terça-feira, fevereiro 28

hoje chamei o teu nome



Hoje chamei o teu nome,

o teu dia cansado,

a tua ausência,

longo é o verbo da espera.

O dia também me fugiu,

foi um corrupio de ida em volta

ainda que breves tenham sido

as minhas conjugações.

Chegou ao fim o dia,

encontro‐me finalmente

de frente para este rosto

que também trago cansado.

 
São estes dias de suor

e esquecimento

que nos fazem esquecer

dos nomes, dos verbos,

de toda uma semântica

que nos aproxima – para além

de todo o esquecimento

que nos representa – assim.

 
Miguel Pires Cabral, in, «a sul de nenhum norte» n.º 3

Poema desviado daqui

imagem:henri cartier bresson

segunda-feira, fevereiro 27

Jazz de jasm, ou espírito e energia...


«Jazz de jasm, ou espírito e energia, jazz do francês jaser, ou conversar animadamente, jazz de Jazbo Brown, um músico negro itinerante, e ainda jazz de jass, como na frase "Jass it up boy, give us some more jass!", que alguns pares entusiasmados exclamavam, quando a dança ao som do dixieland chegava ao fim, segundo um artigo de 1937.

A etimologia da palavra não é clara e são muitas as sugestões, até hoje, quanto à origem do termo jazz. O que sabemos com toda a certeza é que Livery Stable Blues é o primeiro disco de jazz gravado, e editado em Fevereiro de 1917, pelo colectivo Original Dixieland Jazz Band»:

Fonte: aqui

sábado, novembro 19

...o meu melhor retrato...




comovida e grata. e, para já, sem mais palavras.

sábado, outubro 8

hei-de conseguir adivinhá-los, eu sei





hei-de conseguir

adivinhá-los, eu sei


vagos e tão

imaginários,

desaguarão um dia em mim esses

acordes de um rio no céu estrelado


e então todas as marés e

melodias serão uma só


muito antes da noite sentir falta de música

acordarei a ouvir essa tua canção de água

repetida em mim sem cessar, segredando-me:

também há sons no silêncio, tens de os cantar

até que haja vida nesse teu planeta sem sol


José Luís
 
imagem: NASA/JPL Caltech
Foto: NASA/JPL-Caltech
Foto: NASA/JPL-Caltech

terça-feira, setembro 6

Escrever, era a única coisa que povoava a minha vida...


«Escrever, era a única coisa que povoava a minha vida e que a encantava. Fi-lo. A escrita nunca mais me abandonou.


A solidão da escrita é uma solidão sem a qual o escrito não se produz, ou se esfarela, exangue de procurar o que escrever.

É sempre necessária uma separação das pessoas que rodeiam aquele que escreve livros. É uma solidão. É a solidão do autor, da escrita. Para iniciar a coisa, interrogamo-nos acerca desse silêncio à nossa volta. Praticamente a cada passo que se deu numa casa e a todas as horas do dia, sob todas as luzes, quer estejam do lado de fora, quer sejam lâmpadas acendidas durante o dia. Essa solidão real do corpo torna-se outra, inviolável, a da escrita. Eu não falava disso a ninguém. Nessa época da minha primeira solidão, tinha já descoberto que dedicar-me à escrita era o que eu tinha de fazer.

Não encontramos a solidão, fazemo-la. A solidão faz-se só. Eu fi-la. Porque decidi que era aqui que deveria estar só, que estaria só para escrever livros. Passou-se assim. Estive só nesta casa. Fechei-me aqui – também tive medo, evidentemente. E depois amei-a. Esta casa tornou-se a da escrita. Os meus livros saem desta casa. Desta luz também, do parque. Desta luz reflectida no tanque. Precisei de vinte anos para escrever isto que acabo de dizer. Creio que a pessoa que escreve está sem ideia de livro, que tem as mãos vazias, a cabeça vazia, e que não conhece, desta aventura do livro, senão a escrita seca e nua, sem futuro, sem eco, longínqua, com as suas regras de ouro elementares: a ortografia, o sentido.»

Marguerite Duras, escrever; trad. Vanda Anastácio, Difel, Outubro 2001;

Texto desviado daqui

quinta-feira, setembro 1

O planeta diamante


« [...] A notícia é mais um fato a comprovar que os poetas são visionários que antevêem coisas que os cientistas só muito posteriormente constatarão. O fato de um planeta ou estrela ter-se transformado, por leis naturais, em companheiro/a de um pulsar, e essa relação dar vida nova a um astro antes moribundo, ocorre, segundo o meu ponto de vista, em toda e qualquer relação humana.


