domingo, abril 15

o ritmo das coisas


(...) E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, novembro 9

Carta a Ruben A.





Que tenhas morrido é ainda uma notícia


Desencontrada e longínqua e não a entendo bem

Quando — pela última vez — bateste à porta da casa e te sentaste à mesa

Trazias contigo como sempre alvoroço e início

Tudo se passou em planos e projectos

E ninguém poderia pensar em despedida


Mas sempre trouxeste contigo o desconexo

De um viver que nos funda e nos renega

— Poderei procurar o reencontro verso a verso

E buscar — como oferta — a infância antiga


A casa enorme vermelha e desmedida

Com seus átrios de pasmo e ressonância

O mundo dos adultos nos cercava

E dos jardins subia a transbordância

De rododendros délias e camélias

De frutos roseirais musgos e tílias


As tílias eram como catedrais

Percorridas por brisas vagabundas

As rosas eram vermelhas e profundas

E o mar quebrava ao longe entre os pinhais


Morangos e muguet e cerejeiras

Enormes ramos batendo nas janelas

Havia o vaguear tardes inteiras

E a mão roçando pelas folhas de heras

Havia o ar brilhante e perfumado

Saturado de apelos e de esperas


Desgarrada era a voz das primaveras


Buscarei como oferta a infância antiga

Que mesmo tão distante e tão perdida

Guarda em si a semente que renasce


Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, novembro 7

Quando à noite desfolho e trinco as rosas


[o busto de Sophia, ontem inaugurado no Jardim Botânico do Porto]




Quando à noite desfolho e trinco as rosas

É como se prendesse entre os meus dentes

Todo o luar das noites transparentes,

Todo o fulgor das tardes luminosas,

O vento bailador das Primaveras,

A doçura amarga dos poentes,

E a exaltação de todas as esperas.


Sophia de Mello Breyner Andresen




segunda-feira, maio 30

Sophia

quinta-feira, abril 7

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim


Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim,

A tua beleza aumenta quando estamos sós

E tão fundo intimamente a tua voz

Segue o mais secreto bailar do meu sonho,

Que momentos há em que eu suponho

Seres um milagre criado só para mim.

 
 
Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, março 24

Não te chamo para te conhecer


Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, março 8

...longo indelével rasto que o não vivido deixa...


[...] Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.

Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não-vivido deixa.
[...]

Sophia de Mello Breyner Andresen
imagem: Jorge Casais

quarta-feira, fevereiro 9

a ninfa

Branca.
Branca era a ninfa,
Branca e prisioneira
E impaciente.

Sophia de Mello Breyner Andresen

[parabéns querida Leila. um abraço com carinho e admiração]

quarta-feira, fevereiro 2

Quadrado


Deixai-me com a sombra
Pensada na parede
Deixai-me com a luz
Medida no meu ombro
Em frente do quadrado
Nocturno da janela

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, janeiro 14

Pudesse eu não ter laços nem limites

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!

Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, janeiro 6

Glosa de "So we'll go no more a roving" de Byron


Não irei mais meu erro errando errante
Pela noite fora
Embora a lua brilhe tanto como outrora
Não cesse do amor a voz uivante
Que me devora

Pois o coração gasta o peito
E a espada gasta a bainha
O tempo rói o coração desfeito
E a alma é sozinha

Embora a noite sempre peça amor
E o dia volte demasiado cedo
E o luar corte como espada nua
Não irei mais em pânico e segredo
Sob a luz da lua



Sophia de Mello Breyner Andresen in Obra Completa, pag. 749, Caminho, 2010

domingo, dezembro 12

Prece


Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.
Para ti criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
...Como o florir das ondas ordenadas.
Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, novembro 2

Sophia


Colóquio internacional Sophia de Mello Breyner Andresen, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, nos dia 27 e 28 de Janeiro do próximo ano. Assinalando a entrega do espólio da escritora à Biblioteca Nacional de Portugal. Ver programa aqui.

terça-feira, setembro 14

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio

E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,

Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.


Há muitas coisas que eu quero ver.


Peço-Te que sejas o presente.

Peço-Te que inundes tudo.

E que o teu reino antes do tempo venha.

