quarta-feira, dezembro 15

O presépio da nossa imaginação


[...] Os Evangelhos sinópticos não possuem a maior parte das coisas que esperamos encontrar, hoje, na história de vida de alguém. O aspecto, a personalidade, o carácter - sabemos pouquíssimo acerca disso. No que diz respeito a outras figuras que rodeiam Jesus, estamos completamente às escuras. A Pilatos, curiosamente, Mateus e João atribuem alguns traços de personalidade e de carácter, mas a maioria de outras figuras são muito insípidas. Ficamos a saber que Pedro era um pouco insonso. Como era João? E Tiago? Não sabemos. E os fariseus? Aparecem em grupo, insultam Jesus, por vezes, são insultados e voltam a desaparecer. O que pretendiam? Tinham todos a mesma posição hostil em relação a Jesus? Para onde foram quando desapareceram? Se pensavam que os discípulos de Jesus estavam a violar a lei do sábado (Mc 2, 24), porque não apresentaram uma queixa, denunciando-os a um sacerdote (que os poderia ter multado, exigindo que cada um deles apresentasse um sacrifício expiatório - duas aves - quando voltasse a Jerusalém)?

Muitos dos leitores actuais nem sequer se apercebem de como os Evangelhos sinópticos são episódicos, já que os cristãos tiveram quase 2000 anos para criar uma visão mais novelesca dos acontecimentos e das pessoas que aparecem neles. Escreveram-se livros, fizeram-se filmes, ofereceram-se explicações. Aos domingos há muitos padres, pastores e catequistas que voltam a contar algum aspecto do relato evangélico, acrescentando-lhe personalidade e motivos. Judas, o discípulo que traiu Jesus, é descrito frequentemente como um zelota desiludido, que desejava ver Judas na liderança de uma revolução, que se via a si próprio como um grande homem no Reino de Jesus e que ficou profundamente irado quando percebeu que Jesus queria outro tipo de reino*. Isto dá cor e drama à história. Os Evangelhos não dizem absolutamente nada sobre a ambição de Judas. Talvez ele se tenha apercebido de que Jesus era um homem marcado e tenha decidido afastar-se enquanto era tempo, ganhando também alguma coisa. Uma suposição é tão boa como a outra. Maria Madalena também é uma figura imensamente atraente para as pessoas, que imaginaram todo o tipo de coisas sobre ela: ela teria sido uma prostituta, muito bonita, apaixonada por Jesus, e que fugiu para França à espera de um filho dele. Tanto quanto sabemos, a partir das nossas fontes, ela tinha oitenta e seis anos, não tinha filhos e cultivava instintos maternos para com jovens desalinhados.

Os cristãos começaram desde muito cedo a melhorar os relatos simples dos Evangelhos inventando histórias. Os Evangelhos apócrifos estão cheios de incidentes românticos e de toques encantadores, como, por exemplo, aquele que diz que, no estábulo onde nasceu Jesus, havia um boi e um burro, adorando-o. Isto encontra-se num Evangelho escrito no século VIII ou IX, conhecido actualmente como o Evangelho de Pseudo-Mateus. O autor tinha estudado o Evangelho de Mateus e escreveu no mesmo estilo. Como prova para a autenticidade do seu relato, cita a escritura Judaica, quando, na realidade, a sua informação tem origem na citação, tal como acontece com Mateus: «O boi conhece o seu dono, e o jumento, o estábulo do seu senhor...» (Is 1,3). A arte e a música utilizaram esta imagem viva, que é, provavelmente, tão conhecida como as histórias sobre Jesus que se encontram, de facto, no Novo Testamento. A única justificação para introduzir um boi e um burro na cena do nascimento é proporcionada por este evangelho, cujo autor descobriu uma frase em Isaías que ainda não tinha sido usada para fornecer informações sobre Jesus.

