sábado, setembro 25

Folhas de Outono [outra vez]


Não sei se vos acontece. A mim, sim. Um episódio simples do quotidiano transforma-se sumariamente numa vida inteira. Outras vezes, uma frase, num livro,num bilhete de cinema, no muro do facebook ou da cidade, transporta-nos tão longe quanto o horizonte.
Às vezes, uma frase escrita do outro lado do oceano, estremece-nos o chão e o corpo. Como se tudo estivesse unido pelo mesmo fio condutor de emoções e afectos sem latitude. Uma frase, devolve-nos a infância intacta, como se nunca a tivéssemos pensado de outra forma, a não ser daquela: resumida e singela como um gesto.
Alavancas emocionais, talvez. Umas fustigam-nos, outras, elevam-nos.
Às vezes, coisas arrumadas dentro de nós, algumas sobre as quais nunca falamos, chegam-nos incrivelmente actuais como se tivessem estado sempre ali, à vista, diárias como um jornal. E é nesses momentos que os meus olhos e os meus ouvidos e, até, o meu coração, não me são suficientes para que acredite nessa hora. Fico sempre espantada. E chamo quem estiver por perto se, por perto, estiver alguém que me possa emprestar os olhos, os ouvidos. Eventualmente, o coração. Só para que, quando eu duvidar - porque eu duvido muitas vezes – me possam assegurar que foi verdade. Para que não fique incrédula, encerrada no breve acontecimento, como num escafandro. Os pequenos acontecimentos - pequenos e breves - são sempre os mais significativos. Acontecem discretamente na nossa vida e, às vezes, a nossa vida nunca mais regressa como era.
Eu li: «Outono... e o meu passatempo favorito: chutar as folhas caídas na calçada». Emocionada, li novamente e novamente, ainda. Levantei-me. Dei uma volta à secretária, como se fosse ao mundo. Ao meu mundo. E voltei a ler. É tão simples. Meio mundo gostará de chutar folhas secas, no Outono, pensei. Mas porque é que eu nunca o li antes, por aí?
Chamei outros olhos para testemunharem o momento. Sei que o vou pôr em causa muitas vezes. E vou precisar de perguntar, como quem precisa de um abraço.
- Ora lê, por favor. E agora escuta.
Liguei à minha mãe, para me obliterar as recordações. Mais, até, para as legitimar. As recordações são como o poder, precisam de ser legitimadas. Algumas.
Aquela infância que me chega e que, ainda hoje, me empurra para o meio dos parques e me impele a chutar as folhas caídas, na relva ou no passeio, mesmo quando estou de tacões altos, precisava de outra voz que não a minha, para se tornar autêntica.
Saber sozinha desse meu ritual de outono era como se não fosse verdade.
- Mamã, o que é que eu gosto mais de fazer no Outono?
- Compotas, filha. Porquê? precisas de frascos?
- Não! O que é que eu mais gostava de fazer no Outono, em criança?
- Ah! Chutar folhas secas... e riu-se...parecias um rapaz...o que tu gostavas de chutar as folhas... e correr e saltar atrás delas. Estragavas tanto as botas – ortopédicas – lembras-te das tuas botas?
- Sim, azuis. Escuras.
- E gostavas de atirar as folhas para o lago e ficar a vê-las deslizar, como barcos, e gostavas de as meter dentro dos livros e de as pousar numa folha de papel e contorná-las com o lápis... e gostavas de as triturar, uma de cada cor, como se fossem especiarias. Tinhas uma sisma com a origem das especiarias. Lembras-te, filha? E de onde nascem as especiarias, mamã? E a pimenta nasce, onde? E qual é a árvore que dá açafrão? As especiarias nascem da folhas do Outono?
Sempre gostaste do Outono, filha. É verdade. Eu não. Não gosto nada do Outono. Deprime-me, este tempo. Como te foste lembrar disso, agora, filha?
Desse Outono, filha, agora tive saudades.
imagem: Zaclis Veiga

15 Comments:

Carla Farinazzi said...

