terça-feira, setembro 8

deixa-me inventar [te] I


quero lá saber. pior. irritam-me os que querem saber.

e tem uma opinião sobre tudo. opinam sobre o estado da nação e sobre os peixinhos de prata que infestam a casa de banho. sobre o sabor dos peixinhos da horta, sobre os aquários dos peixinhos vermelhos;

opinam sobre os benefícios da gelatina vegetal e sobre as subtilezas da liberdade de expressão. opinam sobre decisões políticas que são meramente políticas.
opinam sobre decisões políticas que não são meramente políticas.
opinam sobre cantores, palhaços, jornalistas, políticos, astrólogos.
opinam sempre com o mesmo ar. sempre no mesmo tom.
"tutólogos" é o que são. "tutólogos".
especialistas em tudo. o Pierre Bourdieu é que tem razão. às vezes.
têm sempre qualquer coisa a dizer sobre qualquer coisa.
falam sobre tudo. sobretudo falam. opinam. irritam-me.

- nem parece teu. olha lá. a televisão está sem som. nem sabes o que estão a dizer. do que falam.

- não importa. só está sem som, porque a senhora da recepção não sabe do comando. e com som ou sem som, as pessoas ouvem na mesma. e a esta hora da manhã, são muitos a ouvir.

- estás impaciente. irritada. é natural. eu quando estava à espera dos resultados do exame ao meu pulmão estava assim. parece que mais nada tem importância a não ser o nosso pulmão. e pensamos logo em alternativas. em como viver só com um pulmão. se formos optimistas.

- natural é tu estares para aí com esse discurso. para que não fique nervosa. como se fosse possível. para que não desfolhe as revistas sem as ler, para que não leia os livros sem os desfolhar, para que não ouça televisão sem ver. sabes? gostei muito de ouvir o Francisco Anacleto Louça e a Manuela Ferreira Leite. sobretudo o Francisco Louça. é um cavalheiro. um cavalheiro. por acaso nunca reparei se tem umas mãos bonitas. tem? e os cartazes? um horror. o da Ferreira Leite, então, está muito mal. desfavorece-a. e há um, do Sócrates, com um tremendo ar gozão. ele que podia ser uma espécie de Clooney se fosse um grande actor. mas o título de Clooney português pertence ao tio do meu amigo. aquele meu amigo, sabes?

-como te sentes? olha lá para mim. não se nota nada. na verdade não se nota nada. vês-me melhor? olha lá bem para mim. é incrível. parece que nunca nos acontece e, de repente, zás. vai passar. claro que vai passar. isso não é nada. é um susto. mais nada. olha. é a tua vez. queres que entre contigo?

-entra. pode ser grave. e se for muito grave, vou desmaiar. tu sabes. quando eu não quero ouvir, desmaio. espera aí, deixa-me por as gotas. Optive. no olho, transformam-se nos componentes naturais das lágrimas. e posso não as ter, para chorar. até me ficava mal. eu que choro por tudo e por nada. e agora diziam-me que eu estava com os pés para a cova e nem uma lágrima me corria.

- não é por aqui. o seu exame está óptimo. temos de saber qual é a origem dessa cegueira, mas não é por aqui. o resultado da TAC é normalíssimo. por outras palavras: não tem nada na cabeça.

- e não imagina, senhor doutor, como é bom ouvir isso da sua boca. apesar da conversa dela, lá fora, já o ter denunciado.
imagem: René Magritte

5 Comments:

Paulo said...

Gostei...às vezes a cabeça é o "ponto fraco". Parabéns.

Anónimo said...

:) :) :) :) :) :) :) :) :) :) :)

PS. Sei. Mas eu prefiro teu amigo :)

Claudia Sousa Dias said...

ahahahah...!

está muito bom, querida Marta Lobo Antunes!!!!


beijos


CSD

Marta said...

ah querida Claudia,
se eu fosse Marta Lobo Antunes, casava-me.
com um brasileiro, moreno, trinta e poucos anos, lindo de morrer ;)

Anónimo said...

Muito, muito divertido :)

Cristina M.