terça-feira, novembro 29

Porque é de ti





Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti


que me vem o fogo.

Não há gesto ou verdade onde não dormissem

tua sombra e loucura,

não há vindima ou água

em que não estivesses pousando o silêncio criador.

Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos

originais.

Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra

a carne transcendente. E em ti

principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma

o sinal e a vinha.

Plantas, bichos, águas cresceram como religião

sobre a vida – e eu nisso demorei

meu frágil instante. Porém,

teu sinal de fogo e leite repõe a força

maternal, e tudo circula entre teu sopro

e teu amor.


Herberto Helder

2 Comments:

TERESA SANTOS said...

O que gosto de Herberto Helder.
E há quanto tempo não lia nada dele!
Foi bom revisitá-lo.

R. said...

A simplicidade hermética de Herberto Helder, no seu melhor.