós. O que não sei bem se lhe agradaria a ela como ideia. E, certamente, estava longe de passar pelo pensamento de Jytte Bonnier, quando, em Estocolmo, já lá vão mais de 15 anos, escreveu sobre a sua filha, morta, em Lisboa, em 4 de Dezembro de 1980.
Marcelo Rebelo de Sousa,
in prefácio do livro Snu, Jytte Bonnier, Quetzal Editores, 2003

4 Comments:

João Menéres said...

Não sabia deste livro.
Agradeço-te, MARTA, teres revelado a tantos de nós o prefácio do MRS.

Conheci o Chico ainda ele namorava a Isabel.
Durante um ano, almoçávamos juntos ao Sábado, no Reis (ao Anjo), em Lisboa.
Ele e o Ricardo estavama terminar o curso de Direito e eu a fazer o estágio em Barragens no LNEC.
Nunca conheci a Snu.
Nunca tive, no entanto, qualquer engulho com essa relação.
Ainda há pouco tempo (duas semanas, acho), fui ao Serão de Bonjóia, onde o Director da Sábado, fez uma apresentação do seu livro sobre o FSC.
A Snu foi naturalmente mencionada.
Na 1ª fila estava a Isabel.
Um SERÃO muito enriquecedor, presidido pelo
Rui Rio e com uma assistência primava pelos NOTÁVEIS presentes.(Entre eles o Pires Veloso).

Um beijo a agradecer esta pertinente e importante postagem.

Carla Farinazzi said...

Oi, Marta

Essa mulher dever ter sido incrível. E a mãe mais ainda. Fiquei com uma vontade enorme de ler este livro, mas dei uma pesquisada nos sites que conheço e não encontrei. Acho que não está à venda por aqui. E para comprar no site indicado, o ArmazémL, a taxa de entrega para o Brasil é mais cara que o livro.
Mas valeu pela dica, vou anotar aqui, quem sabe um dia?
Me interessei muito pela história dessa mulher, Snu. E tenho uma preferência especial por biografias.

Beijos

Carla

fallorca said...

O doutor Mário Soares deve ficar com as orelhas a arder cada vez que o sacodem com o «espectro» de Snu!

Anónimo said...

"Uma mulher que era uma grande senhora pela educação, pelo porte e pelo modo de encarar o mundo."
São raras, mas existem.xxx