quarta-feira, novembro 9

Carta a Ruben A.





Que tenhas morrido é ainda uma notícia


Desencontrada e longínqua e não a entendo bem

Quando — pela última vez — bateste à porta da casa e te sentaste à mesa

Trazias contigo como sempre alvoroço e início

Tudo se passou em planos e projectos

E ninguém poderia pensar em despedida


Mas sempre trouxeste contigo o desconexo

De um viver que nos funda e nos renega

— Poderei procurar o reencontro verso a verso

E buscar — como oferta — a infância antiga


A casa enorme vermelha e desmedida

Com seus átrios de pasmo e ressonância

O mundo dos adultos nos cercava

E dos jardins subia a transbordância

De rododendros délias e camélias

De frutos roseirais musgos e tílias


As tílias eram como catedrais

Percorridas por brisas vagabundas

As rosas eram vermelhas e profundas

E o mar quebrava ao longe entre os pinhais


Morangos e muguet e cerejeiras

Enormes ramos batendo nas janelas

Havia o vaguear tardes inteiras

E a mão roçando pelas folhas de heras

Havia o ar brilhante e perfumado

Saturado de apelos e de esperas


Desgarrada era a voz das primaveras


Buscarei como oferta a infância antiga

Que mesmo tão distante e tão perdida

Guarda em si a semente que renasce


Sophia de Mello Breyner Andresen

1 Comment:

Anónimo said...

ESTE POEMA É TAMBÉM UMA EXCELENTE DESCRIÇÃO DA CIRCUNSTÂNCIA DE SOPHIA

E UMA MERECIDA HOMENAGEM DE MARTA A UM RUBINHO ESQUECIDO OU MESMO IGNORADO .

XI CORAÇÃO

JDA