terça-feira, dezembro 7

O sorriso da Nina


Se eu conseguisse traduzir os silêncios que me habitam seria mais feliz. Pelo simples facto de não haver equívocos no dizer o que sinto. Ou melhor, no revelar o que não sei dizer, mas sinto. Às vezes, fico muito quieta e distante a parecer que não estou ali, onde estou. E é verdade, não estou. Se estou sozinha, não faz mal nenhum. Porque mesmo conhecendo-me pouco, sei que é inócuo. Se estou acompanhada, recomendo que me segurem na mão, como a um fio de um balão que, no momento, não queremos que voe. A diferença, é que eu voo para dentro e, cá dentro, há mais do que um céu.
Se eu conseguisse traduzir os silêncios que me habitam, o sorriso da Nina seria das primeira traduções a fazer. Não sei se o sorriso, se a serenidade. Ou a sabedoria que está em ambos. É muito difícil separar. Às vezes estou quieta e o sorriso da Nina chega-me muito lento, de muito longe, muito bom. E, depois, por uma ordem sempre diferente, traz uma lareira e um quebra-nozes; uma toalha branca, de renda, chávenas de lacinho cor-de-rosa e bolo das rosas. Outras vezes, traz um telefonema, a perguntar como me correu o exame; ou a perguntar por um livro; ou a perguntar como estou. Outras vezes, traz uma banca branca de mármore, especiarias, receitas manuscritas, barcos do Gerês. E, ainda, os sinos da pequena capela, mimosas e pêssegos do mercado pequenino que já não existe. O sorriso da Nina levanta paredes altas e brancas onde a vida se escreve com determinação. E coragem. Alonga ruas estreitas, com histórias que jamais esquecerei e que jamais chegarão ao fim. Sei-o agora.
Bem sei que é só um sorriso. Mas é como uma baía, protege naturalmente. Uma espécie de reentrância na geologia dos afectos. E podemos ficar ali, atracados, à espera que a tempestade passe. E, no entanto, é só um sorriso, bem sei. Só que é o sorriso da Nina.
Outras vezes, o sorriso da Nina traz-me outros sorrisos e outras mãos e bordados de ponto de cruz. Traz-me o São Gonçalo, sempre depois dos Reis, e o olhar mais terno dos meus 20 anos. Traz-me – sempre – uma plateia, um palco e a voz da Maria do Céu Guerra. Uma tela, branca, de cinema e papeis coloridos de Natal. Amor filial em estado puro; um saber viver exemplar.
Não sei se algum dia conseguirei traduzir o sorriso da Nina em caracteres, mesmo que numa versão livre dos meus silêncios. Agora, importa que o tenho. É meu para sempre.

[para a Nina com amor e admiração, no dia dos seus extraordinários 76 anos. marta]

4 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

gostava de conhecer o sorriso da Nina...


csd

Anónimo said...

:)
Pois não sei que dizer...
!!!!!!!

Anónimo said...

Eu sei Marta, o que te dizer: está lindo, lindo, lindo este texto.
bjos e parabéns a quem tem assim um sorriso.
Cris

Isabel said...

Marta, tão bonito! Quem bem falaste do sorriso da minha tia! Que orgulho! Parabéns! Continua a escrever que escreves tão bem! Beijinho Blu