terça-feira, março 8

Foi em Merano...

Foi em Merano, em 1920, que Kafka e Milena começaram a amar-se. As cartas de Kafka que foram conservadas são testemunho da violência deste amor, da sua dimensão trágica. Quando as li, fiquei com o coração a bater, submersa pelas recordações de Milena. Tudo o que possa ser lido, escrito pela caneta deste poeta abençoado pelos deuses, é único, excepcional. Milena era tal como Kafka a via, ela era a amante. O amor era para ela a única coisa verdadeiramente grande da vida. Sentia, sofria tão intensamente, que conseguia abandonar-se totalmente, tanto nos planos moral e físico como no espiritual. Ignorava qualquer pudor vão, e considerava que não era vergonha sentir com intensidade. O amor era para ela qualquer coisa de claro, de evidente. Nunca recorreu a qualquer artifício feminino, fosse ele qual fosse; ignorava o jogo e a sedução. Amante, possuía esse dom raro que consiste em adivinhar os sentimentos do outro; conseguia mesmo, vários dias depois,descrever ao seu companheiro a cadeia de sensações que a haviam atravessado e levado a um determinado instante. «Nada sabemos sobre um ser antes de o termos amado», disse-me um dia. [...]
Mas Milena, tão forte, tão jovem, Milena com a sua «força que dá vida», não estava ligada e unida a Kafka apenas pelo amor físico.

«As mais belas de todas as tuas cartas», escreve-lhe ele, «(e as mais belas é dizer muito, porque elas são, no seu conjunto e em cada uma das suas linhas, o que de mais belo me aconteceu na vida), são aquelas nas quais tu dás razão ao meu "medo", tentando explicar-me porque não devo tê-lo. Porque também eu, mesmo que por vezes pareça seu defensor, provavelmente dou-lhe razão no mais íntimo do meu ser, que digo eu? Ele faz parte da minha substância e talvez seja o que de melhor possuo. E como é o que tenho de melhor, é talvez também a única coisa que tu amas em mim. Que outra coisa poderíamos encontrar para amar tanto na minha pessoa? Mas ele, ele é digno de amor.
«Perguntaste-me uma vez como podia eu chamar "bom" a esse sábado que passei com o coração angustiado; é muito fácil de explicar. Amando-te ( e eu amo-te, tontinha, como o mar ama o mais pequeno dos grãos de areia das suas profundezas; o meu amor não te submerge menos; e pudesse eu ser também para ti, com a permissão dos céus, o que esse grão de areia é para o mar!); amando-te, amo o mundo inteiro; o teu ombro esquerdo incluído; não, foi o direito que foi o primeiro, e esta é a razão porque tu beijo, se me apetece (e se tu tiveres a amabilidade de o libertar um pouco da tua blusa); o teu outro ombro está também incluído, e o teu rosto, sobre o meu na floresta, e o teu rosto sob o meu na floresta, e a minha cabeça que repousa sobre o teu seio quase nu. E é por isso que tens razão ao dizer que só o fizemos uma vez; não é isso que me mete medo, pelo contrário, é a minha única felicidade, o meu único orgulho, e eu não me limito à floresta. [...].
in Milena, pag. 60 e 61, tradução de Maria da Graça Lachaud, Difel, 1988

1 Comment:

Bípede Falante said...

Gosto muito de cartas. Fiquei curiosa com esse livro. Vou procurar.
beijo