O poeta Carlos Drummond de Andrade, que será o homenageado da Festa Literária de Paraty em 2012, escreveu isso em seu poema “Canção Amiga”. Publicado em 1948 no livro “Novos Poemas”, da José Olympio Editores, e musicado por Milton Nascimento no disco “Clube de Esquina 2”, de 1978, o poema de Drummond diz, em seus últimos versos: “Do jeito mais natural, dois carinhos se procuram. Minha vida, nossas vidas formam um só diamante. Aprendi novas palavras, e tornei outras mais belas”.

Uma análise gramatical do poema de Drummond poderia dizer que “Canção Amiga” é um dos textos mais fluentes e mais musicais do poeta de Itabira, escrito em redondilhas maiores, de sete sílabas. Poderia ir além e dizer ainda que, no poema, a tão desejada harmonia da vida é anunciada para além de todas as precariedades do sujeito. Estrofes regulares, de quatro em quatro versos, promovem a interação entre os redondilhos e o coloquial, com intensa expressividade.

Quanto a mim, prefiro a alegria de saber que lá fora, na imensidão negra e infinita, os astros também estão submetidos às mesmas leis de atração e repulsão às quais somos submetidos no planeta azul. Que, para além de toda solidão, também precisam de um outro para sentir-se rejuvenescido e para encontrar novas razões para a sua pulsão. E que disso podem resultar pérolas. Ou diamantes por lapidar.»
 
Adriana B. Leite e Santos
 
[ ...texto desviado daqui, planeta descoberto recentemente e ao qual tenho regressado...]

sexta-feira, agosto 19

fábula das grafias de um amor moderno



[ele queria sorrir e escrevia um pontinho em cima de outro pontinho e o lado direito de um parênteses

ela estava de acordo e escrevia um pontinho por cima de outro pontinho e um traço e o lado direito de um parênteses

ele perguntava por que razão escrevia ela um traço entre o pontinho por cima de outro pontinho e o lado direito de um parênteses

ela respondia que queria escrever um nariz que estaria como é habitual entre os olhos do pontinho por cima de outro pontinho e a boca do lado direito de um parênteses

ele comentava que só alguém muito senhora do seu traço se lembraria de inventar um nariz com um traço

ela rematava com um pontinho por cima de uma vírgula e um traço e o lado direito de um parênteses

ele questionava para que servia uma vírgula por baixo de um pontinho e um traço e o lado direito de um parênteses

ela retrucava que ele não tinha imaginação nenhuma porque se tivesse alguma teria desde logo percebido que ela estava a piscar-lhe o olho

ele argumentava zangado que achava que piscar o olho era escrever um ponto de exclamação e o lado direito de um parênteses

ela desdenhava e dizia que nunca um ponto de exclamação poderia servir para piscar os olhos porque o olho fechado fica enorme em relação ao outro e se perde todo o efeito pretendido

ele irritado queria deitar-lhe a língua de fora e escrevia um pontinho por cima de outro pontinho e um p maiúsculo

ela entristecida redigia um pontinho por cima de outro pontinho e um traço e o lado esquerdo de um parênteses

ele arrependido insinuava o sinal de menor e o algarismo três e tentava fazer as pazes

ela escrevia apaixonada o sinal de menor e o algarismo três três vezes e rendia-se por fim ao amor]


[... mas a culpa -a inicial  -  é do Senhor Scott E. Fahlman...criador dos sinais gráficos para representar emoções em mensagens transmitidas pela internet..] 
 

domingo, julho 10

Escrevo o que ainda não conheço


Escrevo o que ainda não conheço

nomes de ruas pássaros árvores

monólogos de quem ainda te fala alto

é a minha voz ou a tua?



lá fora a chuva confunde-se com gestos

falamos do tempo, ponte entre o silêncio e o nada



ouve, quando não fores capaz de falar, toca-me


Sousa, Maria, in “RESUMO, a poesia em 2010″, Lisboa: Assírio & Alvim, 2011, p.12




segunda-feira, junho 13

As respostas do Jorge Fallorca


8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Na ponta da língua: Henry Miller (sem a sex-shop da adolescência), Cossery (todo: lido, relido, treslido), o mesmo para John Berger, Mohamed Choukri, Sebald, Walser, Piglia, David Malouf, Cormac, Salinger, Saint-John Perse, Imre Kertész, Vila-Matas (sobretudo, a partir de Bartleby & C.ª), Llansol, Almeida Faria, Carlos de Oliveira, Luiza Neto Jorge.


