sábado, junho 18

...o que mais me encantava era o rio...


«Mas de tudo o que via da janela, o que mais me encantava era o rio. Então a barra ainda era funda, entravam por ela enormes cargueiros, tantos que às vezes ficavam atracados dois a dois, desde o Lordelo até à ponte. E porque na margem de Gaia não havia cais, a carga era morosa e pitoresca.
As pipas, os fardos, os caixotes, rolavam pelas pranchas ou levavam-nos os homens da estiva  à cabeça para as barcaças, que iam acostar aos navios. Os guinchos funcionavam a vapor e ao içar a mecadoria, ou quando a baixavam para os porões, saía deles silvando um longo penacho de fumo.
Tudo era princípio, novidade. Pedagogo nato, o avô sussurava-me os nomes das ruas, dos lugares, dos objectos, dos navios, dos países, ordenando e colorindo a realidade que eu ainda não podia interpretar.  Quase por inteiro são suas as descrições das tragédias do rio, dos barcos a redemoinhar nas águas turbulentas, da violência dos ciclones.
A paisagem era o filme, ele o comentador, e para me agradar apressava-se de volta a casa depois do trabalho, eu à espera ao cimo das escadas, ansioso por acompanhar a continuação da história do mundo».

J. Rentes de Carvalho in Ernestina, pag.138/139, Quetzal, 2010

imagens: marta

4 Comments:

Beatrix Kiddo said...

estás a ler esse livro?

Carlos Azevedo said...

Quando acebei a sua leitura, escrevi no meu 'espaço': «De um autor que merece maior destaque, um livro belíssimo e, até, comovente.»

Beijo.

Marta said...

já terminei, Beatrix!

Marta said...

...muito comovente, Carlos! bjo