sexta-feira, setembro 3

A fada Oriana


Era uma vez uma fada chamada Oriana. Era uma fada boa e era
muito bonita. Vivia livre, alegre e feliz dançando nos campos,
nos montes, nos bosques, nos jardins e nas praias.
Um dia a Rainha das Fadas chamou-a e disse-lhe:
- Oriana, vem comigo.
E voaram as duas por cima de planícies, lagos e montanhas. Até
chegarem a um país onde havia uma grande floresta.
- Oriana - disse a Rainha das Fadas -, entrego-te esta
floresta. Todos os homens, animais e plantas que aqui vivem,
de hoje em diante, ficam à tua guarda. Tu és a fada desta
floresta. Promete-me que nunca a hás-de abandonar.
Oriana disse:
- Prometo.
E daí em diante, Oriana ficou a morar na floresta. De noite
dormia dentro do tronco de um carvalho. De manhã acordava
muito cedo, acordava ainda antes das flores e dos pássaros. O
seu relógio era o primeiro raio de sol. Porque tinha muito que
fazer. Na floresta todos precisavam dela. Era ela que prevenia
os coelhos e os veados da chegada dos caçadores. Era ela que regava as
flores com orvalho. Era ela que tomava conta
dos onze filhos do moleiro. Era ela que libertava os pássaros
que tinham caído nas ratoeiras.
À noite, quando todos dormiam, Oriana ia para os prados dançar
com as outras fadas. Ou então voava sozinha por cima da
floresta e, abrindo as suas asas, ficava parada, suspensa no
ar entre a terra e o céu. À roda da floresta havia campos e
montanhas adormecidos e cheios de silêncio. Ao longe viam-se
as luzes de uma cidade debruçada sobre o seu rio.
De dia e vista de perto a cidade era escura, feia e triste. Mas à noite
a cidade brilhava cheia de luzes verdes, roxas, amarelas,
azuis, vermelhas e lilases, como se nela houvesse uma festa.
Parecia feita de opalas, de rubis, de brilhantes, de
esmeraldas e de safiras.
Passou um Verão, passou um Outono, passou um Inverno. E chegou
a Primavera. E certa manhã de Abril, Oriana acordou ainda mais
cedo do que o costume. Mal o primeiro raio de sol entrou na
floresta, ela saiu de dentro do tronco do carvalho onde
dormia. Respirou fundo os perfumes da madrugada e fez uns
passos de dança. Depois penteou os cabelos com os dedos das
mãos a fazerem de pente e lavou a cara com orvalho.
- Que manhã tão bonita! - disse ela. - Nunca vi uma manhã tão
azul, tão verde, tão fresca e tão doirada.
E foi pela floresta fora dançando e dizendo bom-dia às coisas.
[...]
Sophia de Mello Breyner Andressen in A fada Oriana, Figueirinhas

1 Comment:

Poetic GIRL said...

Este é sem dúvida o livro da minha infância! beijoca