segunda-feira, março 14

Café do Molhe


Perguntavas-me

(ou talvez não tenhas sido

tu, mas só a ti

naquele tempo eu ouvia)



porquê a poesia,

e não outra coisa qualquer:

a filosofia, o futebol, alguma mulher?

Eu não sabia



que a resposta estava

numa certa estrofe de

um certo poema de

Frei Luis de Léon que Poe



(acho que era Poe)

conhecia de cor,

em castelhano e tudo.

Porém se o soubesse


de pouco me teria

então servido, ou de nada.

Porque estavas inclinada

de um modo tão perfeito


sobre a mesa

e o meu coração batia

tão infundadamente no teu peito

sob a tua blusa acesa


que tudo o que soubesse não o saberia.

Hoje sei: escrevo

contra aquilo de que me lembro,

essa tarde parada, por exemplo



Manuel António Pina in Ao Porto, Colectânea de Poesia sobre o Porto, pag. 163, Publicações Dom Quixote, 2001

imagem: Edward Hopper

2 Comments:

Sonhos & melodias said...

Marta como é bom passar sempre por aqui e beber dessa literatura linda, maravilhosa e que pouco a pouco, vou conhecendo mais e melhor. Adorei esse texto!
Bjs

continuando assim... said...

um fôlego ..passar por aqui

bj
teresa