quinta-feira, março 17

A infância de Herberto Helder


No princípio era a ilha

embora se diga

o Espírito de Deus

abraçava as águas


Nesse tempo

estendia-me na terra

para olhar as estrelas

e não pensava

que esses corpos de fogo

pudessem ser perigosos


Nesse tempo

marcava a latitude das estrelas

ordenando berlindes

sobre a erva


Não sabia que todo o poema

é um tumulto

que pode abalar

a ordem do universo agora

acredito

Eu era quase um anjo

escrevi relatórios

precisos

acerca do silêncio


Nesse tempo

ainda era possível

encontrar Deus

pelos baldios


Isso foi antes

de aprender a álgebra


José Tolentino Mendonça in Anos 90 e Agora, pag.127, Quasi, 2001

imagem: marta [na ilha de Porto Santo]

8 Comments:

josé luís said...

lindo!

(...eu bem andava desconfiado que deus tinha sido morto pela álgebra...)

Funes, o memorioso said...

Marta, eu tentei respeitar o seu pedido e aguentar até sexta, mas não foi possível. A culpa é sua, que postou esta versalhada capaz de envergonhar um miúdo de seis anos que a tivesse escrito.

José Luís, apesar do escrito postado ser muito, muito, muito mau, não creio que seja tão mau como diz.
Na interpretação que faço, o que o escrevinhador diz é passou um largo tempo em idiotices, até estudar álgebra e descobrir que, Deus está na matemática.

Funes, o memorioso said...

No meu comentário anterior, onde se lê:
"Na interpretação que faço, o que o escrevinhador diz é passou um largo tempo em idiotices, até estudar álgebra e descobrir que, Deus está na matemática",

deve ler-se:
Na interpretação que faço, o que o escrevinhador diz é que Herberto Helder (ou será o próprio escrevinhador?) passou um largo tempo em idiotices, até estudar álgebra e descobrir que Deus está na matemática"

Claudia Sousa Dias said...

que lindo!

olha, tens uma distinção, no meu blogue, se lá quiseres dar uma espreitadela...

Marta said...

tirando a parte de que Deus está na matemática, não podia estar mais em desacordo consigo.
e sim, Prof. Funes, conseguiu irritar-me, mais uma vez.
não volte a ter a "lata" - a grande lata, aliás - de voltar a referir-se ao EXTRAORDINÁRIO POETA em causa como escrevinhador.

Marta said...

um beijo, Claudia e José Luís.
bom fim semana

Funes, o memorioso said...
Este comentário foi removido pelo autor.
Funes, o memorioso said...

O EXTRAORDINÁRIO POETA que refere é o Senhor Helder ou é o Senhor Mendonça?

Mas, seja um ou seja outro, deixe-me esclarecer uma coisa: eu nunca, nunca, nunca, avalio poetas. Avalio poemas.
Pessoa, por exemplo, que era um génio e figurá para sempre na galeria dos poetas imortais, foi autor de abjecções poéticas tão miseráveis como o "para ser grande, sê inteiro" ou o "tudo vale a pena, quando a alma não é pequena".

Esta coisa em forma de poema que escrevinhou Tolentino de Mendonça é inconcebivelmente má. Daí não se segue que o cavalheiro não possa ser um génio. A marta ainda há dias nos trouxe aqui o verso "o homem ou é tonto ou é mulher" que redime o seu autor de todas as asneiras que possa dizer a seguir.
Não há ninguém que escreva que não escreva um verso feliz. Não há ninguém que escreva que não escreva cem versos infelizes.