quarta-feira, novembro 9

A mulher descalça


Uma mulher foi vista a estender uma corda entre duas árvores. Dizem que pendurou roupa. Dizem que estava descalça. Era de fora. Não sabiam que sabia ler.


A mulher leu o chão e escondeu o calçado. Ninguém viu. A atenção estava posta no corpo pendurado pelos pés, descalços, no galho da árvore velha. O cabeço ocultava a várzea, o rio, o lugar dos vizinhos.

Gente erodida pela vida sem casos. Uma cheia, era uma cheia. Uma seca, era uma seca. Uma tempestade, era uma tempestade e uma queimada descontrolada pelo vento, era um fogo. Usavam as palavras como os hábitos e as alfaias emprestadas. As de sempre. Poucas, simples, inquestionáveis. Não havia igreja, não havia escola, não havia cemitério. Nascia-se e morria-se. Era assim que semeavam e era assim que colhiam.

A mulher guardou o que leu no chão. Deixou os vizinhos com o caso. Mais tarde, veio em busca do calçado. Sabia que no lugar ninguém dormia, despertos no sono uns dos outros. Viu os lobos e viu as raposas. Lambiam-lhe a boca. Farejavam o que a mulher leu no chão. Leram-na e fugiram.

O corpo balançava ao sabor das garras e das dentadas. As orelhas estavam mordidas. A mulher baixou-se à altura dos lábios, esgaçados, soprou o que leu no chão. Levantou-se e procurou. O mato era todo igual. A árvore velha era o eixo. O caso era o ponteiro. O cabeço era o mostrador.

Desceu o cabeço. Atravessou a várzea. Chegou à margem do rio e cuspiu na corrente. Descalçou-se. Entrou na água. Voltou para casa vestida de limos. A mulher sentia-se entorpecida com tanta sabedoria. E adormeceu.

Quando acordou, metade do lugar fora entregue ao abandono. Os cães aliavam-se aos lobos. Os vizinhos fechavam-se em casa. A rua era território dos cegos. Palco de premonições. Sem público.

A mulher foi ao rio buscar a roupa. Debruçou-se com o relâmpago e o estrondo mostrou-lhe o raio. Desta vez, não fora um tiro. O caso mudara de figura. A mulher ficou muda.

Pendurou a roupa na corda que estendeu entre duas árvores e despediu-se das palavras. No lugar, dizia-se que estava descalça. Também era de fora. Mas não fizeram caso.


Jorge Fallorca in A Mulher Desclaça, 2011
 
[... excerto do livro que será apresentado no próximo sábado, na Gato Vadio, pela Claudia de Sousa Dias...]

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