segunda-feira, setembro 21

A crise dos falhanços espectaculares

Houve um tempo em que, nos amores e nas paixões, se falhava de forma espectacular. Com baba e ranho. Dava-se tudo. Saíamos rasgados de pele e coração. Valia sempre a pena, mesmo quando perdíamos o chão.

Os erros, as faltas, as vertigens, o pé à beira do abismo existiam para nos lembrarmos de que somos humanos. A regra era cair e levantar, prontos para outra depois de lutos intensos, sofridos, partilhados. Agora tudo isso existe sob a forma de prevenção. Para nos lembrarmos do que não devemos fazer, dos riscos que não devemos correr, contra o vírus da solidão.

Fomos ficando higienizados. Da alma à cama. Uma espécie de “se conduzir, não beba” para evitar os males do coração. Como se pudéssemos dizer “se amar, não se magoe”.

Com o passar dos anos, aprendemos a contornar os sintomas a bem da decência, da pose e da anestesia geral ou local, conforme as necessidades. O importante é não dar parte de fracos.
O ciúme é uma coisa moderna, para ser compreendida. A discussão acalorada está fora de moda.
A vingança é um prato que não se serve frio nem quente nas relações mais conceituadas. É coisa do povo, ementa de vidas de tasco, entre um tiro de caçadeira e um facalhão de meter respeito.

O civismo entrou definitivamente na nossa intimidade para amansar os corpos, os gestos, as palavras. A postura é um fato de pronto-a-vestir que usamos para entrar e sair das relações. Talvez até já nem se rasguem roupas quando chega a hora. O sentimento não ferve, a aprendizagem das loucuras que fizemos é renegada e a história do que fomos não tem disco duro porque a caixa de mensagens é mais prática e descartável. De resto, já não há cartas para guardar porque ninguém as escreve. Quem as leria, de resto, se tivessem mais de 140 caracteres?

Como num poema do Eugénio, já não há nada que nos peça água. E estamos como ela: insípidos, inodoros e incolores. Leves. Capazes de ir do tudo ou nada sem efusão de sangue. Deve andar a escapar-nos o momento em que deixamos de olhar a vida nos olhos e a desregrada infinidade de coisas que vinha junto com ela.

Miguel Carvalho in Revista Egoísta
imagem: Google

8 Comments:

Zaclis Veiga said...

sou fã. :)

Anónimo said...

Parece-me que o autor não é de falhanços mornos.

Leigo

Anónimo said...

Já percebi, a água do poema, é a do poema de cima!!!!!!! Isso de nada nos pedir água, não tá com nada, é mesmo mau.

Leigo

Teresa said...

Belo texto, e muito verdadeiro. Mas não me parece que abafar as nossas emoções possa dar bom resultado.
Bjs

PAS[Ç]SOS said...

Leio-o caminhando entre a identificação e o aviso… entre a pele que me veste e a que devo evitar provar. Entre o que é verdade, real e o que quero continuar sonhar. O imediatismo arrasta-nos na comunicação, nos sentimentos e nos desenlaces. Até parece que o oxigénio falta impedindo o lume de arder, com mais força, mais tempo. A fogueira que hoje se acende, logo amanhã se apaga com a passagem de novo vento. E a consciencialização de tudo isto cria-nos autodefesas que são, também, fugas à nossa responsabilização.
Mesmo que sejam para guardar no fundo dum baú esquecido, mesmo que as palavras de Eugénio Andrade, publicadas acima, sejam inquestionáveis de verdade, ainda acredito no perfume das cartas. Quer sejam escritas à mão em folha de papel, quer se fraccionem em múltiplas mensagens que voem mais velozes do que o sopro da ponderação. Assim haja quem as precise de ler.

sonja valentina said...

devo estar do contra hoje..., mas neste como noutros assuntos, em nada na vida consigo ser de meias medidas.... confesso que nem sempre é uma atitude razoável, mas há alturas em que a razoalibilidade me tira do sério... ainda que fora de moda!

Anónimo said...

Não consigo fazer como a Zaclis e escolher apenas um (vi no outro blog, Zaclis, mas lá não consigo comentar...). Mas se me esforçasse para o fazer não seria este mas o do relógio.
E achei piada teres postado este...
Como de costume, beijo:)
Xana

Flipmora said...

Muito bem observado. O espírito do tempo flui, para onde nos leva?