quarta-feira, março 16

Às vezes tenho medo, muito medo.


Às vezes tenho medo, muito medo.

Às vezes sofro.

Às vezes, penso nas pessoas que amo e penso na

possibilidade de as perder.

Às vezes vejo alguém doente e fico incomodado.

Pode não ser um amigo ou familiar.

Posso estar a vê-lo pela primeira vez.

Mas fico incomodado.

Aquela doença pertence-me.

Todas as doenças pertencem a toda a gente.

Todos os sofrimentos pertencem a toda a gente.

Todas as mortes pertencem um pouco a toda a gente.

Às vezes sinto isso muito,

outras vezes sinto menos.

Quando sinto menos posso preocupar-me com o mundo,

brincar com a poesia,

com a filosofia e com as palavras.

Mas quando sinto, deixo de conseguir pensar.

Quando sofro ou sinto o que alguém sofre, deixo mesmo

de querer ser inteligente.

Se estivermos cheios a sentir, não temos espaço para pensar.

Não fazem sentido as lógicas,

as filosofias,

as discussões.

Todo o nosso corpo sente.

E o que resta? Nada.

Só existe aquela morte, aquela doença, aquela velhice.

Só aquele pai que amo e está a envelhecer. Só aquela mãe

que amo e está a envelhecer.

Só aquele amigo que morreu num estúpido acidente.

Só aquele amigo que se tornou amargo

porque a mulher o deixou.

Só o amor e a falta de amor.

As mulheres que nos enganam e as mulheres que são enganadas,

as mulheres e os homens que enganam.

Os amigos que deixam de o ser,

alguns inimigos que morrem, e temos pena.

Que importa o resto?

Onde está o livro importante?

O filme que resolve?

Podemos chorar à frente de um quadro, mas não resolve nada.

Podemos pintar um quadro, escrever um poema, mostrar às

mulheres bonitas como somos bonitos, exibir o nosso corpo,

mas que adianta?

Estamos sozinhos.

Se não estamos, vamos estar.

Os amigos vão-nos deixando, vão-nos deixar.

Vão morrer ou nós vamos morrer.

Ou então deixam de nos telefonar, ou então deixamos de

lhes querer telefonar.

Estamos sozinhos. As pessoas que amo vão morrer.

Os livros não resolvem nada. A poesia é bonita e por vezes

descansa, acalma, mas não resolve nada, não resolve nada.

Somos artistas ou não somos, e qualquer coisa que seja não

adianta nada e nada impede.

Escrevemos poemas, mas não ajudam ninguém.

Escrevemos peças de teatro, sorrimos, tentamos pensar,

tentamos ter ideias, tentamos distrair as pessoas, tentamos

fazer pensar as pessoas, tentamos fazer chorar as pessoas, e

isso é bom, e até pode ser bonito, mas não adianta nada,

não resolve nada,

não adianta nada.


Gonçalo M. Tavares in O homem ou é tonto ou é mulher

imagem: Claudia Pinto

5 Comments:

Angélica Lins said...

Texto forte e cheio de simbologia.
Imagem intensa tanto quanto o texto.
Você,encantadora em suas escolhas como sempre!

Beijo

josé luís said...

neste caso, é tonto...
;)
(gosto imenso dele, claro!)

Funes, o memorioso said...

Será que Gonçalo Tavares não se apercebeu que se se tivesse limitado a dizer "O Homem ou é Tonto ou é Mulher", sem dizer absolutamente mais nada, teria dito muito mais do que o que disse?
Será que ele não viu que todo o chato e insignificante arrazoado que expendeu ao longo de não sei quantas linhas (que ele devem imaginar serem versos) serviu apenas para tirar brilho a essa magnífica frase "O Homem ou é Tonto ou é Mulher"?

Funes, o memorioso said...

"deve imaginar", e não "devem imaginar", no meu comentário anterior.

Marta said...

ah Prof. Funes...
veja se consegue, até sexta, pelo menos,
ficar sem
asnear
parvoeirar
doudejar

...

aqui.