terça-feira, março 1

Escrevo-te com o fogo e a água.


Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.

O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.

Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.
António Ramos Rosa

imagem: António Ramos Rosa

4 Comments:

Angélica Lins said...

"Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore."

INEFÁVEL!

josé luís said...

um dos meus heróis

William Garibaldi said...

Oi Marta, que beleza de poema!

Venho te convidar para escrever um texto, um poema uma crônica, dar um conselho, opinar sobre fogo, instinto, luz! Venha participar dos Rosários de Fogo!
Basta me enviar um em-mail com seu texto e como e quando deseja participar: williamgaribaldi@gmail.com

Grato.
Um Beijo de Luz!

Luis Eme said...

lindo.

«o vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu.»

também queria ver, Marta...