sexta-feira, novembro 11

Jorge Fallorca na Gato Vadio


[Claudia de Sousa Dias a apresentar os livros de Jorge Fallorca na Gato Vadio]

Escritor, poeta, tradutor e Autor do blogue Nem Sempre a Lápis – crónicas, aforismos, excertos de traduções da sua autoria, música e cinema…Jorge Fallorca é um autor de escrita indisciplinada, intuitiva, errante, ao sabor das emoções e de inspiração marcadamente sensorial. [...]

Colaborou no suplemento cultural & etc, do Diário de Lisboa, tendo a sua formação cultural e literária até então sido construída com base no proveito das visitas periódicas da Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian a Mortágua. [...]

Jorge Fallorca é um escritor que associa a literatura e a experiência da escrita à experiência vivida no quotidiano. Este fenómeno torna-se evidente para quem lê as crónicas de “A cicatriz do ar”. As influências literárias que mais se evidenciam nas inúmeras intertextualidades da sua escrita são: J. Luís Borges, Michaux, Herberto Helder, Aquilino Ribeiro…

A escrita de Fallorca é por excelência insubmissa e ousada de tal forma fracturante que chega a acusar grande parte dos escritores contemporâneos de superficialidade e mediatismo. Aqueles que escrevem sobretudo para as revistas de papel couché – “Couché mais jamais touché” – afirma com despudor.

N’algumas crónicas de “A Cicatriz do Ar” e sobretudo na intrigante trama policial de “A Mulher Descalça”, Jorge Fallorca projecta a atmosfera intelectual e socialmente mutiladora do Norte rural e sobretudo beirão afirmando inclusivamente na entrevista a António Cabrita (semanário Expresso 2002) o seguinte:

“A Beira, e tudo o que é Norte, as brumas, a bruxaria, a cacicagem padreca, tudo isso me asfixia, é demasiado bolorento.”

Após um interregno a que chamou de “dez anos de repouso criativo” - a que poderíamos nós chamar de Síndrome de Bartleby, um tema tão do agrado de Enrique Vila-Matas, escritor de língua castelhana a que Fallorca vai buscar a epígrafe para “A Mulher Descalça”.

Depois de publicar “Longe do Mundo”, Jorge Fallorca adopta uma escrita “muito mais narrativa e controlada”: numa palavra – contemplativa.

Fallorca é um Autor que se afirma adepto da indisciplina da urgência e cuja escrita parte da memória que sofre o processo de esquecimento e recordação, pela arte de evocar o passado, invocando-o. A arte de seleccionar a memória através da dança dos processos de supressão ou esquecimento e retenção, o autor chama-a de “arte de decantação”, como se faz ao vinho mais rico. A escrita do Autor é um processo de decantação feito com minúcia e a longo prazo, após as frases sofrerem o tempo necessário de repouso e que são transfiguradas pelo processo mental de selecção, eliminação. O Autor de que hoje tratamos é alguém que observa o real como “o caudal onde nos libertamos do fingimento, das armadilhas da sedução”.

Em A Cicatriz do Ar encontramos dois tipos de textos: 1) Bloco-Notas 2) A Cicatriz do Ar.

“Bloco-Notas é constituído sobretudo por crónicas de viagens. Trata-se de uma escrita muito vegetal, pictórica, registando as diversas gradações de luz e sombra à medida que se vai modificando a paisagem. É uma escrita errante, porque andarilha. [...]

A casa é sempre o lugar de refúgio, de intermezzo entre viagens. Outro dos elementos recorrentes nestas crónicas é o impacto dos livros no Autor e na forma como estes afectam o curso do seu pensamento que é tudo menos Morta Lacum…N’A Cicatriz do Ar” damo-nos conta da dimensão que para o Autor adquire a poesia e da grandeza dos poetas a quem chama de “os latifundiários da alma”. Mais uma vez, apercebemo-nos do que é para o Autor o processo poético de decantação e da aprendizagem ao longo da vida da “arte de se tornar poeta”; da forma como a poesia se forma a partir daquilo a que chama “momentos congelados do quotidiano” (p.23)

N’A Cicatriz do Ar presenciamos sobretudo, a alternância e, por vezes a sobreposição de relatos do quotidiano com breves instantes de poesia (p.24). Ou do bailado entre sarcasmo e nostalgia.

Onirismo e surrealismo estão presentes nos relatos de sonhos ou projecções das preocupações do dia-a-dia que afectam o estado de vigília mas se manifestam ampliadas durante o sono.

O sentido do pitoresco e a ligação com a terra são-nos dados pela presença de onomatopeia, dos regionalismos e registo de diferentes sotaques (p.30 e 31).

A poesia de Jorge Fallorca é uma poesia animista, onde, na Natureza, está normalmente projectado o reflexo da alma humana.

Para o Autor “O sul continua a ser uma transgressão” (P.33), motivo pelo qual o Algarve e o Norte de África continuam a ser lugares de eleição.

A paisagem vai mudando da desolação da Beira e do cabeço de Mortágua para o quadro do litoral algarvio. O insólito invade o quotidiano e a escrita está na linha de fronteira entre (o desejo) da partilha e o impulso à clausura.

