segunda-feira, setembro 6

A boca


A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?

Eugénio de Andrade

8 Comments:

Anónimo said...

Yes... this music intoxicate my soul :)
sm

Anónimo said...

...intoxitcates...

Marta said...

lamento, sm :(

mas eu gosto:)

[e creio que é na caixa de cima este comentário. mas não faz mal]

PAS[Ç]SOS said...

Na boca…
mar de sede em que me engulo
para te beber
em tragos de morte
quando desejo não morrer
por te ter
maré de fome
a invadir
a minha boca…


[... que me perdoe Eugénio de Andrade, a ousadia destas palavras!]

Anónimo said...

pois... aqui há uma musicalidade diferente... peço desculpa :(
sm

Marta said...

... o Senhor Poeta e as palavras desassossegadas. Eugénio de Andrade, perdoa, sim :)
abraço, João.

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não tem de pedir desculpa SM...
gostos discutem-se, claro! e haverá por aqui muita outra música que não aprecie. é natural.

beijinho :)

Zaclis Veiga said...

Descobri Eugênio de Andrade por tuas mãos e tenho recebido lindos versos de tocar a alma.
Adorei esse post. Vou copiá-lo, ok?
beijo cheio de saudade

Marta said...

leva, querida Zaclis. tudo.
e que honra, ter sido pela minha mão, Eugénio de Andrade.

fica tb com este:

ONDE OS LÁBIOS

Os lábios.Distante, arrefecida chama.
...Não só os lábios, também as estrelas
são distantes.
E os bosques.
E as nascentes.
Também as nascentes são distantes.
As nascentes onde os lábios,
onde as estrelas bebem.
Só o deserto é próximo, só
o deserto.
Eugéno de Andrade