sexta-feira, dezembro 10

O escritor de notas à margem


[...] Ler bem é entrar numa reciprocidade de resposta com o livro que está a ser lido; é participar numa permuta total («perfeito para o comércio», diz Geoffrey Hill). A dupla condensação da luz na página e na face do leitor representa a percepção de Chardin do facto fundamental: ler bem é sermos lidos por aquilo que lemos. A palavra obsoleta responsion, que significa, como ainda acontece em Oxford, o processo de interrogatório e resposta dos exames, pode ser usada para resumir as várias e complicadas fases de leitura activa que estão intimamente associadas à pena.

A pena é usada para escrever notas à margem. As notas à margem são os sinais imediatos da resposta do leitor ao texto, do diálogo entre ele e o livro. São os transmissores activos da corrente de linguagem interior - laudatória, irónica, negativa, aumentativa - que acompanha o processo de leitura. As notas à margem podem, em extensão e densidade de organização,competir com o próprio texto, enchendo por completo, não apenas a margem em si, mas também o topo e o fundo da página e os espaços interlineares. Nas nossas grandes bibliotecas há contrabibliotecas constituídas pelas notas à margem e notas à margem de outras notas à margem, que gerações sucessivas de verdadeiros leitores estenografaram, codificaram, garatujaram ou escreveram com elaborados floreados ao lado,em cima, em baixo e entre as horizontais do texto impresso. Muitas vezes, as notas à margem são os pontos de articulação de uma doutrina estética e de uma história intelectual (vejam-se as notas de Racine na sua cópia de Eurípedes). Na realidade, elas podem representar um acto importante de autoria, como sucede com as notas à margem de Coleridge, que serão publicadas brevemente.

Também podem aparecer anotações na margem, mas são de natureza diferente. As notas à margem pretendem estabelecer um discurso impulsivo, talvez mesmo de protesto, ou uma controvérsia com o texto. As anotações, muitas vezes numeradas,tenderão para ser de carácter mais formal e cooperante. Serão feitas, sempre que possível, ao fundo da página. Esclarecerão um ou outro ponto do texto; citarão fontes análogas ou subsequentes. O escritor de notas à margem é, de modo incipiente, o rival do texto; o anotador é o seu serviçal.

Esse serviço encontra a sua expressão mais exacta e necessária no uso da pena do leitor para corrigir e emendar. Aquele que passa por cima de erros de impressão sem os corrigir não é meramente um filisteu: é um perjuro do espírito e do sentido. Pode muito bem ser que numa cultura laica a melhor maneira de definir uma condição de graça seja dizendo que é aquela em que não se deixam por corrigir nem os erros literais nem os substanciais nos textos que se lêem e se transmitem aos vindouros. Se Deus, como Aby Warburg afirmou, «está no pormenor», a honestidade está na correcção dos erros de impressão. A emenda, a reconstituição epigráfica, prosódica ou estilística de um texto válido, em vez de um texto espúrio, é uma arte infinitamente mais esforçada. [...]

George Steiner in Paixão Intacta, pag. 20/21, Relógio D´Água, 1996

2 Comments:

fallorca said...

Posso gamar um lápis? Muito obrigado, fiufiu...

Marta said...

...só um e mais nada :) para uma notinhas à margem!