E se derrame sobre a Terra

Em primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, setembro 3

A fada Oriana


Era uma vez uma fada chamada Oriana. Era uma fada boa e era
muito bonita. Vivia livre, alegre e feliz dançando nos campos,
nos montes, nos bosques, nos jardins e nas praias.
Um dia a Rainha das Fadas chamou-a e disse-lhe:
- Oriana, vem comigo.
E voaram as duas por cima de planícies, lagos e montanhas. Até
chegarem a um país onde havia uma grande floresta.
- Oriana - disse a Rainha das Fadas -, entrego-te esta
floresta. Todos os homens, animais e plantas que aqui vivem,
de hoje em diante, ficam à tua guarda. Tu és a fada desta
floresta. Promete-me que nunca a hás-de abandonar.
Oriana disse:
- Prometo.
E daí em diante, Oriana ficou a morar na floresta. De noite
dormia dentro do tronco de um carvalho. De manhã acordava
muito cedo, acordava ainda antes das flores e dos pássaros. O
seu relógio era o primeiro raio de sol. Porque tinha muito que
fazer. Na floresta todos precisavam dela. Era ela que prevenia
os coelhos e os veados da chegada dos caçadores. Era ela que regava as
flores com orvalho. Era ela que tomava conta
dos onze filhos do moleiro. Era ela que libertava os pássaros
que tinham caído nas ratoeiras.
À noite, quando todos dormiam, Oriana ia para os prados dançar
com as outras fadas. Ou então voava sozinha por cima da
floresta e, abrindo as suas asas, ficava parada, suspensa no
ar entre a terra e o céu. À roda da floresta havia campos e
montanhas adormecidos e cheios de silêncio. Ao longe viam-se
as luzes de uma cidade debruçada sobre o seu rio.
De dia e vista de perto a cidade era escura, feia e triste. Mas à noite
a cidade brilhava cheia de luzes verdes, roxas, amarelas,
azuis, vermelhas e lilases, como se nela houvesse uma festa.
Parecia feita de opalas, de rubis, de brilhantes, de
esmeraldas e de safiras.
Passou um Verão, passou um Outono, passou um Inverno. E chegou
a Primavera. E certa manhã de Abril, Oriana acordou ainda mais
cedo do que o costume. Mal o primeiro raio de sol entrou na
floresta, ela saiu de dentro do tronco do carvalho onde
dormia. Respirou fundo os perfumes da madrugada e fez uns
passos de dança. Depois penteou os cabelos com os dedos das
mãos a fazerem de pente e lavou a cara com orvalho.
- Que manhã tão bonita! - disse ela. - Nunca vi uma manhã tão
azul, tão verde, tão fresca e tão doirada.
E foi pela floresta fora dançando e dizendo bom-dia às coisas.
[...]
Sophia de Mello Breyner Andressen in A fada Oriana, Figueirinhas

sábado, agosto 28

-Isso é por causa da saudade - disse o rapaz.


"No dia seguinte,logo de manhã, o rapaz foi ao seu jardim e colheu uma rosa encarnada muito perfumada. Foi para a praia e procurou o lugar da véspera.

-Bom dia, bom dia, bom dia - disseram a Menina, o polvo, o caranguejo e o peixe.

-Bom dia - disse o rapaz. E ajoelhou-se na água, em frente da Menina do Mar.

-Trago-te aqui uma flor da terra -disse; chama-se rosa.

É linda,é linda- disse a Menina do Mar,dando palmas de alegria e correndo e saltando em roda da rosa.

-Respira o seu cheiro para veres como é perfumada.
A Menina pôs a cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente. Depois levantou a cabeça e disse suspirando:

-É um perfume maravilhoso. No mar não há perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.

-Isso é por causa da saudade - disse o rapaz.

-Mas o que é a saudade?- perguntou a Menina do Mar.

-A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora."

Sophia de Mello Breyner Andresen in A Menina do Mar

domingo, agosto 30

Ouvir um post na Antena 1 ou A História Devida


Foi assim: comecei por ouvir a história da Bola de Berlim. Achei o programa uma delícia. Por e-mail, no dia anterior, dei a dica a alguns amigos. Ouviram e gostaram. Mesmo os que ouvem habitualmente a Antena 1 e não tinham o hábito de ouvir rádio ao Domingo. Agora, aos Domingos, às 13 horas, estamos todos sintonizados. Hoje, graças a um amigo :) «Foi assim que comecei a amar Sophia», escrito em Abril, é lido nA História Devida. Apresentado por Inês Fonseca Santos e Dinarte Branco, o programa é baseado "no conceito do escritor Paul Auster e pretende dar a conhecer as histórias de vida dos ouvintes da RDP. Histórias de amor, de amizade, de saudade, histórias alegres, bonitas, eufóricas, histórias de paisagens, sonhos ou lugares. Histórias curtas e reais." Estão todos convidados a sintonizar a rádio e a ouvir. Todos os Domingos há uma história, um entrevistado e, claro, música. E..."participem... porque toda a gente tem uma história para contar"!


