terça-feira, março 8

A felicidade é chegar a casa.

A felicidade é chegar a casa. Do ponto minúsculo do céu, debruçada sobre a janela, vejo as paisagens estranhas e geométricas do meu país. Tento adivinhar se ainda é Ribatejo, de que lado aterraremos, que luz terá Lisboa. Sou alfacinha, nasci na Avenida da República, uma das artérias principais da cidade. Fui educada de acordo com a ideia de que a nossa galinha é boa e gorda, apetitosa e surpreendente, contrariando a ideia de que a da nossa vizinha é que nos enche de possibilidades e alegrias. Portugal é um país de sonhos, de poetas e escritores, de aventureiros e viajantes. Aprendi estas coisas muito cedo, mão dada com o meu tio-avô, que me obrigava a ver de outra forma, exercitar a imaginação, pensar mais além. Uma vez, na raia, ali a espreitar a vizinha Espanha aprendi que temos as fronteiras mais antigas da Europa, datam do século XIII. Não somos um povo que se possa confundir com qualquer outro. Não o escrevo por arrogância ou falta de modéstia, antes por ser exactamente assim. Se fossemos passíveis de ser engolidos por outra cultura teríamos um percurso distinto, seríamos espanhóis, por exemplo. Nós, portugueses, somos do mundo e o mundo inteiro cabe na nossa geografia. Conheço o país de lés a lés e sei distinguir algumas tradições, sotaques, devoções. Sim, porque somos devotos de algo que existirá um dia, temos esperança nessa ideia feliz de futuro. Quando saímos de casa vamos pelo mundo levando a nossa portugalidade. Aconteceu-me chegar, noite alta, a uma terrinha no nordeste do Brasil e ouvir um poema de Fernando Pessoa. Na Índia, em Goa, uma velhinha cantou-me um fado de Amália Rodrigues e ensinou-me que a fadista também escrevia. Em Moçambique, no clube de aviação, recolhi todas as histórias que consegui e, no fim, escrevi no cabeçalho do meu bloco de notas: amizade. De regresso a casa, aí onde reside a felicidade, percebo sempre, de todas as vezes, que ser português não é um acaso e que a terra que nos une, daqui até à Mãe Rússia, vai-se transformando e transfigurando, sendo que nós nos mantemos iguais: a ponta da Europa, um beiral sobre o Atlântico. Podemos partir, mas o que importa verdadeiramente é o regresso. Portugal abraça-nos com mansidão e sem exigências quando voltamos. Há cidades que nos perdem, vilas que nos surpreendem, estados de espírito diferentes e, no entanto, todos juntos formam esta ideia de casa que acarinho. A nossa pequenez geográfica não se reflecte na alma, somos grandes. Sim, porque países pequenos têm grandes ideias e podem ser tesouros por descobrir. Seja, por isso, bem vindo à nossa casa.
Patrícia Reis

1 Comment:

Luis Eme said...

já experimentei muitas das sensações da Patrícia, Marta.

é estranho, sentirmo-nos mais portugueses, fora do país, mas acontece tanto. e gostarmos ainda mais de sermos portugueses.

por isso é que não entendo como nos deixamos governar por mediocres...