domingo, março 27

Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas


Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o verão.
E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltasses
em busca desses antigos recados levados pelo tempo:

Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela
música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,
por certo estarei ainda aqui, mas poderei dizer que, pelo
menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha
boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes.


Maria do Rosário Pedreira


poema desviado daqui

6 Comments:

Claudia Sousa Dias said...

Só podia ser dela ou da Rosa Alice branco.

As duas únicas poetas da actualidade que escrevem sobre a nostalgia e o romance sem cair na pieguice lamechas.

CSD

cs said...

Fantástica a Pedreira. Que delicadeza em pendurar o decote, a forma que desde logo o poema assume, para quem ao ler assume o olhar delicado e expectante.

O tempo. Tenho sempre tanta dificuldade com o tempo.

E o tempo, o tempo aqui afasta as palavras e intenções em forma de recados.
que lindo poema nos trouxe hoje Marta.

Anónimo said...

LINDO LINDO LINDO

thankx marta

Anónimo said...

Eu ADORO o teu site, marta e adoro vir aqui ver o mundo pelos teus olhos, pelos teus poemas, pelas tuas músicas e quando chove até chego a ter saudades tuas sem que te conheça.
thankx marta

Sonhos & melodias said...

Marta,o meu prazer é aparecer por aqui e sempre ser brindada com textos de autores portugueses maravilhosos! Estou adorando conhecer todos. Esse poema é de uma delicadeza sem tamanho. Obrigada!
Bjs

Carolina said...

Marta, muito obrigada. Sou estudante de Letras (Português/Literaturas) na UFRJ, no Rio de Janeiro, e vc me ajuda a conhecer uma parte da Literatura Portuguesa que eu não vejo em sala de aula. O seu blog merece uma tarde toda, recheada de biscoitos e café... e essa poema é maravilhoso. Beijos