O meu amor mais antigo é a poesia. A seguir à minha mãe. Sendo que mãe e poesia são, tantas vezes sinónimo, no meu dicionário de afectos. Tenho a sensação de sentir poemas muito cedo. Mesmo antes de começar a ler. Uma vez, no início da infância, senti muito medo e a minha mãe abraçou-me com muita força. Foi um abraço extraordinário. E eu, dentro do abraço dela, tive uma sensação de poema, que ainda hoje se mantêm. Depois, na escola, os meus livros de leitura tinham poemas que decorei. E só aí percebi que os poemas também se fazem com letras. E recordo-me, por exemplo, que astronauta rima com pernalta. E flor com dor. E contou com enrolou. E lembro-me, de como a febre das rimas tomou conta do meu universo de palavras. Não havendo nenhum remédio para a baixar. Tal como não havia nenhuma palavra que eu não fizesse rimar com outra. Até à exaustão. Da minha mãe. Que dizia: deixa lá!Procuramos amanhã. Recordo-me de pôr o Meio Físico e Social, a rimar com jornal. E ainda sinto a tristeza de não ter sido eu a arranjar uma rima para a Matemática. Andava na primária.
Depois, foram as histórias mais compridas. Não rimavam. Mas a sensação de poema ficava cá dentro. Quando gostava muito delas. Até que, um dia, chegou a Menina do Mar. E eu percebi que os poemas e as estórias eram feitas por pessoas que conheciam outras pessoas, coisas e lugares que um dia, eu também queria conhecer. E pensei na sorte de Sophia! Por conhecer uma menina “de cabelos verdes, olhos roxos, com um vestido de algas encarnadas”. E um Rapaz de Bronze e uma Fada Oriana e um Cavaleiro da Dinamarca. E, depois, por Sophia, descobri que as estórias podiam ter poemas dentro. [Como os filhos, dentro dos abraços dos pais]. Como na estória A árvore, que tanto gostei de ler. E percebi, com clareza, que uma árvore pode transformar-se numa barca. E que, deste modo, uma árvore pode viver no mar. E descobri como um mastro se pode transformar numa guitarra e como essa guitarra pode ter voz. E como essa voz pode ser uma canção e como uma canção pode ser um poema. E como um poema pode ser a memória de uma árvore ou de um povo.
Ensinou-me o espanto. Foi assim que comecei a amar Sophia. Desde muito cedo. Ela cresceu em todos os meus sentidos. Em todo o meu sentir. E percebi, com ela, que não podia viver sem livros. Porque os livros dela me tinham ensinado a olhar para além do aparente. E foi, assim, que a fui procurar às livrarias. Pelo nome. E foi dela, o primeiro livro que eu comprei. Histórias da Terra e do Mar. E, depois, todos os outros que me chegaram. Até toda a sua poesia me entrar, letra a letra, nas veias. E circular como seiva. Até perceber a raiz do “inteiro” e do “original”. Até compreender todas as ilhas que habitam o mundo. Até me apaixonar pela Grécia. Até o mundo, não respirar sem ela. Sem a sua poesia.
E depois, ia-lhe escrevendo cartas. Até que um dia, em Viana do Castelo, durante uma Presidência Aberta, dei conta de nós, no mesmo lugar. Do lado de fora dos poemas. Peguei nas minhas cartas e nos seus livros. Na convicção mais funda do nosso encontro. E nas palavras iniciais que lhe queria dizer. Quando cheguei à Pousada de Santa Luzia, não havia santa que valesse a tanta ansiedade. Não sabia onde por as mãos e, muito menos, o coração. Não sabia nada. O seus poemas todos cá dentro. Como se fossem um só. As palavras apertadas na garganta. Os lábios colados. Quase não respirava. E acho que, mesmo assim, rezei. Para aquela gente ir toda embora. Mas não aconteceu. Até que ela se levantou e eu paralisei. Mas consegui ouvir e ver. E vi-a tão extraordinariamente bela. Tão extraordinariamente sábia. Tão extraordinariamente serena. Que não consegui fazer nada. Nem tão pouco aproximar-me. Admirei-a de longe. Como tinha de ser. Numa afasia total. Numa epifania absoluta. Dentro dos livros. No nosso lugar. Até ao dia da sua morte. Doze anos, depois, daquele dia, em que a vi. Sem a imaginar. Nessa noite de Julho, li-lhe as minhas cartas. Em voz alta. Só lá estava eu. E ela.
«Seu rosto seria a cintilante claridade/De uma praia/
E em sua humana carne brilharia/A luz sem mancha do primeiro dia»
Sophia de Mello Breyner e Andresen
imagem: Google

terça-feira, junho 2

Para ti, querida Graça

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!