Livros: O Delfim, Húmus (Raúl Brandão e versão de Herberto Helder), O Ano da Morte de Ricardo Reis, Paisagens Originais (Olivier Rolin), O Último Leitor (Piglia e David Toscana), O Livro do Desassossego, Aprender a rezar na Era da Técnica (Gonçalo, devagar, a leitura como prece), Bonsai (Alejandro Zambra), O Caderno do Algoz (Sandro W. Junqueiro) e, naturalmente, Herberto o Livro; Disse-me Um Adivinho.
 
As outras nove respostas aqui

sexta-feira, junho 10

No mundo actual vale tudo


«As regras não significam forçosamente conservação. Não roubar é uma regra. Não mentir é uma regra. Não fazer política suja é uma regra. Ser honrado é uma regra. Não são regras conservadoras, são regras de humanidade. No mundo actual vale tudo.»

desviado daqui

sábado, junho 4

Amo o caminho...


Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.

Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo

Se se recorda dos movimentos migratórios

E das estações.

Mas não me importo de adoecer no teu colo

De dormir ao relento entre as tuas mãos.


Daniel Faria


[...não consigo comentar, mas consigo fazer copy/past daqui para aqui...]

sexta-feira, junho 3

Tenho medo de não poder...


Tenho medo de não poder voltar a falar seriamente. A minha alma crê naquilo que a minha razão se obriga a negar.


Imre Kertész


imagem: © Nina Huttin
 
[desviado daqui]

sem comentários!



[...faço o comentário; opto por Conta Google; faço login como sempre fiz e o comentário aparece, assim:

"Anônimo disse"... está um sonho azul! linda linda!

volta a pedir login e o comentário não entra nem como anónimo!!!!

primeiro aconteceu no blog do José Luís, agora acontece também no da Bípede...

alguém, por favor, me pode ajudar a resolver este problema?]

quinta-feira, junho 2

a maior exposição fotográfica do mundo


[....e o olhar da sonja valentina anda por lá. por isso, a não perder...]

terça-feira, maio 31

As respostas do Carlos Azevedo


Entre outros, anda a ler "Os dias da Revolução" da Alexandra Lucas Coelho. Releu  inúmeras vezes e continuará a reler "A Gravidade e a Graça", de Simone Weil e jamais conseguiu esquecer a cena final de Everyman, de Philip Roth. As últimas linhas: «He went under feeling far from felled, anything but doomed, eager yet again to be fulfilled, but nonetheless, he never woke up. Cardiac arrest. He was no more, freed from being, entering into nowhere without even knowing it. Just as he'd feared from the start.» As respostas do Carlos AQUI

segunda-feira, maio 30

Sophia

domingo, maio 29

As respostas de MCS




O Marco já respondeu ao desafio :) Anda a ler “Winesburg, Ohio”, Sherwood Anderson e “Histórias para uma noite de calmaria”, Tonino Guerra. E tal como o prof. Eduardo Lourenço, um dia há-de reler. Para já, lê. E muito... Ora, espreitem...


imagem: Sherwood Anderson on the steps of "Rosemont"


sexta-feira, maio 27

As respostas de Bípede Falante


As respostas da querida Bípede Falante deixaram-me uma urgência:
ir a correr comprar Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar...

É  - só - o livro que «leu dez vezes e que seguirá lendo e relendo até o livro gastar. O que não será um problema porque eu tenho um segundo exemplar guardadinho para esse dia ahahahaha, e que ninguém chame a polícia ou um analista, que o caso é de amor e não de obsessão». 
Percebem, agora, porque não posso ir sossegada... de fim-de-semana?

As respostas de Prof. Funes


O provável dono da maior biblioteca tentada e não lida do mundo cujo único encanto [e mais dois ou três atributos, vá...] é escolher ler as "Obras completas de Jorge Luís Borges" até ao fim dos seus dias, respondeu às 10 perguntas sobre livros... AQUI 

quarta-feira, maio 25

Perguntas difíceis...