Tanta fantasia romântica foi desperdiçada nos Evangelhos durante tantos séculos que o leitor actual nem sequer se apercebe imediatamente da sua força. Acrescentamos automaticamente pormenores românticos, muitos dos quais são conhecidos até das pessoas que nunca entraram numa igreja, nem leram a Bíblia. À excepção das narrativas do nascimento em Mateus e Lucas, que já estão penetradas pelo interesse novelístico, não encontramos muito mais no resto dos evangelhos. As cenas são breves e centradas no essencial. Isto significa, provavelmente, que foram concebidas precisamente para transmitir o que pretendiam, tendo deixado de lado outras questões. É por isso que não podemos escrever uma biografia de Jesus. Não temos cartas nas quais ele reflicta sobre acontecimentos e apresente a sua própria versão a um amigo próximo ou a um familiar;não temos diários escritos por pessoas que o tivessem conhecido ou, sequer, ouvido falar nele; não temos jornais que nos digam o que se passava em Cafarnaum no ano 29 e.c. Dispomos de um esboço genérico da sua vida e, além disso de breves histórias, ditos e parábolas, a partir das quais podemos ficar a saber bastante, mas não podemos escrever «a vida de Jesus», no sentido moderno do termo; não podemos descrever a educação de Jesus, traçar o seu percurso, analisar a influência dos seus pais sobre ele,apresentar as suas reacções a determinados acontecimentos, etc.

Por isso, um livro sobre Jesus não pode ser muito semelhante a um livro sobre Jefferson ou Churchill (para regressar aos nossos primeiros exemplos). A nossa informação também é deficiente em comparação com o material disponível sobre a maior parte dos grandes homens do mundo greco-romano. Homens como Brutus, César, Pompeu, António e outros, eram provenientes de famílias conhecidas, passaram uma grande parte das suas vidas em público e rodearam-se de pessoas instruídas, que escreveram, por vezes, sobre eles ou sobre os acontecimentos nos quais participaram. Plutarco, o biógrafo dos ricos e famosos daquele tempo, em alguns casos, podia fazer algo muito parecido com uma biografia no sentido actual do termo, embora nem sempre tivesse essa possibilidade. [...] Sou académico, um investigador e um historiador profissional por tendência e formação. Farei tudo para preencher as lacunas e transformar as peças de que dispomos num todo coerente. Este trabalho (o leitor já deve ter reparado) assemelha-se a uma cirurgia de reconstrução: é necessário partir antes de reconstruir. No entanto, ao contrário do cirurgião, eu não tenho nenhuma imagem inicial sobre o nosso objecto na sua aparência original. Nem tenho uma ideia exacta de qual deveria ser o seu aspecto depois da operação. Começo com os resultados das intervenções da cirurgia plástica que visavam a glorificação do objecto e que nem sempre respeitaram a colocação e o significado originais dos vários pedaços. O meu objectivo é recuperar o Jesus histórico. Mas as dificuldades significarão sempre que os resultados, na melhor das hipóteses, serão parciais. O título adequado para este projecto seria: «Informações básicas sobre Jesus: aspectos importantes do que ele fez, do que ele pensou e daquilo que os outros pensaram sobre ele». [...]

E. P. Sanders, in A Verdadeira História de Jesus, pags. 104/7, Editorial Notícias, 2004
[Eu gosto de História e gosto muito da história das religiões. Li, entre outros, Mircea Eliade quando tinha, em boa hora, de estudar para Antropologia da Religião. E, ainda agora, mesmo sem ter de estudar gosto de o ler. Muito. Em 2004 li, fascinada, numas férias, este, do Sanders. A minha ignorância, ficou atenuada e, a minha fé, mais esclarecida. Mas claro, conhecer é um risco, pode provocar desilusões, arruinar imaginários. E, de certa forma, foi o que aconteceu com o presépio da minha imaginação...a esta passagem que transcrevi... estas peças, da imagem, são da autoria de Francesco Pinton, escultor italiano]

1 Comment:

AB said...

Eu tenho este excelente livro, e também o li por volta de 2004.