Marta, que lindo!! O último diálogo é sensacional. Simples e perfeito...
Apenas para dizer-te que "Os pequenos acontecimentos - pequenos e breves - são sempre os mais significativos. Acontecem discretamente na nossa vida e, às vezes, a nossa vida nunca mais regressa como era." Foi mais ou menos isso que gerou a minha ideia do blog. Pequenos, mas intensos e irreversíveis.

Um beijo

Carla

Anónimo said...

Marta, você é de um carinho imenso a escrever coisas singelas e lindas que não há jeito de ficar indiferente. Fiquei te amando e gostando um pouco mais do Outono.

cduxa said...

Olá Marta

Também gosto de folhas de Outono.
Até fiz um posts com o mesmo nome.
Isto lá no começo de Setembro. Gosto da paleta cromática das folhas. Também as apanho. Gostei muito de ler o teu texto.

João Menéres said...

Que delícia de escrita a tua, MARTA!

> Não gosto nada do Outono. Deprime-me, este tempo. Como te foste lembrar disso, agora, filha?
Desse Outono, filha, agora tive saudades. <

Bom Domingo.

Um beijo.

Larissa Marques said...

Marta,
Que coisa mais linda!!
Que bom te encontrar também!

Anónimo said...

Sabes que mais, minha querida, a tua mãe é que está cheia de razão, precisas de frascos? Vai mas é para a cozinha, fazer as tuas deliciosas compotas que eu, este ano, ainda não vi nenhuma e como dizes já estamos no Outono :)
Beijos
P. e familia

Telmo said...

Muito bonito. Também me sinto feliz no Outono, e hoje aos 43 anos ainda mimo as folhas das árvores caídas no Outono.
Gostei de ler, e a partir de agora serei um leitor atento.
:)

Funes, o memorioso said...

Eu bem me queixo, bem protesto, bem lamento. Mas não há maneira de a convencer, Marta.
A Marta tem um talento superior. Escreve melhor do que ninguém. E o que faz com esse talento? Esbanja-o a falar do Outono, da vida e da realidade.
Quantas vezes terei de lhe dizer quer a realidade não dá boa literatura?
A realidade só dá Tolstois e Vitor Hugos?
É isso que quer ser? Uma Tolstoi ou uma miserável, como o Hugo?
Você podia ser Lewis Caroll, podia ser Borges, podia ser os autores anónimos que escreveram as "mil e uma noites". Optou por se deixar impressionar pela realidade, que lhe hei-se eu fazer?

Marta said...

Carla,

1 beijo imenso :)

Cduxa,

obrigada. um abraço :)

João,

1 abraço e um beijo :)

Larissa, um abraço:)

P. depois falamos sobre compotas e seus derivados :)

Telmo, obrigada e bem vindo :)

obrigada a TODOS

---------------------------------

agora nós:

Prof. Funes,

deixe-me em paz, pelo menos no próximo mês!

se soubesse como a minha vida está do avesso, aliás, de pernas para o ar; como o meu domingo está que mais parece a VCI nos fins de tarde, teria dó de mim!!
eu cá sei porque registei esta história!!!! porque não vai ver o Senhor dos Anéis em vez de me vir aqui atazanar? ou ler FICÇÕES, ou escrever posts brilhantes sobre política e afins... em vez de perder tempo com esta minha história demasiado real? hum?

Anónimo said...

Pareces mesmo tu a contar uma daquelas tuas histórias.
Bjo,
Cris

Claudia Sousa Dias said...

lindo, minha QUERIDA.

Alinho com o pensamento da Cris.


csd

Anónimo said...

Marta,
Também gosto muito do Outono.
Tenho mais uns anitos do que tu, poucos, e também adoro calcar as folhas secas.
Um rico programa para um destes dias...
Como consegues tu escrever "estas coisas"?
Genial!!!
Bj
Eu

Marta said...

cris e cds, beijo :)





[Eu, eu quem?]

Anónimo said...

Eu mesma!!
P

Marta said...

ah! fala-me a cantar. de P mudas para Eu. a ver se nos entendemos :)
andam por aqui duas P muitoooooooooo
queridas :)
poemos combinar que a partir de agora ficas Eu :)