[... e sem-se-ver lá nos vai lançando desafios... :) cá está ;)]

1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
- Existem vários. Há livros de que sinto saudades.
2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
 - Quando, às primeiras páginas, não gosto de um livro, não insisto.
3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
 - Mas isto é lá pergunta que se faça!
4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
- Muitos. Muitíssimos.
É uma conta-corrente...não param de entrar livros e não há modo de ganhar mais tempo...
5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
A cena que me ocorre, agora, é a de Noites Brancas, do Dostoiévski .
6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
 - Tinha o hábito de ler tudo... adorava ler, tal como hoje. Li, inclusivamente, o que não era ajustado à minha idade e que a minha mãe me tirava, quando dava conta, como o livro do Erico Veríssimo, Olhai os Lírios do Campo...e O Amor de Perdição, do Camilo, que li até ao fim, banhada em lágrimas. Tinha 14 anos.
Li todas as histórias de Os irmãos Grimm, nomeadamente O Flautista de Hamelin, que adorava. Tinha um livro que trazia o disco... ;Tom Sawyer ; O meu pé de laranja Lima; O gato malhado e a andorinha sinhá; O gato das botas... - que saudades - enfim, continuando...Os Cinco e Os Sete de Enid Blyton; Carlota...de Gretha Stevns. Há um livro – que contava a lenda de Guilherme Tell – cujas imagens recordo muitas vezes. A maça pousada na cabeça do seu filho, ele coagido a disparar a besta. A minha ânsia e a minha emoção quando ele acerta em cheio no fruto e, depois, explica porque levava duas setas...essa história marcou-me bastante.
Ainda, muita banda desenhada que adorava! [adoro] Desde Patinhas, Peninha, Zé Carioca, Pateta. Mafalda, Tin-Tin e, claro, Asterix - todos - onde aprendi muita História.
Todas as histórias da minha absolutamente querida Sophia – A Menina e o Mar, O Cavaleiro da Dinamarca, O Rapaz de Bronze...Matilde Rosa Araújo e alguns poemas do Sidónio Muralha que ainda hoje sei de cor, como por exemplo, o Bichinho de conta...
E, é verdade! As Crónicas do Fernão Mendes Pinto em BD...onde havia um jogo engraçado como o nome do cronista: Fenão, Mentes? Minto...:)
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Nunca levei nenhum livro que tivesse achado chato até ao fim... são muito poucos...os que comecei e não terminei.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
TANTOS! [Segue a lista ao sabor do imediato] Os Maias, Eça de Queirós [e todos];Para Sempre, Vergílio Ferreira [e todos]; Sinais de Fogo, Jorge de Sena; De Profundis Valsa Lenta, José Cardoso Pires [e outros] Reduto Quase Final, Dinis Machado; Longos Dias Têm 100 Anos, Agustina Bessa-Luís [e outros]; A Costa dos Murmúrios, Lídia Jorge [e outros]; Ficções, Borges [e outros]; O Homem sem Qualidades, Musil; O Idiota, Fiódor Dostoiévski [e outros]; Os dados estão lançados, Jean-Paul Sartre; Ondas, da Virginia Woolf [e outros]; Menina e Moça, Bernardim Ribeiro; Senhor Palomar, Calvino; O Monte dos Vendavais, Emily Brontë; A Montanha Mágica, Tomas Mann; Viagem ao Fim da Noite, Céline; Golpe de Misericordia, Marguerite Yourcenar [e outros]; O Ano da Morte de Ricardo Reis, Saramago [e outros]; Tratado das paixões da alma, do António Lobo Antunes [e outros]; O Segredo de Joe Gould, Joseph Michell [obrigada Teresa. Sempre]; As Horas, Michael Cunningham; Somos o Esquecimento que Seremos, Héctor Abad Faciolince; O desaparecido, Franz Kafka [e outros]; O Véu Pintado, Somerset Maugham; A volta ao dia em oitenta mundos,Cortázar; Os homens esquecidos de deus, Cossery;  O Amor nos Tempos de Cólera, Garcia Marquez; A Peste, Albert Camus; Assim Falou Zaratustra, Nietzsche; O Desespero Humano, Kierkegaard... - isto é demoníaco :) - 
É angustiante porque ...faltam tantos...e biografias – vício –e poesia, início...
9. Que livro estás a ler neste momento?
A Praia, Cesare Pavese e Adoecer, Hélia Correia. Este último está mesmo no fim.
A seguir, à minha espera na feira do livro, Por este Mundo Acima, Patrícia Reis.
10. Indica dez amigos para o Meme Literário: