domingo, novembro 6

Atravesso o amor, respirando





As barcas gritam sobre as águas.

Eu respiro nas quilhas.

Atravesso o amor, respirando.

Como se o pensamento se rompesse com as estrelas

brutas. Encosto a cara às barcas doces.

Barcas maciças que gemem

com as pontas da água.

Encosto-me à dureza geral.

Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.

Encosto a cara para atravessar o amor.

Faço tudo como quem desejasse cantar,

colocado nas palavras.

Respirando o casco das palavras.

Sua esteira embatente.

Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.

Colocado no ranger doloroso dos remos,

Dos lemes das palavras.



É o chamado rio tejo

pelo amor dentro.

Vejo as pontes escorrendo.

Ouço os sinos da treva.

As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.

É nas barcas que se atravessa o mundo.

As barcas batem, gritam.

Minha vida atravessa a cegueira,

chega a qualquer lado.

Barca alta, noite demente, amor ao meio.

Amor absolutamente ao meio.

Eu respiro nas quilhas. É forte

o cheiro do rio tejo.



Como se as barcas trespassassem campos,

a ruminação das flores cegas.

Se o tejo fosse urtigas.

Vacas dormindo.

Poças loucas.

Como se o tejo fosse o ar.

Como se o tejo fosse o interior da terra.

O interior da existência de um homem.

Tejo quente. Tejo muito frio.

Com a cara encostada à água amarela das flores.

Aos seixos na manhã.

Respirando. Atravessando o amor.

Com a cara no sofrimento.

Com vontade de cantar na ordem da noite.



Se me cai a mão, o pé.

A atenção na água.

Penso: o mundo é húmido. Não sei

o que quer dizer.

Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa

como não saber nada.

É ser puro, existir ao cimo.

Atravessar tudo na noite despenhada.

Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,

da carne.

Como para cantar nas barcas.

Morrer, reviver nas barcas.



As pontes não são o rio.

As casas existem nas margens coalhadas.

Agora eu penso na solidão do amor.

Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,

o que acompanha o amor.

Acompanha o amor algum peixe subtil.

 
Herberto Helder

1 Comment:

Anónimo said...

que poema... filipe