domingo, março 6

Os meu blocos estão atafulhados de apontamentos

[...] Os meu blocos estão atafulhados de apontamentos desordenados: lugares, nomes,cheiros, horários, citações, títulos de livros ou autores que não encontrei, direcções, números de telefone para onde não liguei ou liguei e não atenderam, tarefas que me propunha fazer e afinal consistiam no prazer de estrear a quadrícula das folhas em branco.
Raramente começo uma viagem sem um bloco novo. Procuro-os nas pequenas papelarias, preferencialmente de província, onde me anima acreditar que sou esperado por um bloco de folhas imaculadamente pardas, dimensão consentânea com o bolso da camisa, do blusão, sem que a espiral metálica entre em conflito com a lapiseira e o cachimbo.
Essa ronda é apenas um dos muitos subterfúgios a que recorro para ritualizar a viagem da escrita em viagem, pois nada me impede de recorrer aos guardanapos de papel - durante as vagabundagens estáticas - entretendo-me a formar cadernos onde deposito uma escrita deliciosamente indecifrável e aleatória, sem me preocupar que o seu futuro não exceda a utilidade do suporte: o guardanapo, recorde-se.
Por vezes, raras vezes, entretenho-me a arrumar ou consultar esses blocos incompletos e descubro citações de livros, também eles abandonados a meio, que provavelmente anotei na ilusória expectativa de um futuro melhor do que o prazer concedido pelo esquecimento.
O mesmo se passa com a facilidade com que cedo à tentação de comprar livros ou cachimbos, não consentindo que esse impulso mágico seja perturbado pelo pressentimento de que já os possuo. É um facto que fico sempre com menos dinheiro, mas quando compro esse livro ou esse cachimbo - mais frequentemente um livro - não admito que pudores consumistas me algemem o prazer da repetição.
Além do mais, sei que existe sempre alguém a quem o oferecer, ou trocar pelo livro que comprou também animado pelo mesmo incontrolável prazer de o voltar a comprar.

Jorge Fallorca in a cicatriz do ar
imagem: Georges Braque

1 Comment:

Anónimo said...

Gostei!

Até que enfim, tenho-te de volta, minha amiga!