A Cicatriz do Ar pode ser o relâmpago de uma ideia, ou o aflorar à memória de algo que estava esquecido, sepultado nas dunas do inconsciente. Ou a inspiração que surge quando menos se espera.

“Nada me enternece mais do que vê-la finalmente debruçada a brincar aos jardins nesta terra que tanto desejou e descobriu para se entregar, até me humedecer o olhar.”

O local privilegiado de observação é a casa na colina, um lugar marginal, de fronteira, entre o céu e a terra. O ninho da águia. Ou, se preferirmos, entre o mar e a montanha: a água, a terra e as pedras.

A Natureza é o outro prato da balança que permite o equilíbrio do ser humano. No outro extremo está a cultura, isto é, a porção do homem que é burilada pelo meio, pela dita civilização. Na escrita de J. Fallorca, a subjectividade das palavras é-nos dada pelas inúmeras sinestesias.

“Soa-me a nenúfares, mas tresanda a frutos.”

No que respeita aos livros, o Autor, tal como qualquer coleccionador e leitor compulsivo, vê-se a braços com a falta de espaços para guardar todos os livros: o mesmo se passando com a memória. É mais uma vez obrigado a recorrer ao processo de selecção/eliminação.

Para Jorge Fallorca o processo de escrita resume-se a aprendizagem e memória, onde o sortilégio das palavras e das letras se combinam com a paixão pela vida que se cruza com uma insaciável curiosidade cuja sede só se sacia com a leitura. [...]

Neste bloco-notas “As palavras são a casa do escritor”. O seu refúgio. O seu Graal.

A Cicatriz do Ar

Todo lo que se disse es poesía

Todo lo que se escribe es prosa

Todo lo que se mueve es poesía

Todo lo que no cambia es prosa

Nicanor Parra

Os textos de A Cicatriz do Ar são inequivocamente poesia. Móveis, flexíveis, podendo o leitor conferir-lhe o seu ritmo pessoal ao modular intencionalmente a frase com a tonalidade da voz, as pausas, criando a própria métrica, da respiração única e individual de cada um.

“A Cicatriz do Ar” pode ser lida com a voz cava de uma sibila, uma pitonisa, como quem lê um oráculo. As palavras, aqui, lançam um sortilégio, com o sabor de uma profecia. Enigmáticas, obscuras.

Ou o contrário. Pode ser lida com a voz angélica de um adolescente.

Uma poesia que poderá ilustrar o abandono dos homens pelos seus deuses, ou do povo pelos seus governantes, eternos tiranos, como na antiga Helade, antes da democracia de Péricles.

A escrita prossegue com a mesma errância do espírito, mas desta feita, pelos subterrâneos da mente. Os versos de Fallorca soltam-se, violentos e selvagens como o torvelinho de um vento do deserto, da loucura do sirocco. Por vezes, parecem pintar a destruição do corpo, a erosão causada pela passagem das areias do tempo.

A natureza, hostil, mas ainda incólume é evocada através do mar ou do vento trazendo mais uma vez à luz, a memória, soterrada.

A ânsia ou desejo de liberdade absoluta está patente na imensidão da paisagem matinal do deserto ou do mar, visto da amurada de um veleiro.

Nos últimos textos, é descrita a paixão da liberdade e dos excessos motivados pela descompressão que se segue à opressão.

O silêncio surgirá depois, constante e imenso, como a voz da natureza hostil.

“O luar por onde se escoa a vida rumo ao esquecimento”. Os últimos textos falam de morte, de uma vida que se dissolve no ar, deixando apenas um leve rasto de fumo – a cicatriz no ar.

Ou a errância de um Orfeu pelo Hades.

[...este e outro texto da Claudia de Sousa Dias,brevemente aqui ]

imagem: Miguel Carvalho

8 Comments:

João Menéres said...

Tinha o lançamento de mais um livro do
Germano Silva...

fallorca said...

Marta,
expresso-lhe, publicamente, a minha gratidão pelo seu entusiasmo me ter dado a oportunidade de ter quebrado 17 anos de «jejum» de ir ao Porto; conhecer bloguers familiares; o animado jantar e o inesquecível serão em sua casa.
De autocarro, de comboio ou de carro, pode ter a certeza de que voltarei, com a Nico.
Bem-haja(m)

Marta said...

...foi lá, muito perto,...no Soares dos Reis!

Marta said...

Jorge,

...se há aqui agradecimento a fazer, é meu/nosso!
... que bom ter chegado ao Porto com os seus livros...
...que bom foi ouvi-lo contar histórias - é um excelente contador de histórias...
...que bom - tão bom! - juntar-se um grupo fantástico à volta de A Mulher Descalça e de A Cicatriz do Ar...

...nós é que lhe estamos gratos!
muitíssimo.

... e volte sim; volte sempre...

Ps. estou furiosa pois não sei do cabo da máquina para descarregar as fotografias :(

Claudia Sousa Dias said...

oh...espero que não, Marta...!

Não tenho a certeza mas o texto tinha algumas gralhas que eu ia ainda eliminar. Deste uma vista de olhos, não deste?


csd

fallorca said...

:)

Carlos Azevedo said...

João Menéres, com alguma correria e um enorme atraso, consegue-se (ir a) tudo! ;-)

Beatrix Kiddo said...

fui ao Gato Vadio há dias pela primeira vez, hei-de voltar para ver com mais atenção