[minha querida Graçinha: só para te dizer que a vida foi MUITO generosa, quando te colocou no meu caminho! Beijo e TUDO de bom. Hoje e sempre! Parabéns. Muitos. Menina linda e e absolutamente querida :)]

domingo, abril 19

Diz o que viu


Escreve numa sala grande e quase

Vazia

Não precisa de livro nem de arquivos

A sua arte é filha da memória

Diz o que viu

E o sol do que olhou para sempre o aclara
Sophia de Mello Breyner Andresen in Ilhas, pag. 69, Texto Editora, 1990
Imagem: autor desconhecido

Foi assim que comecei a amar Sophia


O meu amor mais antigo é a poesia. A seguir à minha mãe. Sendo que mãe e poesia são, tantas vezes sinónimo, no meu dicionário de afectos. Tenho a sensação de sentir poemas muito cedo. Mesmo antes de começar a ler. Uma vez, no início da infância, senti muito medo e a minha mãe abraçou-me com muita força. Foi um abraço extraordinário. E eu, dentro do abraço dela, tive uma sensação de poema, que ainda hoje se mantêm. Depois, na escola, os meus livros de leitura tinham poemas que decorei. E só aí percebi que os poemas também se fazem com letras. E recordo-me, por exemplo, que astronauta rima com pernalta. E flor com dor. E contou com enrolou. E lembro-me, de como a febre das rimas tomou conta do meu universo de palavras. Não havendo nenhum remédio para a baixar. Tal como não havia nenhuma palavra que eu não fizesse rimar com outra. Até à exaustão. Da minha mãe. Que dizia: deixa lá!Procuramos amanhã. Recordo-me de pôr o Meio Físico e Social, a rimar com jornal. E ainda sinto a tristeza de não ter sido eu a arranjar uma rima para a Matemática. Andava na primária.

Depois, foram as histórias mais compridas. Não rimavam. Mas a sensação de poema ficava cá dentro. Quando gostava muito delas. Até que, um dia, chegou a Menina do Mar. E eu percebi que os poemas e as estórias eram feitas por pessoas que conheciam outras pessoas, coisas e lugares que um dia, eu também queria conhecer. E pensei na sorte de Sophia! Por conhecer uma menina “de cabelos verdes, olhos roxos, com um vestido de algas encarnadas”. E um Rapaz de Bronze e uma Fada Oriana e um Cavaleiro da Dinamarca. E, depois, por Sophia, descobri que as estórias podiam ter poemas dentro. [Como os filhos, dentro dos abraços dos pais]. Como na estória A árvore, que tanto gostei de ler. E percebi, com clareza, que uma árvore pode transformar-se numa barca. E que, deste modo, uma árvore pode viver no mar. E descobri como um mastro se pode transformar numa guitarra e como essa guitarra pode ter voz. E como essa voz pode ser uma canção e como uma canção pode ser um poema. E como um poema pode ser a memória de uma árvore ou de um povo.

Ensinou-me o espanto. Foi assim que comecei a amar Sophia. Desde muito cedo. Ela cresceu em todos os meus sentidos. Em todo o meu sentir. E percebi, com ela, que não podia viver sem livros. Porque os livros dela me tinham ensinado a olhar para além do aparente. E foi, assim, que a fui procurar às livrarias. Pelo nome. E foi dela, o primeiro livro que eu comprei. Histórias da Terra e do Mar. E, depois, todos os outros que me chegaram. Até toda a sua poesia me entrar, letra a letra, nas veias. E circular como seiva. Até perceber a raiz do “inteiro” e do “original”. Até compreender todas as ilhas que habitam o mundo. Até me apaixonar pela Grécia. Até o mundo, não respirar sem ela. Sem a sua poesia.

E depois, ia-lhe escrevendo cartas. Até que um dia, em Viana do Castelo, durante uma Presidência Aberta, dei conta de nós, no mesmo lugar. Do lado de fora dos poemas. Peguei nas minhas cartas e nos seus livros. Na convicção mais funda do nosso encontro. E nas palavras iniciais que lhe queria dizer. Quando cheguei à Pousada de Santa Luzia, não havia santa que valesse a tanta ansiedade. Não sabia onde por as mãos e, muito menos, o coração. Não sabia nada. O seus poemas todos cá dentro. Como se fossem um só. As palavras apertadas na garganta. Os lábios colados. Quase não respirava. E acho que, mesmo assim, rezei. Para aquela gente ir toda embora. Mas não aconteceu. Até que ela se levantou e eu paralisei. Mas consegui ouvir e ver. E vi-a tão extraordinariamente bela. Tão extraordinariamente sábia. Tão extraordinariamente serena. Que não consegui fazer nada. Nem tão pouco aproximar-me. Admirei-a de longe. Como tinha de ser. Numa afasia total. Numa epifania absoluta. Dentro dos livros. No nosso lugar. Até ao dia da sua morte. Doze anos, depois, daquele dia, em que a vi. Sem a imaginar. Nessa noite de Julho, li-lhe as minhas cartas. Em voz alta. Só lá estava eu. E ela.

«Seu rosto seria a cintilante claridade
De uma praia
E em sua humana carne brilharia
A luz sem mancha do primeiro dia»
Sophia de Mello Breyner Andresen