segunda-feira, dezembro 13

Há duas horas que fugia ao sol...


«Há duas horas que fugia ao sol, pela estrada calva de caniços, de árvores, de pássaros e de borboletas. Apenas via moscas que pareciam imobilizadas em frente do seu nariz pela gelatina do calor e a lastimosa tira alcatroada a fluir no horizonte, a grande distância do início e a grande distância do fim. Atormentava-o a comichão nos pés descalços, produzida por uma amálgama de poeira e de suor sobre o eczema ténue. Raspava-os no solo mas o atrito tornava o calor insuportável e sentia os pés, como as costas, chapeados de lume. Olhou em redor à procura de sombra, ainda que curta e linear, para ao menos beber a sua água. Adiante, no cotovelo fincado na estrada, uma pedra alta esvaziara-se num nicho pouco profundo e Simão introduzira-se na concavidade, raso de luz. Sentou-se em breve, com as pernas abertas e as mãos a agarrarem cada pé, numa inquietude sonolenta de Buda. Via a tarde poluir-se, concentrada num sol espesso (engrossado pelos raios de luz que a ele se haviam recolhido) e com limites.»
(…)
Os pregos na erva, Maria Gabriela Llansol (Ed. Rolim)


[desviado daqui.
este foi o livro que que me abriu portas à escrita de Maria Gabriela Llansol]

2 Comments:

fallorca said...

;)

Claudia Sousa Dias said...

Muito bom este excerto.


Dela já li "Contos do mal errante" onde coloca a nossa Rainha Santa Isabel a ter um romance clandestino com o astrónomo Copérnico...!


Adorei

:-)

CSD